Microempresárias do Peru escapam melhor da crise

Lima, 12/05/2009 – As microempresas são válvulas de escape para a tensão social em tempos de crise e resistem melhor aos seus impactos do que suas irmãs maiores por estarem acostumadas a vencer dificuldades,...

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Lima, 12/05/2009 – As microempresas são válvulas de escape para a tensão social em tempos de crise e resistem melhor aos seus impactos do que suas irmãs maiores por estarem acostumadas a vencer dificuldades, em um fenômeno positivo que se multiplica quando comandadas por mulheres. “Os microempresários sempre operam em condições difíceis. Sempre há crise para eles”, disse a peruana Sonia Arenaza, da não-governamental Ação Internacional, que desenvolve projetos de microfinanças na América Latina, África e Ásia, com sede central em Boston (EUA). Trata-se de “uma realidade que ocorre tanto no Peru como na América Latina e, em geral, nos países em desenvolvimento”, disse a especialista.

Arenaza também confirmou que “nesta conjuntura de crise financeira global as microempresárias enfrentam melhor seus efeitos e há diversas pesquisas demonstrando isso”. E, “além do mais, elas têm melhor comportamento financeiro e de empreendimento”. A crise chegou ao Peru com uma drástica queda nas exportações, cortes no orçamento e aumento de tensões sociais, que se agrava nos setores mais vulneráveis. Nesse panorama, as microfinanças ganham protagonismo porque injetam recursos para que as pequenas empresas não sucumbam e mantenham o papel de flutuador econômico que cumprem para as camadas menos favorecidas, destacou Arenaza.

No Peru, calcula-se em três milhões o número de microempresas, formadas majoritariamente por cinco trabalhadores ou menos, em um país com população economicamente ativa de 10,6 milhões, dos quais 35,4% são mulheres. As microfinanças existem, sobretudo, nos países em desenvolvimento e são promovidas quase sempre por políticas governamentais, iniciativas de organizações nacionais e internacionais sem fins lucrativos, e por instituições regulamentadas. O Fundo Multilateral de Investimentos, vinculado ao Banco Interamericano de Desenvolvimento, registra 565 instituições de microfinanças na América Latina e no Caribe, com oito milhões de clientes e uma carteira de US$ 9,2 bilhões, com os quais cobre 13% da demanda de microempresas.

As vantagens de dirigir os produtos e serviços financeiros às mulheres microempresárias – disse Arenaza – não se limitam a épocas de crise. Isto “tem efeito multiplicador em termos de desenvolvimento, em primeiro lugar relacionado ao microempreendimento e à melhoria de seu negócio, e, em segundo lugar, relacionada ao lar e melhorias nas condições de vida de sua família, como saúde e educação para os filhos”, afirmou. As estatísticas mostram que as mulheres em qualquer área do mundo têm sempre melhor comportamento de pagamento quando fazem empréstimos, insistiu Arenaza.

Mas, além disso, as microfinanças devem estar focadas nas mulheres porque são tradicionalmente marginalizadas pelas fontes de crédito e por serem uma alta porcentagem das mais pobres entre os pobres. A capacidade das mulheres em combinar os papéis produtivos e reprodutores com as atividades de microfinanças faz com que produzam maior impacto em seu núcleo familiar e social, disse Arenaza. Por isso, um programa de microfinanças focado nas mulheres pode ter maior êxito em irradiar progresso e melhoria social a um universo mais amplo, acrescentou.

A crescente conscientização sobre a importância deste tipo de financiamento foi constatada na Cúpula das Américas realizada em abril, onde o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, anunciou a criação de um fundo para microfinanças destinado a promover o desenvolvimento no continente. Microscope, a instituição que mede o ranking anual dos contornos microfinanceiros da América Latina, em 2008 situou o Peru como o país com maior pontuação, deslocando a Bolívia. O ranking inclui uma análise de três categorias: qualidade do contexto regulatório, clima de investimento e desenvolvimento institucional. Os outros seis países melhor situados são Equador, El Salvador, Colômbia, Nicarágua, Guatemala e Paraguai.

Negócio exportador
No Peru multiplicam os grupos de mulheres que utilizam as microfinanças para melhorar sua renda. Rosa Pacheco é uma delas. Faz bordados com motivos peruanos na pequena empresa Casabet, que fundou com várias companheiras como forma de gerar renda para as mulheres mais pobres dos restaurantes populares localizados nos assentamentos do populoso distrito de San Martín de Porres, na capital. As religiosas da congregação católica São José do Sagrado Coração emprestaram o local e deram assessoria e receberam uma doação da Caritas Franças com a qual compraram máquinas de costura e material para produzir. Desde então se autofinanciam, disse Pacheco.

Suas associadas são especialistas em bordado, crochê e costura, e confeccionam suéteres, ponchos, carteiras e outros assessórios. Seus produtos são fabricados com materiais e motivos peruanos e o logotipo da empresa é um felino característico da cultura pré-colombiana paracas. “Decidimos criar a Casabet em 2004 porque já produzíamos e vendíamos, mas queríamos ser mais formais e exportar”, contou Pacheco. Casabet pertence à rede Warmimaqui (mãos de mulher, em quéchua), que agrupa cinco oficinas de Lima Norte, a zona da capital com maior produto interno bruto do país. Ali se concentram os distritos com mais indústrias e também os mais povoados. “Nos juntamos para comercializar. Temos uma página na internet como grupo de mulheres organizadas, com um catalogo”, explicou.

Seu mercado está voltado à exportação e a empresa é sócia da Central Interregional de Artesanatos do Peru (CIAP). “Por meio da CIAP, nossos produtos são vendidos na França, Bélgica e Itália, embora com a crise os pedidos tenham diminuído muito. Também temos um mercado já conquistado na Austrália e Grã-Bretanha”, disse Pacheco.

Casabet foi desde o começo muito mais que uma empresa. Surgiu como saída para os casos sociais mais difíceis. Uma oficina de saúde mental organizada para enfrentar a violência que algumas mulheres sofriam levou suas participantes a deixarem de ser “casos sociais” e buscarem por si próprias uma saída para a situação. Descobriram que várias sabiam bordar e assim nasceu a empresa exportadora atual.

Não queriam continuar estendendo a mão
“Acreditávamos que se éramos capazes de levar adiante um restaurante popular, éramos capazes de manejar uma empresa para dar trabalho e gerar recursos para os próprios restaurantes”, contou à IPS Martha Vera, administradora da padaria Virgem de Nazaré, também gerenciada por mulheres. A má qualidade dos pães que recebiam no restaurante as fez pensar em criar uma padaria. Os recursos iniciais conseguiram de duas organizações religiosas católicas e da Intermón Espanha, que lhes deram US$ 20 mil. Com isso compraram um terreno e construíram um prédio térreo. Vinte anos depois têm dois andares a mais, máquinas modernas e um caminhão de quatro toneladas para distribuição dos seus produtos.

A empresa tem duas linhas de produção, uma de pão enriquecido para o café da manhã nas escolas públicas e outra dedicada a produtos para venda em lojas de alimentos. “Também entregamos pães enriquecidos para Sócios em Saúde, organização que apóia a alimentação dos doentes de tuberculose”, explicou Vera. Elas são boas pagadoras e os representantes do Estado e as instituições com as quais trabalham dizem que em geral as mulheres cumprem melhore suas dívidas do que os homens. “Somos mais responsáveis e conscientes. Tomamos com maior responsabilidade o trabalho da empresa. O assumimos como se fosse mais um filho, cuidamos, estamos vigilantes. Somos conscientes de que da padaria dependem nossos lares”, disse Vera.

Das 200 padarias que trabalham para o Estado fornecendo café da manhã para as escolas públicas, 150 são dirigidas por mulheres. “Nossos filhos terminaram seus estudos, algumas abriram seus próprios negócios e somos um exemplo para outras mulheres, por isso nos sentimos muito recompensadas”, finalizou Vera.

IPS/Envolverde



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