Na lua cheia, a caça se esconde

Manaus é a capital do Amazonas, estado que concentra a maior parte da floresta amazônica em território brasileiro. Até aí, novidade nenhuma. Foi em Manaus que o contador desta história e a autora das...

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Manaus é a capital do Amazonas, estado que concentra a maior parte da floresta amazônica em território brasileiro. Até aí, novidade nenhuma. Foi em Manaus que o contador desta história e a autora das imagens alugaram no cais da Beira, perto do luxuoso Hotel Tropical, um pequeno barco regional que foi veículo e abrigo por dez dias e nove noites de um passeio jornalístico pelo rio Negro. A idéia era “sentir” a Amazônia e relatar a experiência aos leitores antes que o Fórum Social Mundial chegasse a Belém, o que vai acontecer no próximo dia 27 de janeiro.
Não havia pretensão de desvendar mistérios ou tentar explicar a maior floresta do mundo. A desconfiança era de que “a” floresta amazônica não existia para ser descrita. Aliás, a tese não é original. É emprestada do jornalista polonês Ryszard Kapuscinski. Ele escreveu em Ébano, Minha Vida na África: “A África é um continente demasiadamente grande para ser descrito. É um verdadeiro oceano. Um planeta diferente, composto de várias nações, um cosmo múltiplo. Na verdade, a não ser pela denominação geográfica, a África não existe”. Troque África por Amazônia, faz todo o sentido.
A região escolhida para perceber um pouco da vida na floresta foi a Estação Ecológica do Arquipélago das Anavilhanas, composto por cerca de 400 ilhas e cuja área total é de aproximados 350 mil hectares. Para acessá-la é preciso navegar pelo rio Negro. No Almirante Valmir (nome do nosso barco), além dos repórteres, estavam o simpático casal Raimundo Gertrudes de Andrade e Sandra Santos de Andrade, Manuel Alves Pereira e Rogério Paiva da Silva.
Raimundo foi o nosso primeiro contato na Beira, mas seu barco é de turismo rápido, com cadeiras fixas de metal, o que dificultaria a permanência na embarcação por tantos dias. Foi ele quem entrou em contato com Manuel, o dono do Almirante Valmir – nome do seu filho. Manuel aceitou enfrentar a viagem dividindo as tarefas e os dividendos com Raimundo. Para auxiliá-los nos serviços gerais, também participou do roteiro o jovem e divertido Rogério. A equipe nem precisava ser tão grande. Seria possível fazer uma viagem dessas com duas ou três pessoas. Um comandante, um auxiliar e no máximo mais um(a) cozinheiro(a). Mas Raimundo e Sandra aproveitaram para curtir uma viagem de casal. E tudo foi muito agradável.

A primeira noite
Dormir em uma rede, num barco, às margens de uma floresta, é uma experiência bastante diferente do padrão cama, colchão, coberta e janela fechada. E na primeira noite já foi possível descobrir um pouco do que se tratava. Depois de sair de Manaus e fazer rápidas paradas por localidades como Fátima, São João do Tupé e Livramento, quando a noite se insinuava aportamos a uns 300 metros das margens da comunidade do Arara. Raimundo explicou que ficar muito próximo da mata era “facilitar a vida dos carapanãs”, nome popular de um tipo de mosquito que além de ser o vetor da dengue e da malária, quando ataca em bando transforma o alvo em um amontoado de caroços.
Cada um na sua rede e o jovem Rogério comenta: “Rapaz, hoje não tem caçada, noite boa para a caça é a escura, sem lua. Só em noite escura anta, paca, tatu, os bichos saem para passear. Com lua cheia não tem caça, você fica a noite inteira de tocaia e não consegue nada.” Mesmo assim Rogério ainda se trocou, calçou botas, pegou uma espingarda e, junto com Manoel, foi fazer sua tocaia. Ele queria nos fazer um jantar especial no dia seguinte, mas voltou de mãos abanando e xingando a sorte. “Olha, foi por pouco, quando eu vi o tatu já era tarde e ele conseguiu escapar. Claro que o Manoel estava dormindo, né? Se estivesse acordado pegava o bicho.” Em geral, os caboclos que vivem na floresta procuram os rastros (conhecidos por veredas) dos bichos e ficam esperando sobre alguma árvore para ver se eles vão fazer o mesmo caminho. Ver a vereda do tatu é muito fácil, porque ele anda balançando o rabo e limpa toda a vegetação por onde passa.
Mas o que faz a noite à beira das margens de um rio diferente são os sons da mata. Uma enorme variedade deles invade o barco. E isso acontece tanto naqueles minutos em que, na rede, se busca dormir, quanto no percurso do sono. Os sons da floresta. Aqueles que provavelmente inspiraram Villa Lobos – apesar dessa versão ser contestada por alguns historiadores. Os sons do vento, das águas batendo no casco, de pássaros, macacos, sapos e outros bichos selvagens.

Caminhada com o índio Domingos
Domingos, um índio da etnia baré, foi o nosso guia na primeira caminhada pela floresta amazônica. Ele conhece as propriedades medicinais de plantas locais e nos apresenta, por exemplo, a de onde se extrai a propriedade medicinal do famoso expectorante Vick Vaporub. Como foi possível saber que Domingos falava a verdade? Se te colocarem uma tarja nos olhos e um vidro de Vick o odor lhe deixaria ter dúvidas? Também mostrou o breu, usado para calafetar canoas, e que pode ser utilizado para fazer fogo, porque é inflamável. Mas, de repente, Domingos pára e olha para o chão.
– Está sentindo esse cheiro forte?
– Parece de urina.
– É isso mesmo, respondeu. E emendou outra pergunta: Vocês escutaram uma gritaria enorme na mata um pouco antes de amanhecer?
Claro que havíamos ouvido. Domingos explicou que os macacos guaribas costumam andar em bando pela floresta. E que alguns deles deviam ter urinado naquele exato lugar onde estávamos parados.
Aproveitou o nosso interesse botânico e ainda nos presenteou com alguns galhos de saracura-mirá, segundo ele excelente em caso de problemas estomacais. E também para pacientes de malária. “Basta colocar alguns galhos num copo com água e ir bebendo. Ela faz uma espuma igual a da cerveja. Não tem nada melhor para recompor o estômago. Ela é boa para um monte de doenças, inclusive para recompor o caboclo da malária.” O ensinamento e o presente foram muito úteis. Nos primeiros dias da viagem, Manoel, o dono do barco, manifestou uma malária que já devia estar encubada e ficou em tratamento quase que durante todo o percurso. Para se recuperar, tomou, junto com os medicamentos, muito chá de saracura-mirá.
Enquanto caminhávamos, Domingos também aproveitava para ensinar palavras indígenas e para contar histórias de vida e da floresta. “Eu chamo esse pássaro que está cantando de Capitão da Mata, mas minha mãe dizia que ele era o Pássaro Trovão. A mãe falava que ele ouvia de longe os barulhos da chuva e que com seu canto imitava o trovão.”
– Mas chove mesmo quando ele canta?
– A mãe tinha suas razões, quase sempre depois que se ouve o cantar dele, chove. Pode demorar um pouco, mas chove.
– Mas esse barulho não é canto de pássaro?
– Faz silêncio que vocês vão ouvir melhor… É motosserra. Estão cortando árvores aqui por trás. Tem uns madeireiros que cortam aqui. É proibido, mas, você sabe, sempre tem.

O campo de futebol fica no centro
A maior parte das comunidades organizadas às margens rio Negro nas Anavilhanas não é indígena. Mas muitas são. E uma das coisas que as caracteriza é que as casas são construídas em torno de um campo de futebol. Quase todas as vilas dessa parte da Amazônia têm um campo, em geral, bem tratado e com as medidas oficiais ou próximas.
A comunidade da Terra Preta é uma delas. São 29 famílias e aproximadamente 200 pessoas organizadas em torno do gramado. Jonas Bruno Aleixo, presidente da comunidade, também da etnia baré e que estava com malária no dia que nos conhecemos, explica que todos os domingos há jogos entre as diferentes comunidades. “Às vezes a gente vai visitar uma, outras vezes eles vêm aqui, por isso o campo tem que ser perfeito.”
No mês de junho, segundo ele, 16 pessoas tiveram malária na Terra Preta. “Mas nunca ninguém morreu de malária aqui. Isso é muito difícil de acontecer.”
O campo de futebol da vila tem 60 metros de largura por 90 metros de comprimento. “É uma copia do Vivaldão, de Manaus. Meu irmão foi lá e mediu”, explica Jonas. E acrescenta: “As traves também eram do mesmo tamanho, mas como ficou muito fácil fazer gol, tivemos de diminuí-las.” Hoje cada gol da Terra Preta mede 40 centímetros a menos do que o padrão oficial.
Das 29 famílias que vivem na comunidade, segundo Jonas, 16 recebem a Bolsa Família. “Isso nos ajuda bastante, mas seria melhor se tivéssemos mais turismo.” Ele reclama que o movimento de visitantes diminuiu e tem uma explicação econômica para o fato: “Quem costuma vir mais aqui é turista estrangeiro, brasileiro viaja pouco pelas comunidades amazônicas. E com o real mais forte vir para cá ficou muito caro. E eles escolhem outros destinos”. No dia em que conversávamos o dólar estava a R$ 1,60. A comunidade tem um gerador próprio, mas há dias em que falta dinheiro para ativá-lo. “Por isso não podemos nem comprar uma geladeira comunitária, que seria útil para a gente armazenar os peixes e a comida em geral.”
Outra comunidade indígena onde o campo de futebol está no centro é a Nova Esperança. Lá vivem 22 famílias, todas da etnia baré. A diferença é que o campo não tem duas traves, mas quatro, sendo que duas ficam instaladas entre uma lateral e outra. Dona Sonia, cujo nome indígena é Tiquiri (gotinha d’água) e que fazia tapioca enquanto conversávamos, explica: “É para as meninas jogarem. No campo grande é muito difícil elas conseguirem fazer dois times completos, então decidimos colocar essas duas traves nas laterais. Elas jogam sempre”. Ao lado do campo uma rede de voleibol também chama atenção. Outra conquista das mulheres da comunidade.

Kambebas em busca das raízes
Com 24 anos, a professora Misquiquira (registrada no cartório como Neurilene Cruz da Silva) leciona disciplina indígena na comunidade Três Unidos, que fica na boca dos Cuieiras. Ela é uma kambeba e um dos seus principais desafios é o de revitalizar a cultura da sua etnia, que estava quase em extinção. Os kambebas são poucos e os que restaram estão esquecendo suas danças, seus ritos e a sua língua.
Na comunidade Três Unidos vivem 54 deles e não existe outro grupo em todo o rio Negro. No Alto Solimões, de onde originalmente saíram, segundo Misquiquira, também não passam de uma centena. O tuxaua, algo como um cacique, se chama Trichukuri (ou Valdemir, em “branquês”) e vive há 17 anos na região. O fato curioso é que ele não é kambeba, mas ticuna. Tornou-se o tuxaua porque se casou com a filha do ex-líder e também porque foi quem descobriu a atual área onde estão instalados.
A história de Trichukuri é simbólica das dificuldades vividas por boa parte da população indígena da floresta amazônica. Os pais dele se separaram e com 12 anos decidiu sair da aldeia. “Fiquei procurando trabalho de um lado para o outro e quando tinha 13 anos encontrei uma aldeia kambeba. Eles me deixaram viver com eles e aos 16 anos me casei com a minha mulher.”
Isso aconteceu entre os anos de 1965 a 1970 e no Alto Solimões, onde os kambebas estavam. “Mas como a situação lá era muito difícil, o seu Valdomiro Cruz, o pai da minha esposa, decidiu sair de lá à procura de educação e saúde para a nossa comunidade. Parou em Fonte Boa e ficamos lá por dez anos. Depois fomos para Tefé, onde conseguimos apoio para a comunidade ter escola e saúde, mas ainda era pouco. A Funai [Fundação Nacional do Índio] não nos ajudava. Isso era em 1976, quando nossos povos não eram reconhecidos.”
Foi nessa época que, por conta de uma tragédia, a vida de Trichukuri e de parte do seu povo mudou. “Uma filha engoliu uma moeda de dez centavos e eu tive de vir correndo para Manaus para ver se a salvava. Quando ela chegou, foi operada, mas não resistiu. Falei para a comunidade que depois daquilo viria com a minha família morar em Manaus. Quando cheguei na cidade, um primo me avisou que este lugar, esta terra onde você está agora, estava vazia e que se eu quisesse morar aqui, podia. Vim no dia 18 de novembro de 1991. Estava sol, era um dia muito bonito. Em três dias abrimos um lugarzinho e montamos nossa tenda. Depois, aos poucos, os outros souberam da nossa vida aqui e foram chegando de lá do Alto Solimões.”
Trichukuri diz que não tem a vida dos sonhos, mas que o povo indígena hoje tem uma condição muito melhor do que em outros tempos. “Temos um grande apoio dos órgãos federais. Aqui, por exemplo, tem uma UBS [Unidade Básica de Saúde] só para a população indígena e uma equipe contratada pela Funasa [Fundação Nacional de Saúde] que fica 20 dias aqui e volta para Manaus para descansar dez dias. Também temos uma escola e o exército nos dá apoio. Além disso, estamos em processo do reconhecimento de nossa área, que terá 1,5 mil metros de frente e 3 mil metros de fundo”, diz com um largo sorriso de satisfação.

A saga de dois peixes-boi
Relativamente perto da comunidade Três Unidos, o Instituto de Pesquisas Ecológicas (Ipê) desenvolve, no Cueiras, um projeto no mínimo curioso. Desde 1º de março, dois peixes-boi levados ao rio Negro pela ONG estão sendo monitorados por seus pesquisadores.
Puru e Anamã têm, cada qual, um transmissor instalado ao corpo que vai informando à equipe do Ipê a localização e os movimentos que fazem. O pesquisador Leandro Lazzari Ciotti, 34 anos, originário de Jaú, no interior de São Paulo, e que antes de ir para a Amazônia trabalhou na Antártida, explica as razões do projeto.
“O nosso principal objetivo é saber onde ficam os peixes-boi dessa região na cheia e na baixa do rio Negro. Essa é uma informação que não se tem. E para chegar a ela, só monitorando por equipamento os animais, já que eles são arredios e é muito difícil vê-los na natureza.” Segundo o próprio Leandro, os transmissores instalados nos peixes-boi e que apontam suas localizações permitem achá-los a até 2,6 km de distância. E a bateria do transmissor tem vida útil que varia de dois a cinco anos. “Mas a gente só vai monitorá-los por um ano, porque nesse período fecha-se o ciclo da cheia e da baixa do rio.”
O peixe-boi tem características especiais: é herbívoro, não disputa com outros peixes no seu habitat, não é territorialista e nem luta pela fêmea. “Até por isso, afora o ser humano, ele não tem um inimigo natural”, explica o caiçara de Ubatuba (SP) Diogo Alexandre de Souza, 24 anos, que trabalha com Leandro no projeto.
O peixe-boi de rio não é um animal em extinção. Ele corre risco principalmente porque sua procriação se dá em ritmo lento. A “peixe mulher” (nome que se dá às fêmeas) tem em média um filhote a cada quatro anos, porque sua gestação dura de 12 a 14 meses e a amamentação mais dois anos. Por outro lado, a expectativa de vida de um peixe-boi é grande, de até 60 anos. Uma outra curiosidade, segundo os pesquisadores, é que ele pode ficar até quatro meses em jejum, sem comer nada.
Quanto aos trajetos que Puru e Anamã estavam fazendo, Jeferson Barros de Oliveira, 23 anos, de Paraupebas (Pará), que estava se integrando à equipe e iria substituir Lean­dro, explica que o Puru só subia o rio, enquanto Anamã subia e descia, fazendo um caminho mais tortuoso. Eles ficaram próximos apenas nos dez primeiros dias. Hoje cada um constrói seu caminho nas águas do Negro.

A vida longe de casa, num canto da Amazônia
Em São Sebastião do Rio Cueiras vivem 60 famílias assentadas pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). Glaucia Maria Segati, paulista, é a enfermeira local. Formada em Jaú, ela foi para Roraima trabalhar com a população indígena, gostou da experiência, prestou concurso público e foi locada para trabalhar em Manaus. Como já estava habituada a conviver com índios, em vez de ficar na cidade, preferiu ir atuar na zona rural. Glaucia está na região das Anavilhanas desde agosto do ano passado.
Ela conta que no posto de saúde realiza os primeiros socorros e uma vez por mês uma equipe com dois médicos, dois enfermeiros, um dentista e um assistente social vão ao local dar plantão. Nas ocorrências mais graves ela chama a equipe do Samu, o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência, que de barco vai socorrer o paciente e o leva para ser atendido na zona urbana de Manaus.
Mesmo vivendo há pouco tempo nas Anavilhanas, Glaucia já está se integrando. Quando a encontramos, por exemplo, tinham engatado um namoro com um professor de matemática que lecionava em uma comunidade vizinha. “Eu o conheci numa das festas daqui, mas para namorar a gente tem que ir para Manaus, porque aqui eu não posso ficar com ele na minha casa. É proibido. E eu não vou usar o ‘Motel Calaço’ (meio do mato)”, contou entre risos.
Ela diz que as festas são constantes nas comunidades. “Cada uma celebra ao menos uma data. E aí os moradores das vilas vizinhas se deslocam para o local do evento. “Os barquinhos vão chegando e estacionando, fica lindo. Em algumas ocasiões a comunidade onde a festa acontece constrói barracas abertas para que os vizinhos possam montar suas redes e não tenham que voltar para casa depois de beber.”
Quem também é “de fora” na comunidade é Mariana Semeghini, 30 anos, educadora ambiental. Um dia antes de encontrá-la em São Sebastião do Rio Cueiras, a tínhamos visto, num mutirão, pés descalços, arando a terra e limpando uma área de terreno na comunidade Nova Esperança.
Mariana tem a aparência delicada. É magra, traços finos e cabelos lisos compridos. Sua origem é a classe média paulistana. Estudou até o segundo grau no colégio Friburgo, uma das melhores escolas particulares da capital. Mas ao fim deste ciclo, com 18 anos, decidiu sair da cidade e ir estudar Biologia em Florianópolis. Morou até os 25 anos em Santa Catarina. Trabalhou por lá com os guaranis, nas aldeias da região do litoral. Depois foi parar em Mato Grosso, onde ficou um ano e meio na cidade de Brasnorte, dedicando-se à educação ambiental, alfabetização e geração de renda.
Chegou à Amazônia em 2006 e pretende ficar ao menos mais dois anos por lá. Ela não arava a terra à toa na comunidade Nova Esperança. Seu trabalho, segundo ela, “é etnobotânico e de manejo agroflorestal no entorno das Anavilhanas”. Isso significa que ela tenta fazer a sensibilização agroflorestal e a educação ambiental da comunidade a partir da organização social e da agricultura. “Tento, por exemplo, diversificar a produção agrícola, porque em geral eles só plantam mandioca. Busco introduzir nas comunidades a produção de abacaxi, macaxeira e jerimum. E faço isso incentivando a prática dos mutirões.”
Entre as muitas dificuldades que diz encontrar para desenvolver o trabalho está o baixo rendimento que a agricultura apresenta. “Eles acabam ganhando mais fazendo artesanato e por isso às vezes resistem em trabalhar a terra.” Mas ela está conseguindo mobilizar as comunidades a partir das escolas. “Como às vezes falta merenda, porque o barco que a traz atrasa, essa produção acaba sendo útil para complementar a alimentação das crianças.”
Naqueles dias que estivemos nas Anavilhanas, Mariana se preparava para um novo desafio, o de trabalhar com um projeto de criação de abelhas nativas. Também falava em fazer algum trabalho de educação para limitar a caça das antas, que, segundo ela, demoram a chegar à maturidade sexual. “E se a caça continuar indiscriminada isso pode resultar em risco para a espécie.”
A família de Mariana continua a morar em São Paulo. “E minha mãe não quer vir para cá de jeito nenhum. Ela não quer saber em que condições eu vivo”, conta e dá aquele sorriso maroto de quem compreende o sentimento da mãe. E completa: “olha que eu sempre fui muito desapegada, mas não sei se conseguiria vir morar aqui para sempre”. F

Série: Rumo ao FSM 2009
Além desta matéria, Fórum publicará mais duas reportagens com base na viagem à região do arquipélago das Anavilhanas. As três matérias se transformarão na série “Rumo ao fsm 2009”, cuja intenção é discutir um pouco a realidade local antes da realização do FSM, que acontece de 27 de janeiro a 1° de fevereiro.
Esta primeira matéria destaca as impressões da viagem, a vida indígena local e a história de profissionais de diferentes áreas que se deslocam para o desafio amazônico.
Na segunda reportagem, da edição de dezembro, o desafio da educação e o trabalho às margens do rio Negro serão o centro da pauta. E, para fechar a série, em janeiro, o tema abordado será a contradição entre preservação do meio ambiente e a preservação dos direitos dos povos da terra, que lutam para manter suas tradições e cultura.



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1 comment

  1. cabocla

    Para um turista brasileiro, fazer essa viagem à Manaus até o arquipélago de Anavilhanas para descubrir a amazônia e descreve-la para o FSM é um pouco curto de imaginaçao e de exotismo. Se essa parte é menos explorada é porque ela nao é tao rica em madeiras nobres, sao terras de igapos, igarapés com um enorme ecossitema aquatico. Pelo menos voce descobre que existem indios explorado por um certo turismo em busca do exotismo. Fora do deslubramento tropical, existem muito o que contar sobre a Amazônia, sobre suas culturas, sobretudo imaginar que um dia essa patria d‘agua, poderá ser poluida pelos esgotos das cidades, pelas serrarias, pelos produtos quimicos jogados nos rios, pelo mercurio. Deixe de lado esse lado mais turistico e visite as regioes onde se concentram ecossitemas florestais, mais rico, ai voce vai ver destruiçao da floresta, voce vai ver a amazônia marcada pela pata do boi, da soja, da mineralizaçao, ver as zonas de garimpo etc. Ver as areas indigenas ainda serem invadidas. ver como vive as populaçoes ribeirinhas e das cidadezinhas da regiao que crescem como favelas, sem infraestrura. Fora disso va visitar os centros de pesquisas, existe na amazônia uma intelectualidade cientifica que lhe dará as maiores informaçoes antes do Forum, va visitar os movimentos sociais que ha anos lutam por um eco-desenvolvimento. Existem muitas conquistas sociais na amazonia uma dela a luta pela preservaçao de seus ecossistemas e também por melhores condiçoes de vida. Nossa amazonia é realmente linda com uma biodiversidade e socio diversidade que vale à pena que todos os brasileiros visitem e busquem imergir na sua realidade sem exotismo e sem esteriotipos. Nesse ano que Lewis Strauss completa 100 anos aconselho a leitura ou releitura do Triste tropicos.

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