Opinião: As reminiscências de um fotógrafo

No ensejo de (re)visitar meus numerosos álbuns de fotos, pude compreender o porquê do meu gosto tardio pela arte de retratar cenas, cenários e paisagens. Dos tempos de menino restou uma memória televisiva. Certamente,...

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No ensejo de (re)visitar meus numerosos álbuns de fotos, pude compreender o porquê do meu gosto tardio pela arte de retratar cenas, cenários e paisagens. Dos tempos de menino restou uma memória televisiva. Certamente, as recordações de tempos vividos têm um grande valor íntimo. Lembranças de família: saudades sofridas. Até os seis anos, vivi em minha querida São Luiz do Paraitinga (SP) (de 1924 a 1930). Depois, foram dez anos em Caçapava (SP) (de 1930 a 1939). E por mais de meio século em São Paulo, salvo dois anos em que morei e trabalhei em Porto Alegre (RS) (em 1959 e 1960).

Na memória televisiva de menino, nos tempos da inocência plena, sobrou uma seqüência espaçada de acontecimentos. Rústicas brincadeiras na beira da calçada. Na rua de chão de terra. Em seguida, as experiências dos jogos de peteca. E, ao fim das tardes, quando as mulheres sentavam-se na beira da calçada em intermináveis conversas, nós, silenciosos, acompanhávamos um pouco as fofocas do dia. Nossa tarefa era ouvir e tomar conhecimentos singelos sobre fatos corriqueiros da cidade. Conversas que representavam uma comunidade em trânsito.

Forço minhas memórias para saber como passei a gostar de fotografias. As primeiras fotos que vi na minha vida foram retratos de família, o meu primo Luís e eu, ainda bebês, em uma fotografia bizarra do ano de 1924. Algumas raras fotos de meus pais, feitas para figurar em quadros de parede. Mais tarde, em Caçapava, uma foto feita por um cuidadoso retratista profissional em que eu e meus queridos irmãos – Iucef e Lila – fomos cuidadosamente retratados, em 1931. Imagens perdidas ao longo de mudanças atabalhoadas. Mais tarde um pouco, uma foto do conjunto de meus colegas de classe, tomada no espaço do recreio do Grupo Escolar Rui Barbosa. Nenhuma foto, infelizmente, do tempo em que estudei em Taubaté (SP), somente memórias de fatos e conhecimentos dos dois anos e meio em que viajava de ônibus para assistir às aulas do curso secundário no Ginásio Estadual da cidade. E para findar essas lembranças, para muitos pouco importantes, as fotos tomadas sobre cada um dos formandos do Ginásio Estadual de Caçapava destinadas ao tradicional Álbum de Formatura, em 1939, às vésperas de minha vinda a São Paulo para fazer o vestibular de História e Geografia na memorável Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo, em fevereiro de 1940.

Quando procurei saber se havia tido sucesso nos exames vestibulares, nos quadros de notas afixado nas paredes do corredor do 3º andar da Escola Normal Caetano de Campos (Praça da República), fiquei eufórico pela nota tirada. Mas li uma carta de recomendação escrita de que a primeira aula seria uma excursão de campo a ser dirigida pelo mestre Pierre Monbeig. No pequeno adendo, nos pediam para vir com roupas adequadas para viagens. A excursão marcou para sempre meu gosto pela Geografia com base na leitura da paisagem. E como eu, infelizmente, não tinha uma máquina para fotografar os cenários das paisagens em trânsito, nos diversos pontos de observação, tive que aprender a fazer pequenos desenhos em meu caderno de notas sobre formas de relevo e o difícil mosaico do espaço agrário. Nessa excursão, percebi, pela primeira vez, a importância de ter uma boa câmera fotográfica.

Agora, há mais de 60 anos dessa memorável excursão de campo, ao folhear meus numerosos álbuns de fotos, vêm à memória as dificuldades que tive para obter uma câmera fotográfica, tão importante para a profissão a que me dediquei. Desde a primeira maquininha inútil ganha (nem cheguei a tirar fotos) de presente durante a adolescência, até hoje, época das máquinas digitais, aconteceu muita coisa comigo, uma história pessoal que não pode ser registrada no momento. O mais relevante a registrar diz respeito às importantes conseqüências das novas tecnologias que possibilitaram o surgimento das câmeras digitais. Para um geólogo, botânico ou jornalista, a nova geração de máquinas tem uma importância até então impensada. Agora, além do caderno de anotações, existe a necessidade de usar-se sistematicamente as máquinas digitais para o registro de excursões, viagens ocasionais, transectos paisagísticos visando ecossistemas naturais, agroecossistemas e centrografia urbana e suburbana com ênfase nos processos do metabolismo urbano, visualização de cidades das mais diferentes ordens de grandeza: metrópoles, capitais regionais, médias e pequenas cidades, aldeias e vilarejos. Importantes acréscimos aos registros fragmentados dos cadernos de notas pertencentes a diferentes profissionais. Além do que, registros de fatos do mundo real em diferentes tempos para se observar mudanças e estudos básicos para planificação.

É nesse sentido que estamos colocando algumas fotografias de tempos diferentes em uma exposição montada e organizada pelo Instituto da Cultura Árabe.

*Trecho editado de texto escrito especialmente para o catálogo da Exposição “Imagens e Paisagens do Mundo Árabe”

Aziz Ab´Sáber, Presidente de Honra do Instituto da Cultura Árabe; Professor Emérito da FFLCH-USP; Professor Honorário do Instituto de Estudos Brasileiros, IEB-USP.



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