Obama alimenta expectativas de aproximação entre EUA e América Latina

Rio de Janeiro, 20/01/2009 – Relações de maior cooperação com os Estados Unidos sob a presidência de Barack Obama podem ampliar no futuro o peso internacional do Brasil, afirmam especialistas. No imediato, espera-se uma...

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Rio de Janeiro, 20/01/2009 – Relações de maior cooperação com os Estados Unidos sob a presidência de Barack Obama podem ampliar no futuro o peso internacional do Brasil, afirmam especialistas. No imediato, espera-se uma mudança na posição de Washington a respeito da mudança climática e de Cuba. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva defendeu em seu programa de rádio semanal desta segunda-feira o fim do bloqueio norte-americano contra Cuba. Seria o primeiro sinal de uma mudança na política da potência do Norte em relação à América Latina, que foi “equivocada durante muito tempo”, afirmou.

O diplomata João Clemente Baena Soares, ex-secretário-geral da Organização de Estados Americanos, afirmou à IPS que acabar com a exclusão de Cuba do sistema interamericano é “um desejo de toda a América Latina”. Uma política positiva para esta região por Obama, do Partido Democrata, “começaria pela suspensão do embargo”, afirmou. O Brasil se beneficiaria, “não pelo que Obama pode fazer pelo Brasil, mas pelo futuro da humanidade, se adotar uma agenda do século XXI, ao contrário de seu antecessor que tinha uma agenda do século XIX”, disse, por sua vez, o senador Cristovam Buarque, ex-ministro da Educação e membro da Comissão de Relações Exteriores do Senado.

O tema ambiental, por exemplo, terá de ser “parte de seu projeto econômico e civilizatório”, e não objeto de medidas isoladas, disse Buarque à IPS ao indicar as expectativas do Brasil e da região diante do início, hoje, do novo governo dos Estados Unidos, que substituirá o de George W. Bush, do Partido Republicano. Além disso, a nova administração terá de “enfrentar a pobreza, não como falta de riqueza, mas como produto da exclusão social” e “respeitar a diversidade do mundo, em um compromisso com a paz”, acrescentou. O Brasil teria benefícios indiretos com essas políticas, tal como toda a humanidade. Poderia, por exemplo, ampliar suas exportações de etanol para os Estados Unidos, não por uma abertura ao produto brasileiro, mas por uma agenda a favor da energia renovável e menos danosa para o clima da Terra.

”Vejo com muito otimismo” a atitude de Obama quanto à questão climática, considerando a nomeação para o cargo de secretario de Energia de Steven Chu, ganhador em 1997 do prêmio Nobel de Física, e de outras personalidades de conhecida preocupação ambiental em outros cargos, comentou Fabio Feldmann, secretário-executivo do Fórum de Mudança Climática e Biodiversidade do Estado de São Paulo. Uma mudança positiva na posição de Washington favoreceria uma “importante aliança” com o Brasil nas decisivas negociações de um novo acordo mundial sobre mudança climática, que acontecerá em dezembro na conferência de Copenhague, disse Feldmann à IPS.

Nos meios diplomáticos brasileiros espera-se uma nova política externa dos Estados Unidos que, embora não gere resultados imediatos, permita promover a posição internacional do Brasil, com ator relevante em temas cruciais multilaterais. “Uma relação respeitosa e cooperativa, que não ignore a importância do Brasil”, é a expectativa de Baena Soares. Deve haver mudanças também nas relações bilaterais, após as grandes diferenças durante a gestão Bush em temas ambientais, com a invasão do Iraque pelos Estados Unidos, em negociações comerciais e biocombustíveis, recordou. As expectativas são muitas, mas é preciso esperar as ações concretas de Obama a partir de hoje, ressaltou o diplomata que na década de 80 foi vice-chanceler brasileiro.

No plano do comércio, historicamente os democratas como Obama foram mais protecionistas do que os republicanos, costumam recordar no Brasil. Mas, “em tempos de crise”, com a atual, isso pode mudar, porque a ênfase é evitar o desemprego, e o comércio internacional pode ajudar nisso, disse Baena Soares. A tendência é valorizar o papel do Brasil, reconhecendo sua liderança latino-americana, afirmou Feldmann, que foi deputado na Assembléia Nacional Constituinte de 1988 e reeleito duas vezes nos anos 90. Ele também espera que haja uma distensão nas relações de Washington com governos considerados esquerdistas, com os da Bolívia e Venezuela.

Sobre Cuba, concorda que o bloqueio já não se justifica e seu fim mudaria o cenário na América Latina e no Caribe. Mas, levantar o embargo econômico decretado pelos Estados Unidos em 1962 e revogar as leis que o aprofundaram na década passada é uma competência do Congresso, cuja aprovação Obama não poderá obter no curto prazo, segundo Moniz Bandeira, autor de vários livres sobre a história das relações entre esse país e a América Latina. O que poderá fazer a partir desta terça-feira é anular medidas mais recentes de seu antecessor e permitir as visitas a Cuba, além de autorizar maiores transferências de dinheiro dos exilados cubanos nos Estados Unidos para suas famílias que ficaram na ilha, acrescentou.

De todo modo, o presidente Lula espera “um sinal” de Obama de boa vontade em relação a Cuba, indicando melhorias nas relações continentais. A Cúpula da América Latina e do Caribe, promovida pro Lula há um mês na Bahia, aprovou uma declaração pelo fim do bloqueio a Cuba, além de incorporar esse país ao principal fórum político regional, o Grupo do Rio, em clara rejeição às políticas anti-cubanas de Washington.

(IPS/Envolverde)



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