O acerto necessário

Há exatos 45 anos, os olhos de toda uma nação eram vendados para atos terríveis que aconteceriam em porões e calabouços. Na calada da noite de 31 de março de 1964, militares se apoderaram...

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Há exatos 45 anos, os olhos de toda uma nação eram vendados para atos terríveis que aconteceriam em porões e calabouços. Na calada da noite de 31 de março de 1964, militares se apoderaram daquilo que pertence a todos os cidadãos brasileiros, para afrontar um suposto “perigo comunista”. Em nome de uma ameaça virtual, instalaram um regime de exceção, eliminaram liberdades
civis, violaram direitos humanos, torturaram, mataram (qualquer semelhança com a doutrina do terror que dominou o governo torturador de George W. Bush, de infeliz lembrança, não é mera coincidência). Hoje, alguns se valem de comparações numéricas com outras ditaduras para “abrandar” o período mais duro de nossa história, e justificar assim posições muito mais que discutíveis. Que importa se mataram mais na Argentina ou no Chile? Isso basta para se pronunciar essa deplorável expressão “ditabranda”, que o general Augusto Pinochet usou para caracterizar o seu regime sanguinário, fazendo uso de uma ironia tão sutil quanto um tanque de guerra? Querem comparar o incomparável: o Brasil torturou e matou seus próprios filhos e filhas, e justamente aqueles e aquelas que lutaram por valores como liberdade, democracia e justiça.
De nossa parte, preferimos avançar no caminho da verdade e da transparência e manter vivo na memória o sentimento de revolta e indignação – e em muitos momentos de justificável terror – que tomava de assalto os brasileiros que sentiram na pele o que é viver sob a ameaça institucionalizada. Já avançamos
muito na construção de instituições democráticas. Mas como podemos dormir tranquilos enquanto não trouxermos à luz tudo aquilo que foi acobertado em nossa história? Como podemos afirmar que somos de fato uma democracia se não acertamos as contas com o nosso passado, e deixamos que os crimes cometidos pelo Estado permaneçam impunes? Como diz Franklin Martins em entrevista à Fórum, o Brasil já tomou sua decisão sobre a revisão da Lei de Anistia: a decisão é enfrentar a verdade, e que paguem aqueles que têm que pagar. Já é tempo de tirarmos as vendas que ainda nos tapam os olhos.



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