O sistema de saúde dos EUA e Jack Bauer

Imaginemos o seguinte cenário. Estados Unidos, 2009. Dezoito mil pessoas morreram num ano, uma média de quase 50 por dia. Quem está os eliminando? O que é que os mata? Para investigar o caso, o presidente...

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Imaginemos o seguinte cenário. Estados Unidos, 2009. Dezoito mil pessoas morreram num ano, uma média de quase 50 por dia. Quem está os eliminando? O que é que os mata?

Para investigar o caso, o presidente Barack Obama poderia ver-se tentado a chamar Jack Bauer, o agente secreto sem escrúpulos da famosa série televisiva 24 horas,que emprega sempre a tortura e uma série de outras táticas ilegais para ajudar o presidente a combater o terrorismo. Mas neste caso não é o terrorismo o culpado.
É a falta de assistência médica adequada. Então, quiçá a solução do presidente não seja Jack Bauer, mas o ator que interpreta esse papel.

O protagonista de 24 Horas é representado por Kiefer Sutherland, cuja família tem conexões muito fortes com a reforma do sistema de assistência médica no Canadá. Sutherland é neto do falecido Tommy Douglas, o político canadense pioneiro a quem se atribui a criação do moderno sistema de assistência de saúde canadense. Na sua juventude, Tommy Douglas perdeu quase uma perna. A sua família não podia pagar o tratamento, mas um médico atendeu-o gratuitamente, com a condição de que os seus estudantes pudessem observar. Em adulto, Douglas viu o impacto da pobreza generalizada provocada pela Grande Depressão. Formado como pastor da igreja, tinha um estilo de oratória popular.

Ingressou na política e fez parte do partido da Federação Cooperativa do Commonwealth. Depois de vários anos no Parlamento, liderou a decisiva vitória de seu partido na província de Saskatchewan, o que o levou ao poder no primeiro governo social-democrata da América do Norte.

Douglas tornou-se governador de Saskatchewan e, aí, foi pioneiro na implementação de políticas progressistas, inclusive na expansão dos serviços públicos, na sindicalização e no seguro público dos automóveis. Mas a maior batalha de Douglas, pela qual é mais lembrado, foi a criação de um seguro de saúde público universal, denominado Medicare, que foi aprovado em Saskatchewan em 1962 e garantiu assistência médica para todos os habitantes. Os médicos da província fizeram uma greve que durou 23 dias e que contou com o apoio da Associação de Médicos dos Estados Unidos. Apesar da oposição da indústria, o programa Medicare de Saskatchewan teve tanto êxito e foi tão popular que foi adotado em todo o Canadá.

Enquanto Tommy Douglas lutava pelo sistema de saúde no Canadá, uma batalha similar decorria nos Estados Unidos. Essa batalha teve como consequência a aprovação dos programas Medicare e Medicaid, que garantiram a cobertura médica aos cidadãos de terceira idade e aos pobres, através de um sistema de pagador cívico.

Rush Limbaugh, Glenn Beck da Fox News e grupos financiados pela indústria dos seguros estão incentivando as pessoas a interromper as reuniões com membros do Congresso nas sedes dos governos locais. Alguns dos confrontos foram violentos, ou pelo menos ameaçadores. Tirando um evento encabeçado pelo presidente Obama em Portsmouth, New Hampshire, um manifestante com uma pistola atada à perna chamou a atenção com um cartaz que dizia "é a hora de regar a árvore da Liberdade". A citação completa de Thomas Jefferson, que não estava incluída no cartaz, diz o seguinte "com o sangue dos tiranos e dos patriotas".

Rush Limbaugh diz que 24 Horas é um de seus programas preferidos. Até visitou o set de filmagem. Rush deveria aprender com o ator que representa o seu herói, Jack Bauer. Limbaugh e seu séquito podem descobrir que a verdade não é tão satisfatória como a ficção.

Em 2004, um inquérito realizado pela Canadian Broadcasting Corporation nomeou Tommy Douglas como sendo o "Maior Canadense" de todos os tempos. Em 2000, numa manifestação contra os esforços para rejeitar o sistema de Medicare na província de Alberta, Kiefer Sutherland defendeu o sistema político de pagador cívico do Canadá: "O sistema de assistência médica privado não funciona. Os Estados Unidos estão tentantdo mudar o seu sistema. É demasiado caro conseguir assistência médica total nos Estados Unidos. Por que razão vamos adotar o seu sistema aqui? Considero que é um tema humanitário. Este é um tema sobre o que está bem e o que está mal, o que é decente e o que não é."

Quiçá Jack Bauer possa ser nossa salvação.

Denis Moynihan colaborou na produção jornalística desta coluna.
Tradução de Ana da Palma para o
Esquerda.net.

Amy Goodman é apresentadora de "Democracy Now!", um noticiário internacional diário de uma hora que emite em mais de 550 emissoras de rádio e televisão em inglês e em 200 emissoras em espanhol. É co-autora do livro Standing Up to the Madness: Ordinary Heroes in Extraordinary Times.



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2 comments

  1. Waldemar José Sá de Azevedo

    É lá e aqui a os ataques contra o sistema publico de saúde, que garante a súde como direito, no Brasil este anos de SUS todos os nossos indicadores melhoraram, motrtalidade infantil, pessoas imunizadas, inclusive obtivemos melhoria da qualidade de varios alimentos e medicamentos. É falso quando alguns dizem que não utilizam o SUS, quem avalia nossa água, serviços é a Vigilância Sanitária que do SUS.

  2. Waldemar José

    É lá e aqui a os ataques contra o sistema publico de saúde, que garante a súde como direito, no Brasil este anos de SUS todos os nossos indicadores melhoraram, motrtalidade infantil, pessoas imunizadas, inclusive obtivemos melhoria da qualidade de varios alimentos e medicamentos. É falso quando alguns dizem que não utilizam o SUS, quem avalia nossa água, serviços é a Vigilância Sanitária que do SUS.

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