O caminho pela internet

Liberdade de informação – e mais especificamente o direito de buscar, receber informações imparciais – é um direito humano fundamental; na realidade, um pré-requisito para muitos outros”, explica o Relatório MacBride, publicado pela Unesco,...

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Liberdade de informação – e mais especificamente o direito de buscar, receber informações imparciais – é um direito humano fundamental; na realidade, um pré-requisito para muitos outros”, explica o Relatório MacBride, publicado pela Unesco, em 1980. No Brasil, apesar de isso ser proibido pela Constituição Federal, a comunicação acaba tornando-se objeto de oligopólio em todos os seus segmentos. Grandes conglomerados empresariais controlam emissoras de TV (abertas e fechadas), sites de notícias, revistas e jornais impressos, rádios (AM e FM) e mesmo editoras. “Se os media agirem como agentes de sustentação do status quo, poderão facilitar perigosamente a manipulação e a desinformação do público”, alerta o professor Jorge Pedro Sousa.
A vinculação do conteúdo jornalístico com a área comercial das emissoras fica evidente em muitos casos, o que compromete a imparcialidade do veículo. Um exemplo foi a matéria “Propaganda de bebidas provoca polêmica”, veiculada no Jornal Nacional da Rede Globo, em abril de 2008. O assunto era o projeto do governo que visa a restringir a publicidade de bebidas alcoólicas. Na matéria, o senador Francisco Dornelles (PP-RJ) assumiu a defesa dos interesses das empresas de bebidas e das de comunicação: “Essa medida interfere indevidamente no mercado publicitário”. Não houve espaço para as opiniões dos vários lados envolvidos e a matéria ficou com mais características de propaganda do que de um produto jornalístico. Assim, os meios de comunicação “deixam de reportar para interferir no fato, e passam a ser o fato; não informam, formam opinião; não noticiam, opinam”, alerta o professor Roberto Amaral.
É fácil entender a preocupação das emissoras com a publicidade de bebidas. Apenas no terceiro trimestre de 2007, foram investidos R$ 276,4 milhões em publicidade de cervejas, 50% desse valor nas TVs, segundo o Ibope. O problema é ainda mais grave se for analisada a ausência de um marco regulatório atualizado para o setor de comunicação. As leis em vigor são obsoletas e o governo federal não fiscaliza as emissoras para garantir o cumprimento das obrigações dessas concessionárias públicas.
Contudo, se na mídia convencional a guerra parece perdida, na internet há equilíbrio entre poderosos e anônimos. A página eletrônica de um movimento social é tão acessível quanto a de uma grande corporação e produzir na internet exige custos muito mais reduzidos do que em qualquer outro meio. Assim, a importância da publicidade é relativa e a independência do conteúdo informativo é muito maior. A rede mundial quebra aos poucos a hegemonia das empresas de comunicação e se torna uma possibilidade real para o cidadão se expressar e se informar. De acordo com pesquisa do Instituto Datafolha, 47% dos brasileiros já acessam a internet. O número de computadores já passa de 50 milhões, segundo a Fundação Getúlio Vargas, e o Interactive Advertising Bureau atesta que 50% dos internautas brasileiros são das classes C, D e E.
Em relação à mídia, o comportamento do público se transforma. Da passividade ante a TV, no século XX, agora ele passa a ser produtor de conteúdo midiático. Essa revolução tecnológico-cultural leva a um novo paradigma. A divulgação de informações e de opiniões deixa de ser privilégio das empresas de comunicação e passa a ser uma possibilidade para o cidadão comum. O custo para publicar um site (ou um blogue) é acessível ou até mesmo gratuito. Nas favelas, há lan houses onde a navegação custa R$ 1 por hora. Para o cidadão de baixa renda, é a certeza de poder se integrar ao mundo, próximo de sua casa e a um custo bastante acessível. Alguns exemplos demonstram como o uso da internet por projetos sociais gera resultados.
No Rio de Janeiro, desde 2001, o Observatório de Favelas atua na elaboração de projetos e programas que contribuam para a superação das desigualdades sociais. O site do Observatório deverá abrigar uma agência de notícias que vai divulgar as favelas “de dentro para fora”, como explicou a assessora de imprensa Marianna de Araújo. Cerca de 60 alunos – moradores das favelas da Maré e do Complexo do Alemão – que participaram do curso de Comunicação Crítica da ONG treinam elaborando pautas sobre o cotidiano dessas comunidades.

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