O pior de dois mundos

Segundo relatório da Organização Mundial de Saúde, danos ambientais são responsáveis por aproximadamente 13 milhões de mortes por ano em todo o mundo. Países em desenvolvimento sofrem com os efeitos do crescimento econômico juntamente...

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Segundo relatório da Organização Mundial de Saúde, danos ambientais são responsáveis por aproximadamente 13 milhões de mortes por ano em todo o mundo. Países em desenvolvimento sofrem com os efeitos do crescimento econômico juntamente com sua secular miséria.

Por Aureliano Biancarelli

 

A miséria de regiões onde esgotos correm a céu aberto e não há água tratada parece não combinar com a aparente efervescência econômica das avenidas de trânsito carregado. No entanto, ambos os cenários têm em comum o fato de serem grandes geradores de doença, além da contradição de conviverem lado a lado em países em desenvolvimento, como o Brasil. Um detalhado documento divulgado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) no mês de junho chama a atenção para o peso do meio ambiente sobre a saúde e a mortalidade do mundo todo.
Segundo o estudo, tornar mais saudável o lugar onde habitamos pode evitar 13 milhões de mortes por ano. Em muitos países, cerca de 30% das doenças são provocadas por causas ambientais, a maioria decorrentes da falta de saneamento e da poluição do ar.
A OMS calcula que apenas reduzindo o nível da poluição atmosférica poderiam ser salvas 865 mil vidas por ano. O estudo estima que, no Brasil, 13 mil pessoas morrem anualmente em decorrência direta da poluição do ar nas cidades, a grande maioria por causa da fumaça dos carros, ônibus e caminhões. “Hoje, todos os moradores das grandes cidades brasileiras respiram um ar de segunda linha”, assegura o professor Paulo Hilário Nascimento Saldiva, diretor do Laboratório de Poluição Atmosférica da Faculdade de Medicina da USP. “Pelos dados que temos de São Paulo, a média anual de material particulado está na ordem de 28 microgramas por m3, quando deveria ser de dez.”
Países em desenvolvimento, como o Brasil, pagam a conta dos dois lados. Na outra ponta da fumaça, estão as mortes decorrentes da falta de saneamento e do tratamento da água. Segundo o estudo da OMS, o Brasil registra 15 mil mortes por ano em decorrência de diarréias e infecções intestinais provocadas pela água. Só em 2001, foram 500 mil internações no Sistema Único de Saúde (SUS) apenas por diarréia.

Segundo dados do IBGE (de 2004), 90,4% dos domicílios urbanos têm algum abastecimento de água. O número cai para 59,8% na região Norte do país. A rede de esgoto chega a 65,9% das moradias. Outras 28,8% têm fossas sépticas e as demais não contam com nenhum recurso.
Quando se fala em saneamento completo – abastecimento de água, esgoto sanitário e coleta de lixo –, o percentual de domicílios cobertos chega a apenas 60,3%. No Nordeste e no Centro-Oeste, o número cai para cerca de 34% e no Norte, para 9,1%. Áreas rurais de muitas re¬giões não contam com nenhum tipo de saneamento.
Mesmo nas grandes cidades, mais bem servidas por água e esgoto, os bolsões de pobreza concentram um grande número de pessoas excluídas desses serviços. “O país tem um déficit de 6,7 milhões de moradias”, explica Gilson Carvalho, médico pediatra e especialista em Saúde Pública. Significa que pelo menos 25 milhões de pessoas moram em habitações improvisadas, sem água nem esgoto, expostas a todo tipo de doença. Pelos dados da OMS, a fumaça provocada pelo uso de lenha ou carvão para cozinhar dentro dessas moradias precárias causa 4.100 mortes por doenças respiratórias, por ano, no Brasil.

Atraso e desenvolvimento

Crianças brincando em córregos que viraram esgotos não são cenas apenas africanas, podem ser vistas em países asiáticos e latino-americanos, alerta o documento da OMS. Em São Paulo, a cidade mais rica do Brasil – assim como em muitas outras capitais –, moradores de favelas vivem encurralados pela doença: nos fundos, passa o riacho poluído, que serve de esgoto e onde suas crianças brincam, se infectam e adoecem. Na frente, passa a via de trânsito intenso, que provoca doenças e mata pela fumaça, quando não pelo atropelamento.
“O Brasil, como muitos outros países, vem sofrendo, por um lado, com o atraso, a falta de saneamento e de condições básicas; de outro, pagando o preço do desenvolvimento industrial”, analisa Nelson da Cruz Gouveia, do Departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da USP.
A porta dos fundos, aquela do esgoto a céu aberto e das diarréias, é sempre a mais esquecida e não sai no jornal. Diz-se que no Brasil sanea¬mento não tem prioridade porque tubos para levar esgoto e trazer água ficam embaixo da terra e ninguém os vê, por isso não dão votos. O contrário do que ocorreria com pontes e viadutos.
Os “sem-saneamento” também costumam ser os mais pobres, por isso têm menos voz e contam menos. No entanto, há anos se sabe que gastos nessa área têm grande retorno. Os estudos mostram que a cada real investido em coleta de esgoto e tratamento de água, o país economiza R$ 4 em gastos com saúde. Aqui não estão contabilizados anos de saúde perdidos nem o sofrimento das vítimas e familiares.
Crianças expostas a condições anti-higiênicas sobrecarregam os serviços de saúde e são as mais sujeitas à morte. Segundo o estudo da OMS, 33% de todas as doenças de crianças menores de cinco anos se devem à exposição a riscos ambientais. Pelo menos 4 milhões delas morrem por essas causas por ano só nos países em desenvolvimento. No Brasil, 21% das mortes de crianças se devem a doenças infecciosas e parasitárias.
Reduzir os riscos ambientais é um dos eixos presentes em muitas das Metas de Desenvolvimento do Milênio, estabelecidas pela OMS. Em alguns países pobres, o estudo observa que oferecer água limpa e latrinas – especialmente para as meninas – pode aumentar a presença de alunos nas escolas primárias. Um ambiente mais saudável contribuiria para uma maior igualdade entre os gêneros, já que cabe à mulher sair em busca de água e se ocupar das crianças que caem doentes.

Uma política de saneamento

Os danos causados pela falta de saneamento são conhecidos de longa data. Em países como o Brasil, tanto técnicos do Ministério da Saúde como especialistas acadêmicos sabem o que é preciso fazer. “Mas os países em desenvolvimento, de um modo geral, não têm se preocupado muito com essa questão”, diz Arlindo Philippi Jr., professor de Saúde Ambiental da Faculdade de Saúde Pública da USP. “No Brasil, os investimentos são dispersos e descontínuos. Enquanto alguns municípios do Sul e do Sudeste têm 100% do esgoto e da água tratados, outras regiões não têm nada.” O estado de São Paulo, por exemplo, já tem uma política de saneamento desde 1991.
“No Brasil, só em janeiro deste ano se estabeleceu uma política nacional de saneamento ambiental que vai permitir investimentos contínuos e planejados”, diz Phillipi Jr. O Ministério das Cidades, que assumiu a questão, anunciou investimentos de R$ 40 bilhões até 2010, dentro do Programa de Aceleração do Crescimento para a área.
Com mais dinheiro e novas diretrizes, espera-se que o saneamento básico, assim como outros temas ambientais, passem a ser vistos como questão de saúde pública. “Mas no Brasil, os ministérios do Meio Ambiente e da Saúde ainda trabalham como se uma área não tivesse a ver com a outra”, diz Saldiva. “Quando se constrói uma rodovia, o Ministério do Meio Ambiente faz estudos para saber se a obra provocará danos às matas, por exemplo. Mas quando se duplica uma avenida, ou se constrói um grande empreendimento em área urbana, aumentando muito o fluxo de carros na região, não se estudam os danos que esse aumento de tráfego provocará na saúde daquela população. No Brasil existe uma atenção maior com a preservação da Amazônia – que acho muito importante – do com que a preservação da saúde das pessoas que vivem nos grandes centros urbanos.”

Na contra-mão O professor Saldiva percorre cerca de 25 quilômetros por dia entre sua casa, a Faculdade de Medicina da USP, o campus da universidade e a volta para casa. Faz o trajeto de bicicleta. Saldiva dirige o Laboratório de Poluição Ambiental, por isso sabe bem os danos que as partículas inaláveis – produzidas principalmente pelos carros – produzem na saúde e no meio ambiente. Pedalando, ele não polui, mas recebe na cara toda a poluição que está à sua volta. Dois anos atrás, ele e o professor Gouveia participaram de encontros da OMS que reduziram para um terço a quantidade de partículas inaláveis aceitável no ar. “Todas as nossas grandes cidades estão fora desse padrão”, diz.
A cidade de São Paulo tem uma frota de 5,5 milhões de veículos, mais 750 mil motos, boa parte delas poluindo o equivalente a cinco carros. A cada dia, 500 carros novos se integram à frota da cidade. “Em dez anos, a população da Grande São Paulo cresceu 12%, enquanto a frota de carros aumentou 70% e a de ônibus permaneceu a mesma”, diz Saldiva. “Isso mostra que nós optamos pelo transporte individual, o que é inviável em todos os sentidos. Aumentamos a poluição, o aquecimento global e inviabilizamos a própria finalidade que é o transporte. Teremos sempre mais carros, e teremos mais dificuldade para nos locomover.” Segundo Saldiva, Bogotá, Cidade do México e Santiago, cidades com o mesmo perfil de São Paulo, optaram por aumentar o número de viagens por transporte coletivo. “Nós estamos na direção contrária.”
Os diretores da OMS dizem que o estudo agora divulgado pretende contribuir para que os países possam melhor orientar seus investimentos e com isso salvar mais vidas e gastar menos com doenças. Para dezenas de nações pobres, muitas delas em conflito, as sugestões da OMS são “apenas sugestões”, porque dependem de dinheiro que elas não têm. No caso do Brasil, já se sabe o que falta fazer e já não falta dinheiro. Falta começar.



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