Montevidéu, a quatro dias das eleições

Vir a Montevidéu sempre reserva surpresas. A primeira delas é conversar com motoristas de táxi. Aqui, a maioria discute política como fosse futebol. Sempre puxo conversa para tentar sentir as tendências, mas hoje na...

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Vir a Montevidéu sempre reserva surpresas. A primeira delas é conversar com motoristas de táxi. Aqui, a maioria discute política como fosse futebol. Sempre puxo conversa para tentar sentir as tendências, mas hoje na chegada fui surpreendido.

Apesar de as pesquisas não indicarem com certeza o resultado das eleições presidenciais do próximo domingo, o Data-Táxi declarou, unânime: vence Pepe Mujica no primeiro turno. A amostra foi irrisória, apenas dois consultados, mas vale pela contundência dos argumentos.

Eleitor do Frente Amplio, coligação de esquerda, um diz que Mujica é temperamental (meio louco), capaz de numa entrevista na TV falar ao vivo um palavrão para o jornalista, mas ao mesmo tempo afirma que o importante é a equipe de governo, que é muito competente. Outro defende que o país vem melhorando muito desde a eleição de Tabaré Vázquez, depois do domínio dos partidos Blanco e Colorado por séculos.

Mas as surpresas do dia da chegada não param na contundência dos taxistas. Desavisado, sem ter feito a lição de casa e chegado a Montevidéu sem ler nem os jornais locais, saí para almoçar/jantar e me deparei com pessoas passando pela minha frente com bottons e bandeiras escritos “si”. Pensei em alguma manifestação feminista, a favor do aborto etc. Não era nada disso.

Passavam pela Avenida 18 de Julio, uma das principais de Montevidéu, em direção à Praça Cagancha, que já estava tomada por centenas de pessoas. A concentração era para uma passeata em defesa do "sim" no referendo que definirá a revogação ou não da Lei de Caducidade, que anistiou os militares dos crimes cometidos na ditadura uruguaia e foi declarada inconstitucional há dois dias pela Suprema Corte. A votação será em conjunto com as eleições.

Na passeata, foram tomadas as seis pistas da 18 de Julio, com pessoas de todas as idades usando rosa, a cor-símbolo da campanha pela revogação. Portavam fotos de desaparecidos, faixas, cartazes.Lá estavam grávidas, mães com crianças de colo, muitos jovens e senhores e senhoras com bem mais idade. O lema da atividade era “Nem esquecimento nem perdão, só Justiça.

Eram dezenas de milhares de pessoas, há muito tempo não via tanta gente numa manifestação. Se a lei será anulada e os ditadores julgados, não dá para saber. Se o Data-Táxi está correto e o ex-guerrilheiro tupamaro Mujica será eleito, tampouco. Mas Montevidéu está nas ruas. E isso é muito bom de ver.

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