O dia da Alba na COP-15

Pela primeira vez desde há algum tempo, fui diretamente para o Fórum pelo Clima, dado que não havia qualquer manifestação marcada. Ali acontecia uma sessão sobre a contribuição da pecuária para as alterações climáticas, organizada...

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Pela primeira vez desde há algum tempo, fui diretamente para o Fórum pelo Clima, dado que não havia qualquer manifestação marcada. Ali acontecia uma sessão sobre a contribuição da pecuária para as alterações climáticas, organizada pela Compassion in World Farming.

Um relatório da FAO, “Livestock‘s long shadow”, estima que 18% das emissões de gases com efeito de estufa podem ser atribuídas à pecuária. Isto significa que a criação de animais para alimentação contribui mais para as alterações climáticas que todo o setor dos transportes. As associações de defesa dos animais têm usado este número frequentemente para defender o vegetarianismo.

Mesmo sendo defensor e praticante do vegetarianismo tenho, contudo, algumas dúvidas quanto à forma como este argumento tem sido utilizado aqui. Por um lado, há formas de reduzir as emissões da pecuária significativamente, o que retiraria validade ao argumento. Por outro, há outros bons argumentos para defender a redução no consumo de carne como uma opção ecológica, dada a contribuição da pecuária intensiva para a desflorestação, a poluição das águas, a erosão dos solos e a perda de biodiversidade. Pegar simplesmente na contribuição da pecuária para as alterações climáticas e hiperbolizar o problema de forma a dar a ideia de que podemos resolver a crise climática deixando de comer carne é uma estratégia de campanha que não nos leva a nenhum lugar.

O protagonismo da Alba

À tarde, chega o grande momento do comício da Aliança Bolivariana dos Povos da América (Alba). Uma plataforma de partidos de esquerda, sindicatos e associações organizou um comício com os representantes dos governos de Cuba, Nicarágua, Bolívia e Venezuela. O evento enche um grande pavilhão desportivo.

Esteban Lazo, Vice-Presidente de Cuba, menciona como exemplo de cooperação internacional que a Alba tem permitido os programas de erradicação do analfabetismo na Venezuela, Bolívia e Nicarágua, que avançam rapidamente. A Alba luta por sociedades sustentáveis, vivendo em harmonia com a natureza, diz, mas isto é possível apenas quando temos um sistema econômico que tenha o ser humano no seu centro.

Samuel Santos, ministro dos Negócios Estrangeiros da Nicarágua, assinala que a Alba nasceu para defender a independência e a democracia. Mas, assinala Santos, eles não querem a democracia burguesa, querem antes uma democracia que nasce do povo e é sustentada pelo povo. Para haver democracia tem de haver educação, saúde e emprego, sem esses direitos assegurados não vivemos em democracia.

Santos aponta o dedo ao consumismo capitalista na hora de encontrar a raiz do aquecimento global, para depois criticar o mercado de carbono como uma forma de permitir que os países ricos continuem a poluir.

Seguem-se as duas maiores estrelas: Evo Morales e Hugo Chavez. Morales saúda os movimentos sociais presentes em Copenhague a lutar pela Mãe Terra que saem para as ruas a defender a revolução democrática. Passa então a defender a política de nacionalizações das empresas de hidrocarbonetos.

Quando Morales tomou o poder, as empresas ligadas aos combustíveis fósseis eram privadas e faturavam 300 milhões de dólares por ano. Agora que estão sob gestão pública geram 2 biliões por ano, desmentindo o mito de que a gestão privada é sempre mais eficiente. Isto permitiu que, pela primeira vez desde os anos 40, a Bolívia tenha um superávit orçamental, sem ter seguido a sugestão do FMI para criar novos impostos sobre o trabalho.

Falando das alterações climáticas, o presidente da Bolívia diz que devemos olhar para as suas causas e não apenas para as consequências. A causa principal é o capitalismo, o maior inimigo da humanidade.

Evo termina com um apelo a um referendo mundial sobre o destino do planeta. Apresenta uma lista de perguntas para este referendo:

* Está de acordo com reestabelecer a harmonia com a natureza, respeitando a Mãe Terra?
* Está de acordo com alterar este modelo de sobre-consumo e deboche que é o sistema capitalista?
* Está de acordo com que os países desenvolvidos reduzam e absorvam os seus gases com efeito de estufa domesticamente para que a temperatura não suba mais que 1ºC?
* Está de acordo com um tribunal de justiça climática para julgar quem destroi a Mãe Terra?

A todas estas questões o público responde com um ruidoso “sim”. Mas Morales avisa: sozinhos, não conseguimos nada, necessitamos da ajuda dos movimentos sociais para superar o capitalismo.

Segue-se Hugo Chávez, que exalta o poder dos jovens, mas particularmente das jovens mulheres. Chávez declara-se feminista e diz que todos os socialistas devem ser feministas. O discurso continua com muitas outras tiradas incendiárias, que despertam o furor da multidão.

Elogiando o papel dos movimentos sociais que marchavam nas ruas dizendo “mudem o sistema, não o clima”, Chávez criticou a repressão policial muito dura e o afastamento dos movimentos sociais da conferência, que o chocou. Isto não se vê nos países da Alba, disse, embora os seus governantes sejam rotulados como tiranos.

O presidente da Venezuela dramatiza o discurso dizendo que no tempo de Marx, Engels e Rosa Luxemburgo, havia tempo e espaço de manobra mas que agora não há porque a humanidade estar à beira do abismo. Amanhã pode ser tarde demais para a vida humana pelo que temos de lutar com mais urgência, vontade e capacidade estratégica para derrotar o capitalismo e construir a alternativa radical, humana e vital ao modelo destrutivo capitalista: o socialismo.

Referindo-se a Morales como um herói, diz que é símbolo dos indígenas que lutaram contra o colonialismo durante cinco séculos. Evo deveria ter recebido o Nobel da paz, Obama ficava com o Nobel da guerra.

Chávez apela à unidade da esquerda, contrariando as tentativas do capitalismo para dividir os movimentos e partidos de esquerda. Precisamos de uma nova esquerda na Europa, defende, socialista, revolucionária e popular. Precisamos que o Norte se una ao Sul e lute por uma revolução contra o capitalismo e o imperialismo e pelo amor e a vida. Uma revolução que será ecológica, climática, energética, financeira, industrial, humana, filosófica e moral.

Hugo Chávez cita Kierkegaard, um filósofo dinamarquês: “a vida só pode ser compreendida quando olhamos para trás mas tem de ser vivida olhando para a frente”. Conclui então que, assim como em Seattle, há 10 anos, numa cimeira da OMC, nasceu o movimento altermundialista, em Copenhague nasce uma nova frente da batalha contra o capitalismo. Vamos à batalha, apela.

De volta ao Klima Forum

Volto para o Klima Forum depois destes discursos fascinantes, que duraram horas, para encontrar uma exibição de um filme sobre os crimes da Shell na Nigéria. O Friends of the Earth holandês tem colaborado ativamente com comunidades afetadas pela contaminação da água e do ar junto dos poços petrolíferos da Shell no Delta do Níger, para denunciar as constantes violações da lei e dos direitos humanos. Em particular, a Shell recorre à queima de gases libertados durante a extracção do petróleo, uma prática altamente poluente que é proibida pela lei nigeriana.

Fico entretanto a saber de mais novidades dos ativistas. Hoje dois activistas do grupo Egality Now conseguiram trepar ao edifício em frente da exposição da Hopenhagen e pendurar um cartaz com duas setas dizendo “democracia” e “Copenhague” apontando em sentidos opostos (foto aqui). Os activistas acabaram por ser detidos.

Notícias bem menos animadoras vêm das declarações à imprensa de activistas da rede Ação pela Justiça Climática. Soube-se que a polícia dinamarquesa usou escutas e agentes à paisana infiltrados para acompanhar os passos de quem organizava as manifestações. Isto permitiu-lhes prender selectivamente os porta-vozes, apanhados em várias zonas da cidade.

Os ativistas denunciam ainda que na cadeia improvisada onde foram mantidos, chamada “Guantanamo junior" pelos policiais, foram amontoados sem qualquer dignidade. Quando se revoltaram atirando-se contra as grades os polícias atiraram-lhes com gás pimenta, deixando-os algemados e sem acesso a água.

Na conferência, os países ricos deixaram de lado as suas pretensões de abandonar Quioto mas nem tudo está salvo. Um relatório da ONU confidencial divulgado na imprensa mostra que as correntes promessas de redução de emissões implicarão um mundo 3ºC mais quente, o que implicaria mais inundações para 170 milhões de pessoas vivendo em zonas costeiras e mais 550 milhões de pessoas com fome, além de colocar metade das espécies do mundo em risco de extinção.

Publicado por Esquerda.net.



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