O necessário diálogo entre os diferentes

Se o espaço aberto em que se constituiu o Fórum Social Mundial foi fundamental para novos debates e discussões dentro da esquerda de todo o planeta, a importância do evento para os movimentos sociais...

115 0

Se o espaço aberto em que se constituiu o Fórum Social Mundial foi fundamental para novos debates e discussões dentro da esquerda de todo o planeta, a importância do evento para os movimentos sociais é ainda maior.

No FSM, inúmeras bandeiras, campanhas e lutas encontraram eco e ganharam novas dimensões por meio do diálogo e da integração. E foi assim que a batalha contra o neoliberalismo e o pensamento único abriu novas frentes e adquiriu ainda mais solidez.

“Acho que o surgimento do Fórum foi muito importante para a questão das metodologias, no que se refere ao trabalho de base e à mobilização, colocando em debate vários temas que a gente. volta a discutir não só nos encontros, mas também dentro das organizações”, assegura Marina Santos, integrante da Direção Nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). “Nei todas as conquistas do FSM são concretas do ponto-de vista de que você possa medir, mas elas se refletem principalmente nessa grande mobilização que houve nos movimentos e nas várias entidades e organizações que fazem parte do processo do Fórum Social Mundial”.
“Romper com o corporativismo dos diferentes movimentos foi um importante avanço”, analisa Kjeld Jakobsen, do Observatório Social. “Foi possível que eles enxergassem a existência de Outras preocupações que não apenas aquelas de um setor específico. Ao mesmo tempo, as entidades puderam também compartilhar as visões de diferentes regiões”, pontua.

Isso só é possível em função da pluralidade de participantes e temas existente no Fórum. “O grande ganho que o FSM traz é possibilitar que esses setores organizados possam se articular. Se alguém vem com uma proposta bem acabada, com certeza, a maioria vai acatá-la”, explica Jakobsen. “O Fórum não tem que ter um papel necessariamente na coordenação. Ele é, na verdade, um facilitador”.

Rede Mundial Um dos principais resultados da interação entre as organizações participantes do FSM foi a formação da Rede Mundial de Movimentos Sociais. Ela começou a ser formada em 2001, quando foi lançada a primeira Declaração de Porto Alegre, propondo a formação de uma aliança ampla de movimentos de todo o mundo. Nas edições seguintes do Fórum, a Rede se consolidou ainda mais e diversas agendas de ação comum se constituíram.

Um dos exemplos da ação da Rede foi a manifestação sincronizada entre diversos países contra a ocupação do Iraque pelos EUA, em 15 de ‘fevereiro de 2003, proposta discutida e aprovada na Assembléia Mundial de Movimentos Sociais, realizada durante o III FSM. Também foram articuladas campanhas que pediam o cancelamento da dívida externa dos países do Sul e contra a Organização Mundial de Comercio (OMC). Além disso, também foram concebidas ações contra o militarismo no mundo.
Mas um momento marcante foi o encontro realizado em Caracas, Venezuela, em 2006. Ali, pela primeira vez a Assembléia tinha como convidado um chefe de Estado, o presidente Hugo Chávez. “As organizações venezuelanas estavam muito voltadas para o processo interno e o FSM contribuiu para que elas tivessem um contato maior com entidades de outros países”, conta Maria Luisa Mendonça, da Rede Social de justiça e Direitos Humanos. “O tipo de diálogo que tivemos com Chávez foi inédito, não só pelo aspecto formal, e também foi importante porque nasceu daí a Cúpula dos Povos, que aconteceu em Cochabamba, na Bolívia, no ano passado”, relembra.

A presença de Chávez no evento foi fundamental também para os movimentos sociais discutirem um tema sempre bastante presente nas edições do FSM: a relação com o poder político instituído. “A pauta dos movimentos sociais é extremamente importante ‘para construir instrumentos de controle social sobre as políticas públicas”, acredita Arthur Henrique dos Santos, presidente da Central Única dos ‘Trabalhadores (CUT). “Temos ‘no Fórum Social Mundial possibilidades de pressionar os governos e garantir instrumentos de participação efetiva), como orçamento participativo democracia direta, plebiscito, referendo sobre aquilo que interessa ao conjunto dos movimentos sociais”, sustenta.

“É bom politizar os debates dentro do Fórum”, aponta MichaeI L5wy, pesquisador do Conselho Nacional de Pesquisa Científica da França (CNRS). “Em Caracas, o debate já foi muito politizado, discutiu-se o que fazemos com esses governos. Mas é necessária uma discussão não para se tirar urna linha, uma resolução, mas sim para ver o que pode sair do debate”,sugere. Para o sociólogo, o Fórum tem que se estender vertical e horizontalmente, e se—enraizar mais profundamente nas sociedades onde está e integrar movimentos sociais de países que ainda não estão no processo do FSM. “Chegar mesmo à população, aos movimentos sociais, à base”, ressalta.

Graças ao Fórum, um país que viu seus movimentos sociais se fortalecerem, por incrível que possa parecer, foram os Estados Unidos. Michael Guerrero, coordenador da rede norte-americana Grassroots Global Justice (Justiça Global Popular), aliança de 42 organizações que atuam com movimentos de base nos EUA, falou à Agência Ibase durante o Fórum de Caracas que “com a participação no FSM temos tido a oportunidade de levar a experiência de como construir redes e fortalecer movimentos sociais para os Estados Unidos”, Guerrero se mostra otimista com a realização do Fórum Social dos EUA, em agosto, e também diz que a prioridade é ampliar o arco de alianças dos movimentos locais. “Nos envolvemos especialmente com a Convergência de Movimentos Populares da América e com grupos de toda a América Latina. Queremos organizar campanhas em conjunto e participar do processo continental contra a Alca”, declarou.

“Grandes regiões e até continentes inteiros ainda estão um pouco marginalizado A Çhina, por exemplo, está fora. Não falo do governo, mas sim dos movimentos sociais, dos intelectuais chineses. E um de safo para o Fórum trazê-los”, defende. Mesmo assim, Guerrero admite as dificuldades para se realizar, por exemplo, um evento do porte do FSM na China. “O problema é articular isso. Há muitos desafios em termos de extensão. Na Índia foi um grande problema, porque o pessoal lá estava dividido, os vários grupos de esquerda, os camponeses, não se falavam. Mas como tiveram que organizar o Fórum, foram obrigados a conversar e descobriram que, apesar dos desacordos, conseguiam trabalhar juntos. Por outro lado, infelizmente, isso não foi possível na África do Sul”, exemplifica.

Embora haja sempre dificuldades para promover a integração em locais onde os movimentos sociais não estão acostumados a trabalhar juntos, esse é outro beneficio que um evento como o FSM deixa. “Na América Latina, temos diversos mecanismos de articulação, mas nos lugares onde isso é um processo novo, o papel do Fórum é fundamental”, comenta Maria Luisa Mendonça. Ela também relembra a edição indiana: “Na Índia, por exemplo, existem movimentos de massa numerosos, mas eram muito fragmentados. O Fórum contribuiu para que houvesse maior unidade entre eles”.
Agora, o mesmo pode acontecer em Nairóbi, no Quênia, com movimentos sociais de diversas partes da África discutindo suas questões e unindo esforços para a resolução de problemas que vão além das diferenças políticas. “O FSM é a melhor articulação dos movimentos progressistas no mundo, pois não tem enquadramento ideológico nem partidário”, sustenta Frei Betto, participante de três edições do Fórum Social Mundial. Para ele, “resta aos movimentos estabelecerem, em seus respectivos países; suas estratégias de lutas”. No mundo todo, os movimentos sociais estão trabalhando para isso.

Articulações em todos os níveis A mobilização gerada pelo Fórum resulta em articulações em nível nacional, continental e até mesmo planetário, no sentido de unificar bandeiras que muitas vezes são comuns aos movimentos de diferentes partes. “A Via Campesina investiu no processo do FSM uma enorme quantidade de trabalho e mobilizou camponeses de todo o mundo”, relembra Paul Nicholson, dirigente da Via Cmpesina no País Basco. “Para o nosso movimento, o Fórum tem que ser a conjunção da luta de todos os movimentos sociais. Porque, no final, o resultado da luta anti-neoliberal é justamente a conseqüência dessas lutas”, aponta.

Para Michael Löwy, é por meio do Fórum que se, consolidam articulações setoriais muito importantes e, de acordo com sua visão, o movimento camponês é justamente um dos que mais se fortaleceram. “O movimento da Via Campesina é um pouco anterior ao processo co FSM, mas o Fórum foi um dos veículos que lhe permitiram se constituir como movimento camponês mundial”, destsca. “Antigamente, ‘havia aquilo dos militantes da esquerda e dos países do Norte serem solidários com os do Sul, algo como ‘vamos ajudar esses pobres diabos que estão ali lutando’. Hoje em dia, não é mais isso, é gente que está em pé de igualdade lutando pelos mesmos objetivos”, garante. “A Confederação Camponesa na França, o MS1 o pessoal da Índia estão lutando contra os mesmo adversários, que são a Monsanto, as multinacionais. Isso dá uma outra qualidade à solidariedade internacional, substituindo aquela de cunho paternalista”, completa.

Se a articulação entre organizações com metas afins produziu estratégias de luta unificadas, a convivência de entidades que, atuam em questões distintas também rendeu interessantes trabalhos inter-setoriais. Para Arthur Henrique, o FSM é importante para o sindicalismo brasileiro não só pela troca de experiências com entidades sindicais de outros países, mas também pelo contato com organizações .que trabalham em áreas diferentes. “E uma oportunidade que temos para conversar com estudantes, movimentos de mulheres, ambientalistas e outros movimentos interessados no debate de idéias”, argumenta.

O presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de Osasco e Região e membro do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, Jorge Nazareno, ressalta que o debate no campo sindical não se esgota no evento. “O FSM cria uma interlocução que vai além dele mesmo, a gente continua tendo vários contatos após a sua realização e isso vale não apenas para o movimento sindical. O Fórum não fica, como alguns querem fazer crer, em uma coisa festiva de três, quatro dias. Ele soma e traz ganhos para todos”, argumenta.

Miriam Nobre, da Marcha Mundial das Mulheres, esclarece que o trabalho em aliança é fundamental para os movimentos sociais. “E interessante firmarmos agendas comuns, como foi o caso nas lutas dos movimentos contra a OMC. Essa é a parte importante do trabalho em conjunto, já que possibilita um processo de aliança”, explica. “Nós da Marcha não concordamos em incluir as mulheres nesse mundo tal como está. É preciso modificá-lo. Por isso, dizemos: ‘para mudar a vida das mulheres e para mudar o mundo’.” Ela cita como exemplo de ação articulada o Fórum de Soberania Alimentar, promovido pela Marcha, juntamente com a Via Campesina, os Amigos da Terra e outras entidades. “Essa é Uma ação conjunta com outros movimentos e como resultado temos uma agenda de alternativas que envolvem várias questões, alternativas amplas e ações coletivas”, completa.



No artigo

x