O jornalista japonês

Crônica de Mouzar Benedito Por Mouzar Benedito   Minha amiga Mary Lou casou-se com um japonês e foi morar no Japão. Entre muitas outras atividades desenvolvidas lá,...

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Crônica de Mouzar Benedito

Por Mouzar Benedito

 

Minha amiga Mary Lou casou-se com um japonês e foi morar no Japão. Entre muitas outras atividades desenvolvidas lá, como jornalista, ela dava aulas de português. E usava como material de apoio nessas aulas um livro meu, Santa Rita Velha Safada. Gozado, um livro de causos de Minas Gerais servindo como material de aprendizagem de português. Mas a Mary Lou explicou que, como os textos eram curtos, cada um com uma historinha completa, tornava-se mais fácil. E servia também para os alunos entenderem um pouco como funciona o nosso humor.
Por sinal, não foi só a Mary Lou a usar esse raciocínio. Eu soube de um professor de português de uma universidade alemã que morou em Minas, conheceu o mesmo livro e o usava na Alemanha também.

Um dia, um sujeito me telefonou, falando um português meio complicado, dizendo que fora aluno da Mary Lou e estava chegando para morar em São Paulo. Era jornalista e trabalharia alguns anos aqui, como correspondente de uma agência de notícias. Queria se enturmar. Seu nome era Akashi.
Marcamos um encontro e a partir daí passei a mostrar a ele algumas coisas de São Paulo. Sempre que podia, eu o levava a algum lugar que achava que ele gostaria. No primeiro sábado que estávamos os dois disponíveis, a Célia e eu o levamos à feira-livre da Vila Madalena. Gostou. Fotografava tudo, aquela variedade enorme de frutas, verduras, peixes, temperos etc.
Como não podia deixar de ser, depois de uma circulada pela feira, fomos ao Sujinho, bar tradicional da Vila Madalena. Havia um monte de gente amiga bebendo, e fui cumprimentando todo mundo, bebericando a cerveja de uns, beijando as amigas…
Dias depois, o Akashi queria contratar um jornalista brasileiro para ajudá-lo, mas oferecia uma graninha bem curta. Mesmo desempregado, eu não aceitei. Indiquei o Fausto, um jornalista recém-formado, que trabalhava num cargo burocrático do Senai, explicando que por aquele dinheiro, o Akashi não poderia exigir exclusividade. Ele manteria o emprego do Senai e nas horas vagas ajudaria o japonês. Deram certo, e até tornaram-se grandes amigos.
Num fim de semana, o Fausto levou o Akashi pra conhecer Santos e Guarujá. Um fim de semana de muito sol e um montão de gente descendo a serra. Dali uns dias, uma matéria do Akashi num jornal japonês dizia que nos finais de semana, toda, absolutamente toda a população brasileira ia para o litoral. O interior do país ficava totalmente vazio!
Imaginando que correspondente internacional geralmente é jornalista de grande destaque e competência reconhecida, comecei a pensar na qualidade da informação dos jornais japoneses.
Passou um mês, ele apareceu em casa com uma revista japonesa. Dizia que escreveu uma matéria sobre aquela nossa visita à feira. Mostrou a matéria, com uma foto de um grupo dentro do Sujinho. Pedi pra ele traduzir a matéria pra gente. Ele começou a ler e foi me dando um desespero: na verdade, em vez da feira, a matéria falava mais do bar. Dizia que no Brasil, quando a gente vai a um bar pode beber cerveja do copo de todo mundo e beijar todas as mulheres. Fiquei pensando num japonês que lesse aquilo, viesse para cá e chegasse a um bar qualquer, e entrasse bebendo dos copos dos outros e beijando todo mundo…



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