Homenagem só a quem merece

Avenida General Golbery do Couto e Silva, avenida Presidente Castelo Branco, via elevada Presidente Arthur Costa e Silva, rua Doutor Sérgio Fleury, rua Ministro Mário David Andreazza. A história condenou a ditadura militar brasileira,...

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Avenida General Golbery do Couto e Silva, avenida Presidente Castelo Branco, via elevada Presidente Arthur Costa e Silva, rua Doutor Sérgio Fleury, rua Ministro Mário David Andreazza. A história condenou a ditadura militar brasileira, mas os mapas das cidades paulistas ainda estão recheados de homenagens aos seus gestores. Até torturadores famosos, como Sérgio Paranhos Fleury, e outros nem tanto, como Dan Mitrione, estadunidense que ensinou tortura a polícias brasileiros nos anos 60, viraram belas praças, ruas comerciais e até avenidas na capital e no interior.
De tempos em tempos, organizações como o Tortura Nunca Mais conseguem convencer políticos locais do absurdo das homenagens. Foi o que aconteceu há dois meses em São Carlos, interior do estado. Na ocasião, uma lei do vereador petista Pedro Navarro fará com que o nome da rua Sérgio Paranhos Fleury passe a se chamar rua Dom Hélder Pessoa Câmara. Trata-se de um caso raro. Em geral, é mais fácil um político homenagear Ayrton Senna do que “desomenagear” um militar da ditadura.
Foi pensando nisso em uma de suas muitas viagens pela rodovia Castelo Branco que o deputado estadual paulista Milton Flávio, do PSDB, teve a ideia de criar um projeto de lei que proíbe o Poder Executivo estadual de batizar logradouros públicos com nomes de militares que atuaram na época da ditadura. O projeto sugere ainda que os locais já batizados com nomes de ícones fardados, como a rodovia Castelo Branco, mudem de nome. “Estamos batalhando por isso há dez anos. Acho o projeto maravilhoso. Não interessa de onde vem, o que importa é que finalmente aconteceu”, celebra Rose Nogueira, diretora do Tortura Nunca Mais.
Trâmites
Uma vez apresentado em plenário, o projeto de Milton Flávio conseguiu rapidamente o apoio de tucanos, petistas e até dos socialistas do PSoL. “Em geral, sou contra mudanças de nome de ruas, em função do custo com mapas, guias etc. Mas nesse caso sou a favor. Não se deve fazer alusão aos responsáveis pela ditadura. O projeto deve ter o apoio da maioria na casa”, sugere o deputado petista Vicente Cândido. Pelas contas de Milton Flávio, o projeto deve ter apoio, pelo menos, das bancadas do PSDB, PT e PSoL, o que já seria meio caminho andado. Caberia então ao ex-perseguido político José Serra bater o martelo final. Nos corredores da Assembleia paulista, poucos se atrevem a criticar abertamente o projeto. Pegaria mal. Mas os que se dizem contra, argumentam que a lei causaria transtornos para os moradores, que teriam que mudar de CEP.
“Sempre entendi que a palavra revanchismo não cabe na política”, argumenta Campos Machado, deputado e líder do PTB na casa. A propósito: é dele um projeto que muda o nome da estação Jardim São Paulo do metrô para estação… Ayrton Senna. “Este projeto de lei tem a finalidade de reparar os erros remanescentes daquela época, no tocante às homenagens patronímicas no estado de São Paulo, uma vez que nossos jovens, pouco conhecedores da verdadeira época militar, acreditam que tais personalidades militares fizeram por merecer e perpetuam-se como homenageados, quando na verdade foram e são reconhecidamente transgressores do Estado democrático de Direito, tendo usado torturas físicas e psicológicas durante o período militar. Espero que as prefeituras, inspiradas na minha lei, adotem esse critério. Espero que algum deputado faça o mesmo no nível federal”, sustenta o deputado Milton Flávio.
O parlamentar reconhece, porém, que a lei se restringe aos logradouros do estado e que a mudança dos nomes já existentes depende da boa vontade do governador. “Um nome de rua é o endereço de um cidadão. A mudança influiria na vida das pessoas. Para a maioria, o que importa é o endereço”, contrapõe Maurílio José Ribeiro, historiador da USP e chefe de seção de denominação de logradouros públicos da cidade de São Paulo. Estudioso do assunto, ele conta que boa parte das nomeações de rua das cidades homenageia os seus primeiros moradores, que em geral eram grileiros e ou loteadores que fizeram a cidade crescer de forma desordenada.
Sim, o projeto é polêmico. Mas diante dele é impossível não imaginar quais seriam os melhores nomes para substituir os líderes fardados nas placas. Se for pegar a estrada, vá pela rodovia Glauber Rocha, para cruzar o centro, a melhor opção é o elevado Vladimir Herzog… F



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2 comments

  1. lo silva

    Sugiro que se tire também o nome da mãe do Maluf das placas , já que o espertalhão e outros inúteis da política só sabem fazer isso .

  2. lo silva

    Sugiro que se tire também o nome da mãe do Maluf das placas , já que o espertalhão e outros inúteis da política só sabem fazer isso .

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