O Aprendiz – a estetização da ética

Os reality shows viraram moda na televisão. Mostram como a vida cotidiana também pode ter uma dimensão de espetáculo. E, ao espetacularizar situações cotidianas, contribui para reforçar e consolidar valores, uma ação ideológica extremamente...

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Os reality shows viraram moda na televisão. Mostram como a vida cotidiana também pode ter uma dimensão de espetáculo. E, ao espetacularizar situações cotidianas, contribui para reforçar e consolidar valores, uma ação ideológica extremamente eficiente para que determinados consensos não sejam questionados socialmente.

Não vou falar aqui do Big Brother Brasil, talvez o reality show mais comentado, até porque é transmitido pela Rede Globo. Considero-o extremamente infantil, bobo, funciona mais como um laboratório de personagens e situações que a Globo testa junto ao público para futuros usos em sua dramaturgia. Também serve como trampolim para aspirantes a personagens no mundo midiático (desde posar nua em revistas masculinas até apresentar programas de entretenimento).

Um tipo de reality show que vem fazendo certo sucesso na mídia é o programa Aprendiz, apresentado pelo publicitário Roberto Justus. Este programa consolida a idéia de self-made-man e de homem de sucesso do seu apresentador. Na vinheta de abertura do programa, Justus aparece em uma posição deificada, com uma expressão celestial, acima de tudo, isolado como o próprio Ser supremo, condição esta legitimada pelo seu sucesso como grande executivo. É a nova forma de deificação em tempos neoliberais – uma supremacia dada não por uma beleza olímpica (como os deuses gregos) ou por uma universalidade moral (como os princípios cristãos), mas pelo sucesso.

Do alto da posição olímpica meritocrática, Justus vai proferindo suas sentenças de condenação: “está demitido”. Profere sem expressão nenhuma, sem raiva, sem emoção, sem qualquer indicador de indignação ou decepção, dentro da frieza tecnocrática que mascara relações de poder no capitalismo. No cenário midiático, as relações de poder de empregador e empregado viram um espetáculo de suspense em que a decisão do mandatário se impõe acima de qualquer dimensão humana – é o Deus do mérito falando.

Na final do Aprendiz 6, show foi completo: a decisão foi realizada no auditório do Memorial da América Latina, com a participação de “demitidos”, num verdadeiro momento de penitência: os demitidos foram divididos nas equipes das finalistas e, antes da competição, ainda participaram de uma entrevista com o seu “algoz”, reverenciando-o, como que entendendo o porquê da punição.

Justus demonstrou ter prazer em demitir. Em diversas vezes lembrou que tem este poder. Falou que recebeu o email da mãe de uma das candidatas que disse que quando demitiu a filha dela, atingiu toda a família. Rindo, disse que pensou estar demitindo todos (pai, mãe, filha, etc.). Mais tarde, no palco, conversou com um vencedor da edição anterior do Aprendiz que se tornou sócio de um empreendimento seu e afirmou que “agora eu não posso te demitir”. O dedo em riste e a frase “está demitido” é o raio de Zeus ou o dilúvio de Deus na passagem da Arca de Noé que Justus considera ser o seu poder de Deus-mérito.

Submissos, os participantes fingem aceitar isto. Choram, lamentam, mas se submetem a este poder.

O Aprendiz ensina, de fato, como se adequar às normas de uma sociedade da ditadura do mercado. A ética da competição, do sucesso e do pretenso mérito se articula com a submissão ao poder instituído. O Aprendiz é um reality show que espetaculariza as relações de poder de trabalho. Esteticiza o que tem uma dimensão ética.

Dennis de Oliveira é jornalista e professor da Escola de Comunicações e Artes da USP, coordenador do Celacc (Centro de Estudos Latino Americanos de Cultura e Comunicação), membro do Neinb (Núcleo de Pesquisas e Estudos Interdisciplinares sobre o Negro Brasileiro) e vice-coordenador do Alterjor (Grupo de Pesquisa de Jornalismo Popular e Alternativo). E-mail: dennisoliveira@uol.com.br



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2 comments

  1. Paulao

    Em uma destas uma moça pediu para sair,pois professava sua fé Cristã, e os principios e exemplos familiares a mesma sentia que estava indo contra os principios adquiridos. Justus ridicularizou não só os familiares más todos aqueles que professa uma fé Cristã verdadeira e genuina. É ridiculo o programa, temos uma casta programação de qualidade em outro canal. Abaixo Justus e seu programa.

  2. Paulao

    Em uma destas uma moça pediu para sair,pois professava sua fé Cristã, e os principios e exemplos familiares a mesma sentia que estava indo contra os principios adquiridos. Justus ridicularizou não só os familiares más todos aqueles que professa uma fé Cristã verdadeira e genuina. É ridiculo o programa, temos uma casta programação de qualidade em outro canal. Abaixo Justus e seu programa.

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