Os legados e as contradições de meio século de Revolução Cubana

Contrariando muitos prognósticos, especialmente os elaborados pela mídia ocidental e seus analistas, a Revolução Cubana completa meio século de existência. Mesmo depois de tanto tempo, o desgaste do regime da ilha caribenha, tão esperado...

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Contrariando muitos prognósticos, especialmente os elaborados pela mídia ocidental e seus analistas, a Revolução Cubana completa meio século de existência. Mesmo depois de tanto tempo, o desgaste do regime da ilha caribenha, tão esperado e previsto, não é uma realidade: o apoio popular ao sistema socialista permanece em níveis bastante elevados.

Richard Gott, jornalista britânico, dá algumas explicações para isso: “Cuba é uma sociedade que tem desfrutado de meio século de paz interna, incólume a ditaduras militares (como na maioria da América Latina) ou assassinatos políticos (como nos Estados Unidos)”.

Em entrevista por correio eletrônico ao Brasil de Fato, Gott ainda cita, entre outros, os padrões de saúde e educação oferecidos ao povo e a igualdade racial, conquistada após séculos de escravidão e colonialismo.

No entanto, existem problemas e desafios a serem enfrentados. E muitos. O jornalista britânico elenca alguns exemplos, como a falta de liberdade de expressão, a manutenção da pena de morte e a relativa ausência de diversificação da economia cubana, causada, principalmente, pelo acordo de exportação de quase toda sua produção de açúcar à ex-União Soviética.

Na entrevista a seguir, Gott ainda fala sobre Fidel Castro, Che Guevara, Barack Obama, as mudanças promovidas por Raúl Castro, e critica a grande mídia: “A imprensa internacional (de viés ocidental) foi educada para acreditar que somente as sociedades liberais do ocidente têm o direito de descrever a si mesmos como ‘democráticos‘. Todas as outras sociedades são consideradas ‘autoritárias‘ ou ‘ditatoriais‘”.

Brasil de Fato – Após 50 anos de vigência da Revolução Cubana, quais são seus principais legados?

Richard Gott – O legado permanente da Revolução Cubana é a criação de uma sociedade onde negros e brancos vivem juntos como iguais, superando a herança racista da escravidão e do colonialismo. Isso é uma conquista única nas Américas, seja do Norte, seja do Sul. Cuba é uma sociedade que tem desfrutado de meio século de paz interna, incólume a ditaduras militares (como na maioria da América Latina) ou assassinatos políticos (como nos Estados Unidos). Além disso, Cuba é uma sociedade intacta em relação ao consumismo: os cubanos não são persuadidos pela publicidade a querer o que eles não precisam. E, por último, a população do país desfruta de padrões de serviços de saúde e educação que ainda são um sonho distante para os demais povos da América Latina. 

Em sua opinião, quais foram os principais erros ou decisões equivocadas durante estes 50 anos?

Tem sido um erro Cuba manter a pena de morte, pôr o país no mesmo nível dos Estados Unidos, que também mantém essa prática bárbara. Também é um equívoco se recusar a permitir uma certa liberdade de opinião na discussão política. Cuba tem uma população educada e com capacidade de argumentação, portanto, ao povo cubano deveria ser permitido debater seu futuro de um modo mais interessante e aberto, através da criação de jornais e revistas.

Muito se discute a real importância da figura de Fidel Castro e de sua liderança para a sobrevivência da Revolução Cubana nestas cinco décadas. Qual sua opinião sobre isso?

A liderança de Castro e sua personalidade carismática têm sido, sem dúvida, de grande importância na sustentação da Revolução durante tantos anos. Castro talvez possa ser visto, agora, como a figura latino-americana do século 20 de maior destaque, no mesmo nível dos líderes das lutas de independência do século 19. Sua habilidade militar, exemplificada durante a guerra revolucionária, assim como nas lutas tardias na África, é legendária, do mesmo modo que sua habilidade política, diplomática e estratégica. (Leia mais na edição 305 do Brasil de Fato) 

QUEM É

O britânico Richard Gott é escritor, jornalista e historiador. Trabalhou, por muitos anos, no jornal inglês The Guardian, como redator, correspondente e editor. Esteve por diversas vezes em Cuba, país sobre o qual escreveu o livro Cuba: Uma Nova Historia. É autor, ainda de diversos livros sobre os movimentos revolucionários na América Latina, como Guerrilla Movements in Latin America (Movimentos guerrilheiros na América Latina) e Hugo Chavez and the Transformation of Venezuela (Hugo Chávez e a transformação da Venezuela). Atualmente, é pesquisador do Instituto para o Estudo das Américas da Universidade de Londres.

Da Agência Brasil de Fato.



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