O Fórum que sempre renasce

Desde 2001, quando houve a primeira edição do Fórum Social Mundial em Porto Alegre, o encontro tem sido caracterizado por refletir e fomentar esperanças de se buscar alternativas ao modelo econômico dominante. Quando surgiu,...

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Desde 2001, quando houve a primeira edição do Fórum Social Mundial em Porto Alegre, o encontro tem sido caracterizado por refletir e fomentar esperanças de se buscar alternativas ao modelo econômico dominante. Quando surgiu, o importante era combater o pensamento único e o neoliberalismo; hoje, em sua décima edição, o Fórum passou a ter o meio ambiente como um dos temas centrais e a procura de alternativas possíveis, para boa parte dos participantes do FSM, passa pelas experiências desenvolvidas na parte de baixo do Equador, mais especificamente na América Latina.

Esse foi o tom que predominou nas discussões tanto no Sul quanto no Nordeste brasileiro. O Fórum Social Mundial aconteceu na Grande Porto Alegre, envolvendo não apenas a sua “cidade-natal”, mas também os municípios do entorno, e, na sequência, houve uma edição temática em Salvador. A tônica da capital gaúcha foi a reflexão a respeito do próprio processo do FSM, com o Seminário Internacional 10 Anos depois: Desafios e Propostas para um Outro Mundo Possível. Já na capital baiana outro seminário, o Crises e Oportunidades, apontou para o futuro, discutindo as novas possibilidades que a emergência de países do Sul traz para o cenário global e também para a concretização do dito “outro mundo possível”.

Segundo a organização do FSM gaúcho, as sete cidades da Grande Porto Alegre reuniram 35 mil pessoas em 915 atividades, com representantes de 39 países. Chamou a atenção a participação feminina, 60% do total, de acordo com Celso Woyciechwoski, um dos coordenadores do FSM e presidente da CUT estadual. Uma análise apressada pode levar a conclusões equivocadas se o termo de comparação for a edição de Belém, no ano passado, quando durante seis dias cerca de 133 mil participantes de 142 países de todo o mundo estiveram presentes às atividades do Fórum. Porém, a diferença desta edição – também em relação às anteriores realizadas em Porto Alegre – é que o evento foi descentralizado, uma fórmula que vem desde 2008 e prevê a desconcentração de atividades em anos pares e em um único local nos ímpares. O objetivo declarado é garantir a participação de pessoas que não têm condições de viajar para os habituais encontros unificados.

Por conta disso, pode parecer que o FSM hoje repercute menos do que antes. Mesmo que seja verdade, seria isso necessariamente ruim? Muitos acham que não.“Hoje em dia o Fórum Social Mundial não tem a mesma capacidade e visibilidade de mobilização que tinha nas primeiras edições. Mas isso não quer dizer que perdeu influência, mas sim que está em um processo de amadurecimento quando se começa a discutir mais políticas públicas”, opina o subsecretário da ONU Carlos Lopes.

E a reflexão acerca do papel do Fórum durante os últimos anos autoriza que ele seja um espaço no qual políticas públicas podem ser elaboradas e discutidas. Afinal, foi no FSM, e não no encontro econômico de Davos, que foram dados os primeiros alertas em relação às múltiplas crises que assolariam o mundo no início deste século. “Em 2001, o neoliberalismo (as privatizações, o livre comércio e a desregulamentação econômica e financeira) era para o Fórum Econômico Mundial (FEM) a solução definitiva das crises cíclicas do capitalismo e assim foi considerado até a crise financeira de agosto de 2008, que o FEM não previu. Pelo contrário, o FSM defendeu que o neoliberalismo não era a única solução; que, de todas, era a mais injusta e que as crises que vinha provocando em vários países acabariam por chegar ao coração do capitalismo global, o que aconteceu”, analisa o sociólogo Boaventura de Sousa Santos, em artigo. “À luz disto, seria de bom senso ter em conta os temas que vão dominar o FSM nos próximos anos”, completa. 

E dentre esses temas citados por Boaventura certamente estão as crises econômico-financeira e ambiental, que aumentam ainda mais a pressão para que o Fórum assuma o papel de discutir e elaborar alternativas concretas, como ressalta o governador da Bahia, Jacques Wagner. “Nós, que resistimos aos anos de chumbo e ao pensamento único, estamos debatendo pouco a queda do ‘muro de Wall Street’, a usura que se expôs em setembro de 2008”.

As oportunidades por trás das crises
Mas não se pode dizer deste Fórum que não foram discutidas alternativas. Um ano após a eclosão da crise econômica, existe o claro consenso de que o modelo do livre mercado não é viável tanto econômica quanto ambiental e socialmente, mas ainda há muitas discordâncias sobre como viabilizar a mudança para uma economia menos predatória em todos os sentidos. Para Ladislau Dowbor, um dos organizadores do Fórum Crises e Oportunidades, “nós temos que tatear as crises, temos que ver que há uma crise civilizatória. É uma mudança no planeta”, afirmou, lembrando que o contexto de crise não é exatamente novo: “antes nós tínhamos milhões passando fome, e ninguém falava de crise”.

José Luis Gallardo acredita que, apesar de a crise abrir um profundo questionamento ao modelo de governança neoliberal, não há garantias de que essa é uma oportunidade somente para novas formas de organização econômica. “Eu não sou muito otimista. Acredito que a oportunidade também seja para o mercado se recompor”, diz. A lógica parte da constatação de que a necessidade de mais regulamentação do Estado sobre os capitais especulativos não é uma ideia exatamente nova, já que vinha sendo defendida havia anos pelos economistas menos ortodoxos e hoje conta com apoios até do megaespeculador George Soros, figura-símbolo do Fórum de Davos. Gallardo ainda lembra que nem todo o sistema financeiro foi afetado com a crise. “Sobre os bancos, há fatos que não devem ser esquecidos. Nem todos os bancos quebraram. A Espanha foi afetada e os bancos espanhóis tiveram lucro recorde; nos EUA, o governo escolheu nacionalizar parcialmente os bancos e não explicou o porquê, os critérios não são transparentes”.

Há também quem acredite que a verdadeira crise não é de cunho financeiro. Peter Wahl, da organização alemã Ecologia, Economia e Desenvolvimento Mundiais, defende que a principal crise atual que os governos terão que enfrentar é a energética. “A crise financeira é relativamente mais fácil de resolver”, comenta. “O problema é que a produção de petróleo atingiu seu máximo e agora é que seus preços vão aumentar e causar uma verdadeira crise energética. Por isso muitos políticos estão se convencendo de que têm de mudar a base energética de seus países”, diz. Isso abriria novas possibilidades para a chamada “indústria verde”, como lembra Ricardo Abramovay, professor da Faculdade de Economia da USP, que citou o exemplo da Coreia do Sul, que priorizou reforçar o caráter ambiental em seus modelos produtivos para sair da crise. “O modo de produção automobilístico como o brasileiro está ultrapassado. Hoje, 20% dos carros da Coreia do Sul saem de fábrica com motor elétrico”, exemplifica.

Essa matéria é parte integrante da edição impressa da Fórum 83. Nas bancas.



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