Mais do que uma sala de aula

A escola pública já foi sinônimo de qualidade no Brasil. Hoje, no entanto, quase não há resquícios do período em que colégios estaduais e municipais eram o modelo a ser seguido no país. A...

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A escola pública já foi sinônimo de qualidade no Brasil. Hoje, no entanto, quase não há resquícios do período em que colégios estaduais e municipais eram o modelo a ser seguido no país. A educação brasileira vive uma situação de calamidade por conta da falta de investimentos, dos baixos salários e da formação precária dos professores.

Mas há exemplos de resistência. Um deles é o da Escola Estadual Professor Alves Cruz, no bairro de Pinheiros, zona oeste de São Paulo. Nos anos 1960 e 1970, a escola já era considerada de excelente nível e teve uma atuação marcante no período da repressão política. Reunia diretores, professores e alunos sempre presentes em passeatas e atos contra a ditadura. Vários saíram dali para a militância e o exílio. Estudaram no Alves Cruz, entre outros, a cantora Ná Ozzetti, os músicos integrantes do Grupo Rumo Paulo Tatit e Hélio Ziskind, o cineasta André Klotzel (“Marvada Carne”), a economista Lídia Goldstein e até uma filha do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, Luciana Cardoso.

No final de 2000, praticamente sem alunos, a escola quase fechou suas portas. Gratos pela excelência da educação recebida, um grupo de ex-alunos se uniu para impedir o fechamento e desenvolver ações para valorizar a escola pública. Foi criada, então, a ONG Projeto Fênix. A entidade conseguiu trazer uma orquestra do Projeto Guri para a escola. Alunos começaram a ter aulas de canto, piano, saxofone, violino e outros instrumentos.

Foram montadas oficinas de percussão, maracatu, dança, rádio, grafite, artes plásticas, teatro, fotografia, um coral, foram oferecidas aulas especiais de inglês e até de japonês. Uma parceria com a ONG Estação da Arte levou boa parte das atividades para a Escola Estadual João Maria Ogno, no bairro da Penha, na zona leste, no outro extremo da cidade de São Paulo. Não à toa, a Escola Alves Cruz foi considerada a quarta melhor da Grande São Paulo no último resultado do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), em maio. Nos últimos anos, jovens de classe média do bairro passaram a procurar o colégio novamente.

Recuperar a qualidade do ensino passou a ser a preocupação principal. Mas, ao tentar intervir no projeto pedagógico da escola, o Fênix teve problemas. “Foi um período muito difícil. Enfrentamos dificuldades e aprendemos muito. As ONGs em geral, quando vão para a escola pública, querem intervir na escola e chegam sempre propondo reforço de língua portuguesa e de matemática, o que não é o melhor caminho”, constata o médico Zyun Masuda, antigo aluno do Alves Cruz e um dos líderes do Fênix.

“Nossa relação com a escola melhorou muito depois que deixamos de perseguir essa interferência direta no processo pedagógico. Tivemos, por outro lado, a oportunidade de ajudar a formular políticas públicas para a saúde escolar do estudante, colaborar para ampliar os horizontes culturais dos alunos e buscar a participação familiar no cotidiano da escola”, comemora o médico.

Hoje, a comunidade participa intensamente do dia-a-dia e das decisões do Alves Cruz. Diretores e professores estão envolvidos num mesmo projeto. “Nosso objetivo é construir uma escola contemporânea, que esteja em sintonia com o mundo”, afirma. “A crise econômica mundial é uma grande oportunidade para refletirmos sobre qual educação o país e o planeta precisam. As pessoas que protagonizaram essa crise tiveram uma alta escolaridade. Mas esse alto nível de ensino não preveniu a crise econômica de proporções avassaladoras”, avalia.

Lugar onde se toca o tambor Em quase dez anos de atividades do Projeto Fênix, 25 mil estudantes do Alves Cruz foram beneficiados direta e indiretamente. “Eu estudava à noite, mas ia para a escola todas as manhãs participar das atividades. Fiz percussão e oficinas de rádio, grafite e fotografia”, orgulha-se Vinicius Cardoso, 23 anos, formado no ensino médio no Alves Cruz em 2004 e hoje um entusiasta dirigente do Fênix. “A ONG me fez ter mais interesse pela escola. Eu queria ficar lá dentro o tempo todo”.

Jovens alunos tornaram-se artistas e também educadores. “Comecei a trabalhar no curso de grafite, como arte-educador. Cresci muito profissionalmente, aprendi a conhecer o terceiro setor, a política social e a elaborar projetos e trabalhos com outras ONGs”, revela Luis Antonio da Silva, o Birigui, 30 anos, aluno do ensino médio entre 1999 e 2000. Birigui passou a trabalhar também com jovens em liberdade assistida em entidades como a Nossa Senhora do Bom Parto, no bairro do Belém, na zona leste paulistana, e a Despertar, na Vila Brasilândia, na periferia da zona norte.

No Alves Cruz, três salas são reservadas unicamente para as atividades da ONG. Uma delas é ocupada pela direção do Fênix, outra pelo Guri (mantido em parceria com o governo do Estado de São Paulo) e outra pelo projeto Calo na Mão, responsável pelo grupo de maracatu. “A comunidade foi ocupando cada vez mais espaços”, diz Vinicius.

O maracatu é um sucesso entre os jovens. As atividades foram mantidas com recursos obtidos pelo Fênix, mas depois o grupo adquiriu vida própria e tornou-se uma entidade independente. Os alunos que fazem as apresentações formaram o “Bloco de Pedra”, que já chegou a reunir mil pessoas na quadra da escola. Em média, 600 pessoas frequentam os ensaios nos sábados à tarde. O grupo se apresentou na última Virada Cultural de São Paulo, em maio.

Os jovens tocam tambores, aprendem a construir alfaias e também a entender a cultura do maracatu. Mestres de outros lugares são convidados para realizar oficinas. “Se antes a gente não conseguia ocupar as escolas, hoje, para o meu filho, a escola é o lugar onde a gente toca tambor”, afirma Marcio Lozano, 27 anos, aluno do ensino médio no Alves Cruz entre 1998 e 2000, e o atual coordenador do Calo na Mão.

Uma das atividades que mais chamam a atenção no Alves Cruz é o curso de japonês. Conta com 45 alunos, matriculados em três turmas. A responsável é Ursula Steffany, 21 anos, neta de índios, que foi aluna da escola entre 2002 e 2005. “Comecei a aprender japonês sozinha, aos 14 anos. Pegava revistas para ler e acompanhava um programa da TV Cultura que ensinava o idioma. Aos sete anos, fui fazer caratê e passei a me interessar pelos desenhos japoneses. Aos 15, fui estudar na Aliança Cultural Brasil-Japão”, relata a jovem professora, que recebe uma “ajuda de custo” do Fênix.

Ursula, no momento, estuda Mecânica na Faculdade de Tecnologia de São Paulo (Fatec) e sonha em trabalhar numa grande empresa japonesa, como a Honda, Mitsubishi ou Sony. Seus alunos vão na mesma direção. “Minha meta é fazer uma faculdade de Eletrônica no Japão”, afirma Lucio dos Santos Rodrigues, 17 anos, aluno do ensino médio num colégio particular, mas frequentador do curso. “Eu quero me tornar tradutor”, diz Macedo Matos, 19 anos.

Hoje é possível encontrar no Alves Cruz alunos de várias regiões de São Paulo. “Vim aprender violão atraída por uma galera do rock”, conta Jussara Ribeiro dos Santos, estudante de Jornalismo de 21 anos, moradora de Perdizes, que está empolgada com o grupo de maracatu. “É muito rica, toda essa troca de experiência”, completa Samuel Ramos da Silva, 24 anos, vindo do distante Parque São Lucas, na zona leste, a cerca de 20 quilômetros de Pinheiros.

Passados quase dez anos, o Fênix agora forma os jovens para uma “alternância geracional de poder” na entidade. Os antigos alunos continuam colaborando, mas são os novos que já assumem as atividades, como Vinicius, Marcio e Birigui. “Eles é que vão dar continuidade ao trabalho”, diz Masuda. Como o pássaro da mitologia grega e egípcia, o Alves Cruz ressurgiu das cinzas. E mostrou que pode existir escola pública de qualidade.

Essa matéria é parte integrante da edição impressa da Fórum de outubro. Nas bancas.



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