O problema está na cidade

Fórum – O FSM está completando 10 anos. Qual a sua avaliação sobre esse processo, desde o começo até aqui, especificamente na questão da terra, do campo, o que evoluiu nesse período? João Pedro...

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Fórum – O FSM está completando 10 anos. Qual a sua avaliação sobre esse processo, desde o começo até aqui, especificamente na questão da terra, do campo, o que evoluiu nesse período?

João Pedro Stédile – Por incrível que pareça, como eu disse na avaliação geral, nos últimos 10 anos a correlação de forças mudou por causa da crise e o Fórum contribuiu para derrubar o projeto ideológico do neoliberalismo e nisso nós somos vitoriosos. Ninguém tem coragem de apresentar o neoliberalismo como solução hoje. Mas no campo da agricultura, nos últimos 10 anos ainda continuou uma ofensiva do capital estrangeiro sobre a agricultura brasileira e de todo o mundo. O balanço é muito prejudicial, porque as transnacionais, insufladas pelo capital financeiro que é abundante no mundo, aumentaram a velocidade de controle dos recursos naturais, das sementes, da água, da produção agrícola e do comércio mundial. Estamos vivendo uma correlação de forças na agricultura ainda muito prejudicial. Por outro lado, evidentemente que os camponeses de todo o mundo aumentaram as suas articulações nacionais e internacionais para enfrentar esse domínio das empresas transnacionais sobre os recursos naturais. Então, tenho visto e me alegro que o professor Paul Singer tenha comentado que, em todas essas lutas internacionais a presença camponesa é cada vez mais forte, na defesa das sementes, do clima, do meio ambiente, como aconteceu agora em Copenhague. E nos alegrou também que o Evo Morales, que foi participante da Via Campesina e agora é presidente da Bolívia, tenha conseguido captar todo esse processo e agora está liderando essa proposta à qual a Via Campesina se soma, de realizarmos no segundo semestre deste ano um plebiscito mundial para que a população se manifeste sobre quem é o responsável pelas mudanças climáticas, o que fazer para preservar os recursos naturais da terra, sobre as bases militares que há no mundo e a necessidade de nós mudarmos o padrão de consumo nas cidades.

Fórum – Com o fracasso da COP-15 e uma participação mais ativa de ONGs e movimentos sociais, isso evidencia que é possível haver um protagonismo, daqui em diante, dos movimentos camponeses na questão ambiental também?

João Pedro Stédile – Os movimentos camponeses e a Via Campesina não gostam de usar essa expressão “protagonismo” porque fica parecendo que nós queremos vanguardizar. A nossa preocupação é que o tema seja incorporado pela população das cidades, porque o problema está na cidade e a população urbana é que tem que se conscientizar.

Por exemplo, o Brasil se transformou, por obra das transnacionais, no maior consumidor mundial de agrotóxicos, 700 milhões de litros são consumidos por ano. Para onde vai esse veneno? Parte afeta a fertilidade do solo, contamina as águas e afeta todos; outra parte vai para os alimentos, que afeta o consumidor, que lá no futuro pode ter câncer e outras doenças em consequência disso. Nesse caso, se a população das cidades não responder, não vai ser o camponês que vai fazê-lo porque quem aplica o veneno não é o camponês, é a grande propriedade do agronegócio.

A mesma coisa em relação ao carbono. Todo mundo sabe que um dos principais fatores que implicam o aumento do aquecimento global é o uso do automóvel. Quem tem que reagir é o povo da cidade, porque lá no interior é outra coisa. O mesmo vale para o tema do segundo vilão do meio ambiente aqui no Brasil, que é a pecuária extensiva, que exala o butanol. Por que tem tanta pecuária extensiva, no caso de Mato Grosso do Sul, por exemplo, que tem um rebanho de 20 milhões de cabeças para uma população de 4 milhões de pessoas? São cinco bois por pessoa, não precisa tanto boi. Mas como se barra isso? Só se a população da cidade se conscientizar.

Fórum – Isso está relacionado ao modelo de desenvolvimento, não? O senhor vê perspectiva de alguma candidatura presidencial que tenha essa preocupação com a mudança desse modelo?

Stédile – Como você disse, o problema é de modelo de desenvolvimento, não de candidatura. A Via Campesina vai produzir com outros movimentos sociais uma plataforma mínima que está relacionada com um novo modelo e vamos apresentar a todos os candidatos. Vamos fazer campanha para um modelo, não por nomes, embora individualmente os militantes sabem que o pior dos mundos seria uma vitória do [José] Serra, porque ele seria a recomposição do neoliberalismo. Nas conversas que eu tenho tido com a militância da Via Campesina e dos movimentos em geral há um sentimento anti-Serra. Todo mundo vai arregaçar as mangas para não votar nele e, ao mesmo tempo, debater com os outros candidatos uma plataforma para um outro modelo de desenvolvimento. De novo volto àquele ponto: se a sociedade não participar e não se conscientizar, não adianta eleger a Dilma, ou o Lula de novo, porque isso não resolve os problemas.

Essa matéria é parte integrante da edição impressa da Fórum 83. Nas bancas.



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