Opinião: O que está na agenda nacional

Os atores políticos e econômicos estão ativos. Todos evidentemente defendem os seus interesses mais imediatos e estratégicos. O estado foi redescoberto com a crise do capital financeiro internacional, não apenas no Brasil, mas especialmente...

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Os atores políticos e econômicos estão ativos. Todos evidentemente defendem os seus interesses mais imediatos e estratégicos. O estado foi redescoberto com a crise do capital financeiro internacional, não apenas no Brasil, mas especialmente nos países centrais do sistema. Cada qual procura atuar de forma própria, a semelhança está em dois aspectos: a salvação e estabilização do capitalismo e a socialização dos prejuízos para toda a sociedade.

Aqui, fortunas do tesouro, BNDES, Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal, foram despejadas no agronegócio, na indústria automobilística, no sistema financeiro, no comércio de varejo, na importação e na exportação. A transferência de renda é astronômica. Os negócios aparentemente estão salvos, os grupos controladores vão manter seus privilégios e seus estoques de reserva, a maioria do povo vai pagar a conta com menos serviço público.

A voz uníssona para rebaixamento do custo do dinheiro não ecoa no Planalto Central. Quem manda no presidente do Banco Central não é o presidente da República, mas a Febraban e o capital especulativo internacional. O juro não baixa nem para a indústria, nem para o comércio e nem para o cidadão-consumidor porque acima dos 11% assegura ótimo lucro para os aplicadores do caixa dois. Boa parte da indústria e do comércio acumula na sonegação de impostos e compensa a crise com operações triangulares: envio ilegal para paraíso fiscal, repasse para corretoras internacionais e especulação no Brasil como se fosse capital estrangeiro – totalmente isento de impostos.

Está na agenda nacional dos interesses políticos e econômicos a devastação do cerrado, da caatinga, do Pantanal e da Amazônia, seja com a construção de hidrelétricas para fornecer energia às mineradoras que abastacem o mercado internacional com o subsolo brasileiro; o avanço da cana e das usinas de etanol nas cabeceiras dos rios que sustentam o Pantanal; a grilagem de terras na Amazônia legal para o plantio da soja e a produção de carne de exportação; os novos portos e estradas que vão permitir ao capital estrangeiro retirar do Brasil toda essa riqueza nos próximos 10, 20, 30 anos.

Nessa operação de rapina e destruição está a Medida Provisória 458, em tramitação no Congresso Nacional, que, sob o disfarce da regularização da posse da terra nos estados do norte, trata mesmo é de fornecer título de propriedade aos grandes grileiros que se apossaram das terras devolutas e das reservas naturais. Com essa MP, grandes grupos empresariais vão poder legalizar a ocupação ilegal da floresta amazônica – como faz o Grupo Opportunity, do banqueiro Daniel Dantos, no Estado do Pará.

O exemplo mais evidente disso está no mapeamento de satélite da região amazônica, onde os pontos mais críticos de derrubada da floresta estão diretamente relacionados com a ação de madeireiras estrangeiras e com grandes empresas de exportação de carne. O que mais cresce naquela região é a atuação dos grandes frigoríficos. O satélite indica, também, na confrontação com os registros do INCRA, que os municípios maiores produtores de soja em Mato Grosso, Goiás e Tocantins, são os municípios com as maiores áreas de terras devolutas da União. O governo brasileiro sabe de tudo isso, mas finge que essa ação predatória faz parte do agronegócio.

Está na agenda nacional a sucessão presidencial de 2010. Até agora o esquentamento das candidaturas principais – Dilma, Serra, Ciro, Aécio – nada mais é do que uma disputa de grupos, apenas visando o controle da máquina estatal, sem qualquer proposta diferenciada sobre o modelo econômico e o projeto de desenvolvimento do Brasil. Essas candidaturas colocadas na mídia nada mais representam do que a continuação do mesmo esquema de submissão aos piratas que roubam o povo brasileiro. Não há enfrentamento e nem confronto. Apenas conivência e cumplicidade.

Hamilton Octavio de Souza é jornalista e professor da PUC-SP.



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