O que Obama não diz sobre o Afeganistão

O presidente dos EUA põe-se em posição precaríssima ao conclamar à escalada, na guerra do Afeganistão. Por mais que, para alguns, essa seja “a boa guerra”, a opinião pública nos EUA e no Afeganistão...

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O presidente dos EUA põe-se em posição precaríssima ao conclamar à escalada, na guerra do Afeganistão. Por mais que, para alguns, essa seja “a boa guerra”, a opinião pública nos EUA e no Afeganistão já começa a dar sinais, no mínimo, de confusão.

Há boa razão para desconfiar de que o limitado apoio que a guerra ainda encontra rapidamente se evaporará, tão logo aumente o número de mortos dos dois lados e as forças de segurança do Afeganistão deteriorem-se ainda mais.

Problema importante que surge sempre que se quer avaliar a guerra é a tremenda falta de informação confiável sobre as razões pelas quais tantos norte-americanos opõem-se à guerra.

Especialistas têm observado uma tendência, nas empresas de pesquisa, para “construir socialmente” a opinião pública, mediante o recurso de nunca propor perguntas sobre os desafios morais que se impõem à política exterior dos EUA.

Benjamin Ginsberg argumenta em The Captive Public que “as pesquisas em geral levantam questões que interessam aos clientes e compradores de dados de pesquisa – empresas jornalísticas, candidatos, agências governamentais e corporações comerciais (…).

Perguntas que não têm qualquer importância imediata para os governos, as empresas ou os candidatos jamais aparecem nas pesquisas. Isso é pa rticularmente verdade em relação a questões como a validade do sistema capitalista ou a legitimidade da autoridade governamental, questões que empresários, candidatos e governos preferem jamais propor; nunca, de fato, em pesquisas que sejam pagas por empresários, candidatos ou governos.”

No caso do Afeganistão, as pesquisas perguntam se a guerra “é guerra que vale a pena combater” – “considerando os custos” – e se os EUA estariam “vencendo ou perdendo a guerra”. As pesquisas perguntam aos norte-americanos se “o esforço militar vai bem? Ou vai mal?” De fato, só interessa saber se os norte-americanos ainda creem que ainda seja possível vencer aquela guerra.

Os pesquisadores perguntam aos respondentes se o apoio à guerra está aumentando ou diminuindo. Mas não investigam o que as pessoas pensam sobre o número de mortes entre os afegãos causados por bombas norte-americanas; ou sobre se os bombardeios são meios legítimos para promover valores humanos; ou sobre se os cidadãos apoiarão o fim da guerra se for exigido pelo povo afegão.

É preciso propor muitas outras questões, para determinar se os americanos aceitariam mudanças fundamentais nas políticas dos EUA – mas nenhuma dessas questões aponta para direções que interessem aos pesquisadores explorar.

Os norte-americanos estão muito ansiosos com a escalada no Afeganistão. Em agosto de 2009, pesquisa da ABC-Washington Post descobriu que 51% dos norte-americanos entendem que “não vale a pena guerrear no Afeganistão”.

A mesma pesquisa descobriu também que apenas 24% dos norte-americanos apóiam o envio de mais soldados; 45% apóiam uma diminuição no número de soldados; e 32% apóiam a situação como está hoje. Pesquisa feita em julho pela CNN mostrou que 41% aprovam a continuação da guerra do Afeganistão, contra 54% que se opõem.

Os norte-americanos desconfiam cada vez mais de promessas de usar guerras como instrumento para. Veem a confiança que os EUA sempre demonstram no recurso à violência como contraproducente e perigosa.

Pesquisa do grupo Pew, de fevereiro de 2009 mostrou que 50% dos norte-americanos entendem que reduzir o número de soldados no exterior é fator que contribuirá para “reduzir o terrorismo” (apenas 31% apoiam um aumento no número de soldados na luta anti-terrorismo).

Essa oposição aumentou significativamente depois de 2002 – imediatamente depois dos ataques de 11 de setembro –, quando apenas 29% dos norte-americanos apoiavam a redução do número de soldados empenhados no combate ao terror.

Nenhum desses resultados deve ser interpretado como indicação de que os norte-americanos opõem-se à violência.

O apoio à escalada no Afeganistão ainda é alto; as posições favoráveis à guerra são mais freqüentes entre homens brancos Republicanos e conservadores, e entre os mais idosos e de escolaridade mais baixa.

O Instituto Pew também descobriu que, em julho de 2009, seis de cada 10 norte-americanos são favoráveis à criação de “um programa da CIA exclusivamente para assassinar líderes da al-Qaida.”

Os que apoiam a escalada em Washington serão encorajados pela evidência de que muitos afegãos apóiam a presença dos EUA; mas aí está um resultado de pesquisa que exige interpretação cuidadosa.

É verdade que, segundo pesquisa da BBC, de fevereiro de 2009, cerca de sete em cada dez afegãos estão satisfeitos por os EUA terem derrubado o governo dos talibãs em 2001; e mais de seis em cada dez apóiam a presença de soldados dos EUA no Afeganistão.

À primeira vista, são dados que parecem harmonizar-se com a escalada de Obama no Afeganistão. Obama prometeu “destruir, desmantelar e derrotar a al-Qaida e seus aliados extremistas” inclusive os talibãs.

Esses objetivos são compatíveis com os desejos dos afegãos? A verdade é que não há qualquer evidência de que os afegãos desejem que os EUA combatam os fundamentalistas islâmicos.

Os afegãos querem que os EUA permaneçam no país – não para bombardear “insurgentes” – mas para reconstruir o país. Segundo pesquisa da BBC, em fevereiro, apenas 33% dos afegãos creem que os governos de EUA e do Afeganistão conseguirão algum dia destruir a al-Qaida e os talibãs.

A maioria deles esperam que se configurem cenários alternativos; o cenário mais provável para a maioria dos afegãos será um dos seguintes: 1. os talibãs sairão vitoriosos do confronto; a luta não terá vencedores; ou 3. o governo afegão negociará um acordo com os talibãs. Seja qual for a solução, a maioria não aceita a versão norte-americana da história, na qual toda a vitória será de Obama e toda a derrota será da al-Qaida e dos talibãs.

A maioria dos afegãos opõem-se veementemente à violência do exército dos EUA. Para 77% dos afegãos, essa violência é “inaceitável”; como é inaceitável que os EUA usem seus “ataques aéreos” para derrotar os talibãs e outros combatentes anti-governo” – sobretudo porque esses ataques “são grave ameaça à vida de muitos civis inocentes”.

A maioria dos afegãos tende a culpar os EUA pelo alto número de civis mortos (e a maioria não considera que a culpa caiba às “forças de oposição ao governo” que vivem “misturadas às populações civis”.
A oposição afegã à ocupação tende a aumentar, se houver a escalada que Obama planeja, porque todos esperam mais construções e menos bombardeios. Cerca de 65% dos afegãos ainda não sofreram bombardeios pelos jatos dos EUA, da Otan ou das Forças Internacionais de Segurança.

Se a violência dos ataques dos EUA disseminar-se e alcançar regiões que ainda não foram atacadas, o mais provável é que aumente a oposição pelos afegãos, à presença dos soldados norte-americanos.

Os comandantes norte-americanos não se mostram particularmente interessados em reconstruir o Afeganistão. Por outro lado, o povo afegão só vê aumentarem seus problemas econômicos – pobreza, desemprego –, que os preocupam mais do que quaisquer questões “de segurança” sobre as quais os generais e políticos norte-americanos tanto falam.

Segundo pesquisa feita pela BBC, sete de cada dez afegãos consideram “muito difícil” ou “difícil” a situação de falta de oportunidades econômicas e de empregos. Para a maioria, as condições da infra-estrutura viária do país – estradas e pontes – além do suprimento de energia elétrica são também “muito difíceis” e “difíceis”. Muitos admitem dificuldades para atender às necessidades mínimas de sobrevivência das famílias.

Por que, afinal, surpreender-se por os afegãos não aceitarem com gratidão, as condições de ocupação violenta que lhes são impostas? Que surpresa há, se as pessoas ressintam-se pela falta de emprego e por ver seu país destruído – os parentes e os amigos mortos – em nome do “progresso”, do “combate contra o terror” e da “democracia”?

Como escreveu o jornalista britânico Patrick Cockburn: “No Afeganistão, os exércitos norte-americanos e britânicos intrometeram-se em guerras civis que a simples presença de estrangeiros exacerbaram e tornaram mais inextrincáveis. Os governos dos EUA e do Reino Único persistentemente ignoraram o quanto a ocupação militar desestabilizou o Afeganistão (…). Potências ocupantes só muito raramente foram bem acolhidas, em toda a história. Forças de ocupação são regidas, primeiro, pelos seus próprios interesses econômicos, políticos, militares; muito mais, sempre, do que pelos interesses dos governos aliados que a ocupação apóia ou espera-se que apóie. Isso roubou legitimidade ao governo de Cabul e permitiu que seus opositores aparecessem como oposição patriótica. Além disso, exércitos estrangeiros, sejam quais forem suas intenções declaradas, sempre se impõem pela violência – o que invariavelmente cria atritos com as populações locais.”

Faríamos muito bem se levássemos muito a sério as observações e intuições de Cockburn, sempre que se considere, nos EUA, a expansão da guerra do Afeganistão.

*Anthony DiMaggio é professor de Política Norte-americana e Global, na Illinois State University. É autor de Mass Media, Mass Propaganda (2008) e de When Media Goes to War (no prelo). Recebe e-mails em adimagg@ilstu.edu. Original em http://www.counterpunch.org/dimaggio08312009.html, publicado no Vermelho.



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2 comments

  1. Artur

    É uma pena Obama insistir nisso!! deveria tirar essa tropas de lá! estão matando milhares de civis!!! Obama fez muito bem em tomar a rédia de conciliação entre Palestinos e Israelenses e de retirar as tropas do Iraque!! porque não tira do Afeganistão!! só por causa do dito terrorismo fantasioso isso tá cheirando influência das industrias bélicas americanas que querem lucrar com esses conflitos e gerar muitos empregos aos americanos, porque esse setor infelizmente é o que mais gera empregos nos Estados Unidos!!!

  2. Artur

    É uma pena Obama insistir nisso!! deveria tirar essa tropas de lá! estão matando milhares de civis!!! Obama fez muito bem em tomar a rédia de conciliação entre Palestinos e Israelenses e de retirar as tropas do Iraque!! porque não tira do Afeganistão!! só por causa do dito terrorismo fantasioso isso tá cheirando influência das industrias bélicas americanas que querem lucrar com esses conflitos e gerar muitos empregos aos americanos, porque esse setor infelizmente é o que mais gera empregos nos Estados Unidos!!!

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