Jackson Lago: erros facilitaram a perda do mandato

Em 16 de abril deste ano o então governador do Maranhão Jackson Lago foi destituído do cargo em julgamento no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). A acusação: abuso de poder econômico na disputa contra Roseana...

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Em 16 de abril deste ano o então governador do Maranhão Jackson Lago foi destituído do cargo em julgamento no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). A acusação: abuso de poder econômico na disputa contra Roseana Sarney, filha do atual presidente do Senado e chefe político do estado há mais de quatro décadas.

É irônico imaginar que a família Sarney possa sofrer abuso de poder econômico numa eleição no estado, mas assim entenderam os ministros do TSE.

No Maranhão, mais propriamente em São Luís, estive com Jackson Lago numa conversa de pouco mais de uma hora no seu apartamento num sábado pela manhã. Na noite anterior, havíamos nos encontrado no lançamento do jornal local Vias de Fato.

O surpreendente desta entrevista é que Jackson Lago faz um balanço do processo que o levou a perder o mandato, mas não se vitimiza, prefere a autocrítica. Admite, por exemplo, que quando caiu, não houve resistência popular. E que isso se deveu ao fato de ter feito um governo convencional, sem ter investido na organização de base. Confira trechos abaixo.

Fórum – O senhor poderia resgatar a história da perda do seu mandato como governador? Depois de certo tempo, como o senhor avalia o que ocorreu?
Jackson Lago –
A história começou quando recebemos informações de que um faz-tudo do Sarney teria contratado um advogado em Goiás para preparar essa peça. Eles teriam procurado advogados famosos de Brasília e daqui, mas eles não teriam aceitado a tarefa. Depois de fazer isso, começaram a produzir provas compradas. Compraram pessoas, uma delas, inclusive, foi à Polícia Federal dizer que tudo que havia dito tinha sido por dinheiro, mas também por pressão, medo e intimidação. No início, o que sabemos, é quem nem o próprio Sarney acreditava muito nisso. Mas quando a coisa foi se materializando, ele resolveu assumir. Tanto que, já na parte final, contratou o ministro Sepúlveda Pertence para ser um de seus advogados no julgamento.

Fórum – O senhor não teria subestimado a influência do senador Sarney?
Lago –
Mas é que ninguém acreditava que aquilo pudesse prosperar. Além disso, na primeira metade do governo, está tudo tão por fazer que você não tem tempo, vira um autômato ali dentro. Nos últimos tempos, eram onze e meia, meia-noite, e eu tomava um remédio pra dormir e seis e meia acordava. Era uma bruta rotina. Até por isso terminamos também não priorizando o que deveria ser priorizado. A questão da organização popular até que aconteceu numa forma institucional, porque passamos os recursos para os municípios. O governo do estado saiu botando os municípios para construir escola do estado, colocando dois municípios para construir estrada estadual etc., mas isso não foi suficiente.
Mesmo assim, nos dois primeiros anos entregamos 173 escolas de boa qualidade e dezenas estavam em construção quando nos tiraram do governo. Também fizemos um hospital grande de alto poder resolutivo no interior, a partir de investimento direto em dois municípios, para os quais depositamos o dinheiro para que ele fosse feito. As coisas aconteciam, mas o fato é que não fomos capazes de priorizar a questão da organização. Tanto é que, ao cairmos, a resistência foi muito pequena. Um grupo de abnegados, mais o MST e o movimento por moradia foram os que resistiram. A grande mídia, por exemplo, conseguiu de certa forma nos distanciar do sindicalismo.

Fórum – O senhor admite então que não houve a resistência que deveria ter havido quando o senhor foi destituído do cargo?
Lago –
Não houve. E acho que essa é uma culpa nossa, porque fomos um governo convencional. Minha tese é a de que deveríamos ter um plebiscito com relação ao Sarney na eleição de 2006. Deveríamos ter juntado todo mundo e ver quem tinha condição de enfrentá-lo. E aí escolher essa pessoa como um candidato único. A gente trabalharia um programa de governo e, na construção disso, passaria a se conhecer. Nossa tese não prevaleceu porque o então governador José Reinaldo Tavares [hiperlink: filiado ao PSB, governou o Maranhão de 2002 a 2006 e foi ministro dos Transportes no governo Sarney entre 1986 e 1990. Deve sair candidato ao Senado nas próximas eleições], que tinha sido eleito pelo Sarney e rompido com ele, pensava de outra forma. Aliás, em 2002 nós já teríamos chegado ao governo não fosse uma outra armação. O Zé Reinaldo era o candidato do Sarney e eu era o candidato pelo PDT. Além de nós, o PT tinha um candidato e o PSB outro. O Zé Reinaldo teve 48% dos votos, no primeiro turno, e PT teve 5% e o PSB, 5%. Eu tive 42%. Tinha que ter segundo turno.
Naquela época, o Zé Reinaldo era um técnico do grupo Sarney, não tinha um nome, ele não era político. Seria muito fácil pra nós termos uma imensa vitória naquele segundo turno. Seria uma vitória mais fácil do que foi a contra a Roseana, que era um nome ótimo. Mas esse mesmo TSE que nos caçou o mandato agora, à época também atendeu ao Sarney e não deixou ter segundo turno. Eles fizeram um acordão e anularam 5% dos votos do cunhado da Roseana, que era do PSB, e o que era 48% do Zé Reinaldo, virou mais de 50% para ele, impedindo o segundo turno. Esse mesmo TSE não deixou ter segundo turno. Acontece que na metade do governo do Zé Reinaldo houve uma briga intensa, uma explosão, porque a esposa dele era uma mulher de muita autoridade dentro do governo, e a Roseana queria continuar sendo governadora. A mulher do Zé Reinaldo não deixou e houve o rompimento. Foi a primeira vez que um governador do estado rompeu com o Sarney. E o Zé Reinaldo passou a ser mais um de nós. Hoje ele é mais um de nós, que estamos há 40 anos nessa luta anti-Sarney.
Na eleição passada a tese dele era de que poderia haver várias candidaturas no primeiro turno. E ele lançou uma chapa com o ministro (Edson) Vidigal, que era presidente do Superior Tribunal de Justiça (STJ). Aliás, o próprio Vidigal conta que ele não foi convidado para ser um dos candidatos, mas que foi convidado para ser governador. Essa história de dois candidatos nunca teria sido tratada com ele. Mas no curso da campanha nós nos encontramos e combinamos que no segundo turno um teria o apoio do outro. E isso foi cumprido, ele cumpriu. E quando chegamos ao segundo turno tivemos que reunir os apoios e ir conhecendo as pessoas sem ter tempo. Então quando você ganha, vai todo mundo para o governo. E isso é uma coisa ruim para o processo democrático. Mas se você não faz assim, passa a ser considerado ingrato por não ter ajudado quem o ajudou a chegar lá. Nosso momento de ter chegado ao governo e ter feito a organização popular desde o primeiro dia era em 2002. Nós íamos chegar praticamente sós e teríamos o apoio só do PT e do PSB. A verdade é que o Maranhão tem dois grandes partidos: o Sarney e o anti-Sarney.

Fórum – Então o senhor faz uma autocrítica tanto dos acordos que fez como da sua passagem pelo governo?
Lago –
Hoje a gente olha para trás e faz muita autocrítica. Quanto mais o tempo passa, mais a gente tem a convicção do que deixou de ser feito e deveria ter sido feito pra não deixar que eles levassem o governo assim no “tapetão”, sem resistência popular. Tanto que agora nós estamos trabalhando com mais critério a articulação para a próxima eleição. Claro, tem que haver coligações formais, nós precisamos de tempo de TV, o PDT tem um tempo muito pequeno. Quem tem tempo grande é o PSDB, o PT, o PMDB e o DEM. O PMDB e o DEM são deles. O PT está nessa eleição interna (a renovação dos diretórios que acontece neste mês). E temos o PSDB, que também tem tempo grande e que na eleição passada já quis se coligar conosco. Teria sido melhor para nós se tivéssemos nos coligado desde o começo com eles, mas aí barrou na cúpula do PDT, com a candidatura do Cristovam Buarque, o que impediu a coligação aqui. Agora isso não vale para essa eleição [hiperlink: nas eleições de 2006 valia a regra da verticalização, que obrigava os partidos a repetirem as coligações políticas acertadas na esfera federal também nos estados].
Então, se o PDT vier a lançar candidato próprio ou vier a se coligar para presidente com outro partido, isso não tem mais importância. E o PSDB tem tempo de TV e se precisar coligar vamos nos coligar com eles. Até porque temos boas relações com muitos prefeitos do PSDB, sobretudo nas principais cidades, como Imperatriz e São Luis. Aí restará ver o que vai acontecer com o PT. Se tivermos a sorte de receber o apoio deles, seria muito bom porque resultaria num equilíbrio, o PT de um lado e o PSDB do outro. Acho que isso seria muito bom para a nossa candidatura e para o Maranhão. Hoje, quando olho à distância o que aconteceu, não sinto nenhum ânimo de chegar ao governo só por chegar. Vale a pena uma candidatura nossa, mas numa perspectiva do alto empoderamento do coletivo. Não tenho mais idade pra errar e recomeçar. Gostaria muito de chegar ao governo, mas com um outro time. E que no curso da campanha ficasse claro qual é o programa, a proposta.

Fórum – O senhor avalia, então, que caiu porque também não pôs em prática o que o Maranhão desejava?
Lago –
Os sonhos, inclusive os nossos próprios sonhos, aqueles que nos estimularam à luta desde a juventude até hoje, nós não conseguimos concretizar. Terminamos entrando no convencional, num governo com qualidades, mas sem fazer a diferença que sonhamos. Agora nós queremos ver se construímos o contrário. Temos que criar as condições, inclusive organizacionais, para chegar ao governo e começar esse tipo de governo. Isso nos seduz. É isso que os companheiros esperam de nós e eu que já estou com 74 anos, como disse, não tenho mais tempo para recomeçar.

Fórum – Como o senhor avalia esse recente episódio da crise no Senado que expôs tanto o Sarney e o fato de a mídia não ter dado o devido destaque ao que se passou com o senhor aqui no Maranhão?
Lago –
Na realidade, como eu disse, no começo não acreditávamos que haveria uma decisão tão violenta. Quando começamos a sentir que era possível, procuramos conversar com pessoas. O PT verdadeiro estava conosco, mas o PT oficial não podia ser contra o Sarney. Conversamos inclusive com o presidente da República e ele me disse: “está bom, procura o Gilberto Carvalho”. Mas senti que a coisa era muito difícil.

Fórum – Essa conversa foi pessoal?
Lago –
Foi pessoal, lá em Teresina, em um encontro intermediado pelo governador Wellington Dias (PT/PI). Estava tendo uma solenidade e o Wellington disse: nós somos devedores, nós temos que pagar, porque eu ajudei a fazer aquele comício de Timon. (comício em que Lula foi ao Maranhão declarar apoio a Roseana Sarney no segundo turno da campanha de 2006). Foi nesse contexto que conversei com o presidente Lula, a partir da intermediação do governador Wellington Dias. Hoje compreendo que a correlação de forças é essa. O Sarney está forte como nunca foi ao longo de 50 anos de vida pública dele. Quando ele foi por cinco anos presidente da República, não mandava tanto quanto manda hoje no governo Lula. Quem mandava à época era o Ulysses (Guimarães). Para você ter uma ideia aqui são 56 cargos federais. Eram três do PT e 53 do Sarney. Depois, o PT perdeu um, ficaram dois para o PT e 54 para o Sarney.
Fui governador e nunca vivi o delírio de pensar que era possível reivindicar algum desses cargos. Primeiro, porque sei o quanto o Sarney pressionava por eles. E, segundo, porque achava que o PT, que não estava à frente do governo, tinha que ter o direito de ter uma parte desses espaços para indicar suas lideranças. O pessoal do PDT dizia: "Ah, tem o ministro do Trabalho que é do PDT, precisamos reivindicar a Superintendência Regional do Trabalho, vamos indicar para um companheiro do PDT". O pessoal da superintendência fez um documento pedindo a permanência da pessoa que estava e eu preferi não entrar nessa disputa. Não tinha a ilusão de que podia tirar alguém do Sarney. E se fosse para tirar alguém do PT, não ia tirar, porque o PT é um aliado nosso. Por isso, hoje só nos interessa retornar ao governo com condições políticas e organizacionais de poder enfrentar essa correlação de forças. O que temos que pensar é que, no nosso país, o sonho de uma nacionalidade é a soma de pedaços de muitos estados. Nosso sistema federativo na realidade não existe, a federação é só no nome. É só a soma. Então temos que raciocinar que o nosso Brasil é o Maranhão. Nós temos que concentrar toda nossa força no nosso Brasil-Maranhão, para ver se dá pra estabelecer o enfrentamento. Temos que olhar e ver se não vamos ser surpreendidos como fomos.

Essa matéria é parte integrante da edição impressa da Fórum de novembro. Nas bancas.



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1 comment

  1. José Cristian

    É triste ver os ideais socialistas serem barrados pela política vil dos acordos e conchavos. É triste ver o Maranhão e o Amapá – e parte do Governo Federal – como propriedades de um grupo político sem qualquer compromisso com o povo que o elege. Neste caso, que não o elegeu. Porque o governador de verdade no Maranhão é Jackson Lago. Roseana Sarney perdeu a eleição nas urnas e ganhou no tapetão.

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