Informação qualificada para o enfrentamento

Na primeira parte da entrevista, Irma Passoni explica a construção do conceito de tecnologias sociais a partir da mobilização do movimentos sociais. • Leia a abertura da entrevista: “Tecnologia social é a ponte entre...

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Na primeira parte da entrevista, Irma Passoni explica a construção do conceito de tecnologias sociais a partir da mobilização do movimentos sociais.

Leia a abertura da entrevista: “Tecnologia social é a ponte entre a necessidade e a solução do problema”
Leia a segunda parte da entrevista: Irma Passoni explica valores da tecnologia social 

Foto: Arquivo pessoal
Arquivo PessoalFórum – Como a senhora passou do movimento contra a Carestia para trabalhar com tecnologias sociais?
Irma Passoni –
Faço parte de um grupo grande que começou a trabalhar nos movimentos populares em 1968. Na década de 60, tínhamos extrema necessidade de tudo nos bairros de São Paulo ou de qualquer cidade do estado, assim como em outros lugares, seja na Bahia, seja em Pernambuco, seja onde for.
A população não era considerada cidadã com direito a benefícios sociais. No caso de São Paulo, ao sul do rio Pinheiros – e eu morava no Jardim Ângela –, não tínhamos transporte, hospital, creche, escola (eu era prof estado) sem iluminação publica, asfalto, nem rede de esgoto, apesar de estar a beira da [represa] Guarapiranga. Tínhamos outro desafio, eram trabalhadores que vinham do interior do estado nas mais de mil fábricas na região de Socorro e Santo Amaro que começou a passar por uma modernização tecnológica desconhecida dos trabalhadores.
Os patrões diziam que não havia como os operários, vindo do campo, analfabetos e sem formação, trabalharem com automação e controle. Era uma época de demissões em massa, custo de vida alto e falta de informação.
Por falta de infra-estrutura, começamos a organizar pessoas em plena ditadura para resolver os problemas que tínhamos. Seja de emprego, na pastoral operaria, seja de mulheres nos problemas práticos da comunidade. As crianças não tinham escola. Eu era ACT [admitida em caráter temporário] – e, com nosso salário de professora, precisávamos alugar sala, dar merenda e material. Tudo dependia de nós.
Organizamos pressão popular para conquistar as coisas. Nesse processo, enfrentamos prisão, tortura, exílio, sempre a tentativa de anulação, porque éramos taxados de revolucionários, de comunistas. Como organizamos um grande movimento contra carestia, a alta do custo de vida e arrocho salarial, nos capacitamos para constatar o problema e organizar.
Com a anistia, o movimento das Diretas Já, conquistamos a democracia e passamos a buscar o melhor jeito de enfrentar os problemas, porque não tínhamos conseguido tudo, mas pelo menos o direito de voto. Quando eu era deputada federal, começamos a discutir como a ciência e a tecnologia poderiam ajudar a resolver problemas da sociedade.
Tanto na Constituinte em 1988 quanto na CPMI [Comissão Mista Parlamentar de Inquérito] Causas e Dimensões do Atraso Tecnológico no Brasil, de 1992, em que fui relatora – o presidente era Mario Covas – estava claro que precisava organizar o conhecimento e a informação qualificada. Era importante a participação popular para enfrentar quem estivesse no governo, fosse o Jânio Quadros [prefeito de São Paulo de 1985 a 1988] e até Luiza Erundina como prefeita [de 1988 a 1992], mesmo solidária às lutas dos movimentos sociais.

Fórum – Como construir esse conhecimento e essa informação qualificada?
Irma –
Um dos passos foi dado entre 2000 e 2002, o ministro [da Ciência e Tecnologia, Ronaldo Mota] Sardenberg, me chamou para ajudar a organizar a [2ª] Conferência Nacional de Ciência e Tecnologia, para mobilizar parlamentares e o movimento social. Estava claro que a revolução da informação estava presente, e precisávamos de apoio da ciência e da tecnologia para o desenvolvimento do país. Com entidades como a Abong, a Asa e o Banco Palmas fomos participar da Conferência. Percebeu-se que era necessário promover desenvolvimento humano e social, é preciso que se conheça para fazer com que o ser humano seja mais pleno. Entre as 43 recomendações, foram retomados os setores industrias, mas e a área social, como fica? Em 2001 e 2002 foi promovida a política para desenvolvimento de software. A parte técnica é muito dura para o movimento social trabalhar com a população, mas o conhecimento continua a ser importante para o movimento. Então criamos o Instituto de Tecnologia Social. Em um processo de debates, discussões e pesquisas, construímos, em consultas com 700 entidades.

Leia a abertura da entrevista: “Tecnologia social é a ponte entre a necessidade e a solução do problema”
Leia a segunda parte da entrevista: Irma Passoni explica valores da tecnologia social 
 



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