Lixo cinco estrelas

Há 43 anos, os biólogos Edna e Luiz Toledo não sabem o que é colocar o lixo para ser recolhido. Sua casa de três andares está construída com ele do chão ao teto, e...

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Há 43 anos, os biólogos Edna e Luiz Toledo não sabem o que é colocar o lixo para ser recolhido. Sua casa de três andares está construída com ele do chão ao teto, e até o mais descartável para outros é considerado aqui uma matéria-prima nobre. Edna nos dá as boas-vindas à sua “Casa de Reciclados”, no município de Barra Mansa, a cerca de 150 quilômetros da cidade do Rio de Janeiro, com um café da manhã que inclui geleia feita com casca de banana, outra com polpa de abóbora e um pudim preparado com talos de couve.

Os restos do desjejum vão para um recipiente de cerâmica, “decomposteira”, criado por Luiz, onde o lixo orgânico se decompõe até se converter em fertilizante natural para a horta orgânica. Um passarinho, de reluzente plumagem branca e negra, bica os vermes desse adubo para alimentar seus filhotes. Qual parte da casa não é lixo?, pergunta o Terramérica. “Lixo?”, exclama Edna, entre surpresa e ofendida. “Aqui nada é lixo. Tudo se aproveita”, disse.

Foi Luiz que, preocupado com o que era desperdiçado nas casas e pelo enorme déficit de moradia no país, teve a idéia de construir barato com as sobras recicláveis. Assim, o casal começou a comprar entulho de demolições, garrafas, vidro quebrado, embalagens plásticas, papeis, papelões, embalagens de leite, tampinhas, latas, e o que parecia a utopia de “um louco”, numa época em que ninguém falava de aquecimento global, poluição ou emissão de gases de efeito estufa dos lixões públicos, se tornou realidade. Uma realidade de três andares e que é a casa onde vivem.

No começo, a sensação é de que se está na casinha de doces do conto de João e Maria. Mas aqui o piso é de garrafas plásticas, que alguma vez contiveram deliciosos refrescos, e as embalagens de chocolate e balas formam faixas de celofane trançadas em cortinas para espantar insetos. No jardim, a “ponte dos suspiros”, feita com entulho e colunas de garrafas de vidro que refletem o sol matinal, cruza um bucólico tanque de águas transparentes. Na realidade, são águas tratadas do sistema de cloaca. O piso externo da garagem é revestido com restos de pneus para proteger a terra quando chove.

O casal construiu com materiais de construção tradicionais apenas as vigas e os pilares que constituem a estrutura da casa, por uma questão de segurança, mas não se descarta que o prolífico inventor descubra como substituir o concreto armado. O restante, 90% da casa, é de material reciclado. As paredes foram feitas com uma mistura de entulho, areia e pouco cimento, que substitui os tijolos. Luiz experimentou diversas técnicas e vários materiais para evitar rebocar os muros. Alguns levam uma mistura de esterco de cordeiro – alimentado apenas com leite, alerta um pequeno cartaz –, outros têm papelão reciclado ou restos de poliestireno expandido.

Os revestimentos são de garrafas coloridas. Os azulejos, e vários maravilhosos mosaicos com formas de animais, foram feitos com pedaços de vidro. A figura de um faisão contém toda as cores das garrafas etílicas. O biólogo também investigou variedades de tetos: há os que são uma mistura de água, folhas secas e restos de papel carbono, e outros que levam telhas elaboradas com uma pasta de embalagens de caixinhas de leite longa vida. Alguns pisos foram feitos com pedaços de mármore jogados fora pela indústria, e outros com tampinhas de plástico e garrafas. Os materiais empregados têm uma vantagem de conforto adicional, pois são bons isolantes, o que permite que a casa seja muito mais fresca do que outras.

Barata, esteticamente bonita, prática e também autossustentável, seu custo foi 70% inferior ao de uma casa feita com materiais de construção tradicionais. É o que o arquiteto William Monachesi, em visita à Casa de Reciclados, chama de “arquitetura espontânea”, uma tendência mundial na qual “pessoas com necessidades específicas de moradia tomam a iniciativa de construir suas próprias casas, principalmente com material reciclável”. A casa de Edna e Luiz recebe diariamente interessados neste tipo de técnicas.

O casal organizou uma cooperativa de coletores de lixo na cidade vizinha de Volta Redonda, e compra tudo o que sobra dos vizinhos. Depois, “vendemos no mercado. O sistema é autossustentável”, destaca Edna. Uma vizinha pobre e viúva já comprou uma geladeira e uma televisão, além de conseguir manter seus filhos, conta Luiz. Quando ambos chegaram ao bairro, eram registrados 12 casos de dengue ao ano. Desde que se mudaram, não há mais, conta Edna. Ela explica que, ao comprar dos vizinhos latas, tampas e pneus, estes “esvaziaram seus quintais”, retirando recipientes que acumulam água e onde se multiplicam os mosquitos transmissores da doença. Os objetos de decoração também provêm do lixo: ventiladores e cafeteiras quebradas que eles transformam em abajures, ou pedaços de espelhos, cerâmicas, estatuetas, que nesta casa brilham como em uma revista de arquitetura.

Luiz nos leva ao seu projeto mais novo, em um terreno vizinho, situado no alto do morro onde vive e ao qual se chega por uma espécie de rampa construída com restos de madeira e ferro. É o Condomínio Rural Ecológico Integrado Autossustentável – uma espécie de vila, com 20 casas e espaços compartilhados, cozinha e serviço de limpeza comuns –, também construído com materiais recicláveis. Já está construída a área de lazer, que inclui uma piscina revestida com mosaicos de motivos marinhos, feitos com pequenas peças de garrafas de vidro, e alimentada com água de uma fonte natural.

As casas terão um sistema de tratamento de esgoto. Os restos sólidos serão transformados em adubo para uma horta comunitária e os líquidos serão recuperados para a descarga dos banheiros e rega do jardim e da horta. A intenção é viver segundo sua filosofia “solidário-ecológica”, diz Luiz. Por essa razão, somente aceitarão na vila quem aderir à sua filosofia e entender que aqui só o que é de se jogar fora é a lata de lixo.

* A autora é correspondente da IPS. Publicado em Envolverde. Foto: Fabiana Frayssinet.



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2 comments

  1. Odécio

    Ótima matéria. Apenas que faltaram fotos (várias!) para “concretar“ as idéias e experiências. Mas valeu, mesmo. Parabéns. Odécio

  2. Odécio

    Ótima matéria. Apenas que faltaram fotos (várias!) para “concretar“ as idéias e experiências. Mas valeu, mesmo. Parabéns. Odécio

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