Movem-se as peças

O balanço das eleições municipais de 2008 deixa algumas certezas e outras tantas dúvidas e especulações. O fato mais evidente é que o PMDB sai como partido mais fortalecido do pleito. Foram 1.207 prefeituras...

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O balanço das eleições municipais de 2008 deixa algumas certezas e outras tantas dúvidas e especulações. O fato mais evidente é que o PMDB sai como partido mais fortalecido do pleito. Foram 1.207 prefeituras conquistadas, 13,87% a mais que em 2004, quando conseguiu vencer em 1.060 cidades. Nas capitais, a agremiação elegeu seis prefeitos, mesmo número do PT, mas com municípios mais expressivos no cenário nacional, como Rio de Janeiro e Salvador (2ª e 3ª cidades mais populosas do país) e Porto Alegre.
Se a conclusão óbvia permite dizer que os peemedebistas saem mais robustos e se tornam mais importantes para composições em 2010, também é verdade que é necessário relativizar o seu peso ao projetar o futuro cenário das eleições esta­duais e nacionais. “O PMDB continua um partido estranho, faz o maior número de prefeitos, tem a maior bancada na Câmara dos Deputados, mas não mostra intenção de disputar eleições presidenciais com candidato próprio”, analisa o cientista político Jairo Nicolau, do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj). “Alguém de fora deve estranhar, porque é um contrassenso, ainda mais em eleições de dois turnos”, completa.
É interessante notar o retrospecto peemedebista nas eleições presidenciais, que nunca participou de uma coligação vencedora, mas sempre esteve, de uma forma ou de outra, presente nos governos pós-ditadura. Em 1989 e 1994, lançou candidatos próprios, respectivamente Ulysses Guimarães e Orestes Quércia. O primeiro obteve 4,43% dos votos, enquanto o segundo contou com 4,38%. Em 1998 e 2006, o PMDB não participou formalmente de nenhuma coalizão e, em 2002, teve Rita Camata como vice na chapa tucana de José Serra. Nessa ocasião, inclusive, o partido tinha mais prefeituras do que obteve agora, 1.257, e nem assim conseguiu sustentar o candidato paulista, até mesmo pela dificuldade em unir a agremiação em torno de uma só chapa. Ou seja, ainda que seja a “noiva da vez”, o histórico partido não foi até hoje capaz de assegurar a vitória de quem quer que seja nas eleições presidenciais.
O PT também conseguiu crescer em relação a 2004. Conquistou 36,1% a mais de administrações municipais, passando de 410 para 558 prefeituras no Brasil. Além disso, excluindo as capitais, os petistas cresceram também nas cidades com mais de 200 mil eleitores (53, segundo dados do Tribunal Superior eleitoral). Em comparação com 2004, saltaram de nove para 15 municípios conquistados. “O PT segue seu processo de interiorização no Brasil, tendo se saído bem nas cidades médias”, explica Jairo Nicolau. Ele também observa o declínio do DEM, que prossegue a cada eleição. Em 2000, o ex-PFL possuía 1.028 cidades, enquanto agora elegeu prefeitos somente em 500 municípios. Já o PSDB passou de 871 prefeituras em 2004 para 786 agora, um decréscimo de quase 10%.
Outro dado bastante ventilado na mídia, mas que também precisa ser relativizado, é o fato de os partidos que fazem parte da base governista em nível federal terem feito a maioria das prefeituras nas eleições. Das 26 capitais, foram 20 vitórias, as agremiações pró-Lula passam a governar 93,5 milhões de eleitores nos municípios em todo o país, algo como 72,5% do eleitorado brasileiro. Porém, é sempre necessário lembrar que nem todo integrante de partido aliado é exatamente “fiel”. Ainda mais tendo em vista as eleições de 2010.
José Fogaça, prefeito eleito de Porto Alegre, declarou sobre um eventual apoio peemedebista ao PT na sucessão presidencial: “Dilma é uma excelente candidata. Mas a deputada Maria do Rosário [sua adversária na disputa da prefeitura de Porto Alegre] também era e eu concorri contra ela. E votei em mim”. Uma das grandes derrotas do PT em São Paulo também foi para um partido “aliado”. Em Santo André, Aindan Ravin, do PTB, derrotou Vanderlei Siraque justamente com um discurso anti-PT, que estava a doze anos no comando de um dos maiores municípios paulistas. Contou com ajuda do governador José Serra e do presidente da seção estadual do partido, Campos Machado, quase um tucano de carteirinha. Em uma disputa Serra X PT, não há muita dúvida sobre quem ele iria apoiar. Outro exemplo de prefeito com comportamento pouco previsível em 2010 é Eduardo Paes, do Rio de Janeiro, um “neolulista” que também não pode ser colocado como “governista” dos mais leais, já que há três anos insultava Lula na Câmara dos Deputados.
O “não-fenômeno”
da transferência
de votos

A federalização de temas nas eleições municipais é uma estratégia que se mostrou equivocada em pleitos passados. Contudo, em virtude dos altos índices de aprovação do governo Lula, boa parte da imprensa pregou a tese da transferência direta da popularidade do presidente para as candidaturas da base governista nas eleições municipais. Não só ela não ocorreu como também a atuação do petista em prol de candidatos da base aliada foi bastante discreta na maior parte dos casos. Mas, se não houve a tal transferência, isso implica necessariamente que o presidente Lula foi “derrotado” no pleito de 2008, como quiseram fazer crer alguns veículos?
“Quando se examina a literatura científica, não há nada de fato que comprove o fenômeno da transferência de votos. Essa tese foi levantada por jornalistas e é bom lembrar que as eleições municipais não se norteiam por linhas ideológicas, mas sim por questões locais”, explica Fernando Azevedo, cientista político da Universidade Federal de São Carlos. Para ele, é mais possível esse tipo de transferência ocorrer em uma eleição nacional. “O presidente, empenhado em fazer seu sucessor, pode conseguir transferir votos nesse cenário. É um pleito que possui características distintas das eleições municipais, há diferenças de linhas políticas claras e clivagens que vão além da questão administrativa”, completa.
Curiosamente, a mesma parte da imprensa que elegeu Lula como derrotado, aclamou Serra como vitorioso já no primeiro turno, por conta do desempenho de seu afilhado Gilberto Kassab (DEM), e também em função da disputa em Belo Horizonte, com Márcio Lacerda (PSB), candidato apoiado pelo governador tucano Aécio Neves, tendo que disputar o segundo turno em uma eleição que parecia ganha (ver quadro). No entanto, um fator básico não foi considerado: o modo elementar de um político emprestar prestígio a outro é aparecendo na campanha do aliado, seja nas ruas ou na mídia. Serra não pôde fazer campanha em prol do democrata no primeiro turno e pouco apareceu no segundo. Ou seja, a candidatura Kassab criou vida própria e não contou com a ajuda do presidenciável paulista, a não ser nas articulações políticas anteriores à eleição.

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