ONU debate como enfrentar a crise

A economia norte-americana e as européias caíram na recessão, os bancos comerciais e de investimento estão em colapso, aumenta o desemprego, o público reduz o consumo, os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio estabelecidos pela...

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A economia norte-americana e as européias caíram na recessão, os bancos comerciais e de investimento estão em colapso, aumenta o desemprego, o público reduz o consumo, os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio estabelecidos pela ONU se vêem ameaçados e a Islândia está praticamente na bancarrota.

Ainda existe esperança para os 1,4 bilhão de pessoas que vivem com menos de US$ 1,25 por dia em alguns dos países mais pobres do mundo? A atual crise tem ligação com a falta de transparência dos mercados financeiros, afirmou a ministra de Cooperação Econômica da Alemanha, Heidemarie Wieczorek-Zeul, que, junto com o ministro das Finanças da África do Sul, Trevor Manuel, são enviados especiais sobre financiamento para o desenvolvimento do secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon.

“Devemos evitar que nossos esforços em matéria de desenvolvimento sejam levados pela onda dos mercados financeiros”, disse Heidemarie, entrevistada pela IPS. Acrescentou que a conferência de Doha, de 29 deste mês a 2 de dezembro, reforçará a confiança nas associações lançadas durante a primeira reunião deste tipo, feita em março de 2000 na cidade mexicana de Monterrey. Além disso, reclamou um “novo tratamento” global para enfrentar a pobreza, a fome e a mudança climática.

IPS – Devido à crise financeira que se estende por Estados Unidos, Japão e Europa ocidental, em sua maioria países doadores, a senhora acredita que a conferência sobre financiamento para o desenvolvimento será um êxito ou acontecerá em um momento ruim?

Heidemarie Wieczorek-Zeul – Nossa única opção é que seja um êxito. O mundo deve reafirmar os compromissos assumidos em Monterrey para combater a pobreza e deve enfrentar os novos desafios criados pelas crises alimentar, energética e financeira, sem esquecer a mudança climática. A crise financeira não se detém na fronteira dos países ricos e as nações em desenvolvimento recebem um impacto igualmente severo. Os mais pobres são os que sofrerão mais, pois não contam com economias ou redes de seguro social. Simplesmente perderão as bases de sua existência.

Em conseqüência, devemos encontrar soluções globais que incorporem todos os países de diferentes níveis de desenvolvimento. As recentes declarações do presidente da França, Nicolas Sarkozy, e da primeira-ministra alemã, Angela Merkel, indicam claramente que não esqueçamos os países em desenvolvimento. Creio que a crise oferece um grande potencial para que a conferência chegue a um acordo sobre um “novo tratado” global. Se o mundo pode mobilizar centenas de milhões de dólares para salvar os bancos, também pode dedicar recursos para combater a pobreza, a fome e a mudança climática. É uma questão de vontade política.

IPS – Como a senhora mede o êxito da conferência? Pelo aumento na ajuda para o desenvolvimento, pela adoção de novos compromissos, ou na identificação de novas e inovadoras fontes de financiamento?

Heidemarie Wieczorek-Zeul – O êxito não pode ser medido apenas em números. A reunião de Monterrey, que constituiu um marco, o foi porque criamos um espírito de verdadeira associação global, reconhecendo que tanto os países ricos como as nações em desenvolvimento compartilham responsabilidades e que todos os sócios devem assumir compromissos. Especialmente à luz do presente acúmulo de crises, agora é tempo de renovar esse espírito de associação global.

A conferência de Doha nos dá a oportunidade de fazê-lo, mas, naturalmente, são necessárias medidas para gerar confiança. Os doadores devem reafirmar seus compromissos de ajuda para o desenvolvimento mesmo em tempos de dificuldades financeiras e mostrar que estamos a caminho de cumpri-los, por exemplo, incrementando os orçamentos e usando fontes inovadoras de financiamento. Também se deve estabelecer as bases para a mobilização de recursos nos países ricos. Criar sistemas impositivos eficientes oferece um grande potencial.

IPS – O que pensa do rascunho do documento que será examinado na conferência? Acredita que deve ser modificado devido à crise financeira? Tem confiança de que será afinado antes de terminar a reunião?

Heidemarie Wieczorek-Zeul – O rascunho é uma boa base. As diferentes partes estão propondo emendas que seguramente irão incorporar medidas concretas. Tenho plena confiança em que o texto será adaptado às circunstancias atuais e que inclusive ficará mais ambicioso. Pelo que se sabe, os parágrafos que fazem referência às finanças internacionais estão sob completa revisão e serão terminados no último momento, para poder incluir os acontecimentos mais recentes, algo que considero inteligente.

IPS – Esse rascunho faz um chamado para convocar uma conferência internacional que passe em revista a arquitetura financeira global e as estruturas de governo da economia. A senhora acredita que contará com o apoio de países doadores ocidentais, já que poderia implicar uma mudança no equilíbrio de poder no Fundo Monetário Internacional e no Banco Mundial?

Heidemarie Wieczorek-Zeul – Com a crise financeira experimentamos uma falha total do mercado. Os bancos de investimento perderam sua aposta e agora o mundo paga as conseqüências. Há atualmente muitas discussões sobre quando e onde os líderes mundiais se reunirão para discutir a crise que, obviamente, também tem um impacto no FMI e no Banco Mundial.

É claro que se deve repensar o sistema financeiro internacional. A filosofia do “deixar fazer”, que inspirou as políticas de livre mercado, fracassou e se deve decidir a adoção de novas regulamentações, além de garantir maior transparência no sistema financeiro. Entretanto, é preciso recordar que mesmo antes da crise o FMI havia reformado seu sistema de votação interno e que o Banco Mundial iniciou um processo semelhante que terminará em 2009. Ambos apontam para a concessão de maiôs voz aos países em desenvolvimento. (IPS/Envolverde)



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