Nem Deus Olha por eles

Querô, clássico de Plínio Marcos, é adaptado para cinema. Filme, que estréia em setembro, tem atuação de jovens da Baixada Santista e faz frente à redução da maioridade penal Por Brunna Rosa  ...

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Querô, clássico de Plínio Marcos, é adaptado para cinema. Filme, que estréia em setembro, tem atuação de jovens da Baixada Santista e faz frente à redução da maioridade penal

Por Brunna Rosa

 

Plínio Marcos costumava dizer que nem Deus olhava por seus personagens. E entre os tantos e famosos criados pelo escritor é bem provável que o menino Jerônimo da Piedade, o Querô, seja o mais simbólico de tal invisibilidade. Órfão de mãe que se suicidou tomando querosene, criado num prostíbulo e nas quebradas do cais do porto, reprimido pelo Estado, largado à lei do mais forte e vítima da ação policial, Querô não é só um nome e nem um personagem de ficção. É a representação mais cruel da tragédia brasileira no que diz respeito a como lidamos com a nossa infância pobre.
Publicado em sua primeira edição em 1976, Querô, uma Reportagem Maldita, chega aos cinemas neste próximo mês numa versão adaptada pelo cineasta Carlos Cortez, onde o narrador do livro, por exemplo, deixa de se existir. E até por isso o filme chama-se apenas Querô.
Ao mesmo tempo, produzido pela Publisher Brasil, uma nova edição do livro chega às livrarias. A seguir, o diretor Carlos Cortez conta outros detalhes do trabalho numa entrevista, que por uma feliz coincidência foi acompanhada por alguns jovens do elenco. Entre eles, Maxwell Nascimento, que fez o personagem central.
Mesmo estreante, Maxwell já arrematou os prêmios de melhor ator das principais competições cinematográficas brasileiras. E disputou, por exemplo, com Caio Blat, que participou de três produções importantes neste ano: Batismo de Sangue (direção de Helvécio Ratton), Proibido Proibir (Jorge Duran) e Baixio das Bestas (Cláudio Assis).

Fórum – Carlos, como foi o seu contato com a obra do Plínio Marcos e o que o motivou a adaptá-la para o cinema?
Carlos Cortez – Nunca há um motivo só. Realizei algumas produções com o Plínio e isso fez com que estreitássemos nossa amizade. Um dia disse a ele: “Pô, Plínio, você já foi porteiro, palhaço, dramaturgo, podíamos falar sobre esses seus 30 anos heróicos de teatro”. E ele, com aquele jeito, respondeu: “Vai tomar no seu… Que baita proposta idiota, você só vai fazer isso depois que eu estiver morto”. Plínio e eu tínhamos o barato de escrever juntos, fazer coisas juntos. Num dia que estávamos produzindo, pedi a ele o Querô para produzir em cinema. Ele disse que também tinha uma proposta, fazer “Cinco Contos de Artista da Ralé de Beira de Cais”. Ele queria fazer um filme sobre estes personagens. Logo depois ele morreu. Quando isso ocorreu, a família sabia que eu queria adaptar Querô para o cinema e o liberou. Eu queria um retrato atual do drama do abandono dos nossos meninos e adolescentes. E o Querô tem um texto muito atual.

Fórum – Você opta por não utilizar atores profissionais e realiza oficinas em Santos para selecionar os adolescentes que participariam do filme. Como foram estas oficinas e por que esta opção? Cortez – Queria que o filme tivesse o frescor dos dias de hoje. Que não fosse algo com jeito de 30 anos atrás. Durante as oficinas, que duraram seis semanas, ninguém leu o roteiro, que recebeu recomendação do Sundance. Durante essas semanas, as oficinas eram para gerar uma sensibilização do grupo. Depois, tivemos seis semanas para ensaio do filme. Ou seja, ao invés de partirmos do roteiro a gente chegou até o roteiro. E fizemos as filmagens em outras seis semanas. Tudo na correria por causa da grana, que era curta. Uma experiência única, que resultou na qualidade do filme, na realidade das imagens.

Fórum – Todo o filme se passa nas redondezas do porto de Santos, no cais que também é o cenário do livro. Como foi realizar as filmagens naquele ambiente? Cortez – Queria filmar no porto, tendo como cenários as boates e os bares da região. E acabamos contando com o apoio das autoridades e dos moradores dos cortiços e das quebradas onde filmamos. Foi muito bom. Utilizamos o maior cortiço que havia em Santos, hoje desativado pelas autoridades. Também usamos a delegacia que deveria estar desativada, mas que por conta da prisão do grupo do Naldinho [acusado de ser o líder do tráfico na Baixada Santista] acabou sendo utilizada para encarcerá-los enquanto filmávamos. Eles ficaram três dias sem banho de sol porque estávamos utilizando o pátio, queimando colchão e fazendo a rebelião. Em outro cortiço que filmamos, como não tínhamos dinheiro para alugar todos os andares, alugamos somente um quarto. O morador desse quarto aguardava os intervalos das gravações para tomar banho e se trocar. Este mesmo morador, quando o São Paulo foi campeão mundial, chegou muito bêbado. Ele subiu as escadas gritando “Sãoo Paulooo, São Pauloooo” e tropeçando. Quando chegou no seu quarto ele viu um monte de prostitutas, e no dia em que filmávamos a cena do puteiro da Naná, ele ficou sem entender nada. Como não sabia o que estava acontecendo, ficou desesperado. Para resolver a situação, a produção o levou para tomar mais umas [risos].
Para realizar o filme, contamos com 500 pessoas que participaram como figurantes. A maioria moradora dos cortiços do centro. E a colaboração se estendeu de diversas formas. Uns emprestavam seus quartos para usarmos como set de filmagem, outros emprestavam móveis, cortinas e objetos pessoais para fazer parte dos cenários, outros garantiam o silêncio dos lares, bares, porto e até do ponto de drogas para que pudéssemos filmar com um som limpo.
Fórum – As oficinas causaram uma repercussão positiva na cidade? Houve continuidade do trabalho? Cortez – Quando acabou a oficina que levou às filmagens do Querô, foi a maior choradeira. Os meninos assumiram a continuidade. O Sesc autorizou e a prefeitura também colaborou.
Maxwell Nascimento – Já estamos na segunda turma. Esta turma ia acabar em julho, mas resolveram prolongar até o final do ano. É pouco tempo para aprender tudo.
Cortez – O pessoal da outra oficina já fez seis curtas. Dois já são premiados, o Maria capacete e o Torto, que trata dos prédios tortos da orla de Santos. E já existem outros sendo produzidos.

Fórum – Maxwell, o que você fazia antes de começar a oficina de atores e atuar no filme? Maxwell – Meu sonho era ser jogador de futebol, eu jogava bola. Quatro meses antes de aparecer o teste para o filme, tinha parado de treinar. Fiz sete peneiras e nenhuma deu certo. Um dia estava jogando bola na escola e a produção do filme conversava com um amigo. Achei a história de fazer um filme estranha, mas não tinha mesmo nada para fazer e arrisquei.
No começo da oficina foi tenso, eram 40 moleques que nunca tinham se visto. O Luiz [Mario Vicente], preparador de atores, sempre queria nos aproximar. Imagina um cara chegando para os moleques e falando: “Aproxima, toca mesmo, abraça, deixa o carinha ficar segurando você”. Era bem complicado. No final do processo todo mundo se abraçava e beijava. O documentário Eu Fiz Querô, por exemplo, mostra 40 moleques no final da oficina se abraçando e chorando como crianças.
Tivemos muitas aulas, veio muita gente de fora nos dar dicas. Fiquei sabendo que eu seria o personagem Querô na véspera de começar os ensaios para o filme. Mudei bastante desde lá. Hoje penso diferente, tenho outro olhar.

Fórum – Carlos, qual sua opinião acerca da discussão da redução da maioridade penal? Cortez – Eu acho uma cretinice, um absurdo. Nós sabemos que a questão não é mais repressão. O problema é falta de oportunidade. Nós fomos ao Senado, na Comissão de Direitos Humanos, e mandamos bala lá. Participamos da mesa, debatemos a questão. E agora esperamos que o filme contribua para uma visão mais humana, mais delicada sobre o problema. Acho que falta esse olhar para com a questão da juventude pobre no Brasil.



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