Os talibãs aplaudem a França

O debate na França sobre esta questão é visto pelo estrangeiro com incredulidade. No mundo muçulmano, é visto como uma prova de islamofobia galopante; no entanto, mesmo nos países suspeitos de pouca simpatia pelo Islã,...

240 0

O debate na França sobre esta questão é visto pelo estrangeiro com incredulidade. No mundo muçulmano, é visto como uma prova de islamofobia galopante; no entanto, mesmo nos países suspeitos de pouca simpatia pelo Islã, as críticas são numerosas. O New York Times de 26 de janeiro publicou um editorial intitulado "The Taliban Would Applaud", que vale a pena ser lido.

"É fácil de perceber que os direitos humanos da mulher são violados quando um governo sente a necessidade de as obrigar a cobrir o seu corpo e rosto por um véu opaco, tal como os talibãs faziam quando governavam o Afeganistão. Deveria também ser fácil de ver a violação quando uma comissão parlamentar francesa recomenda, como o fez esta semana, a proibição das mulheres que usam tais véus – a burqa e o niqab – nos serviços públicos, entre os quais se incluem as escolas, hospitais e transportes públicos (o lenço muçulmano está proibido nas escolas públicas desde 2004). As pessoas devem ser livres de tomar estas decisões por si próprias e não serem impostas pelos governos ou pela polícia."

Coincidência. Esta fórmula é curiosa porque devolve, sem que o autor, evidentemente, o saiba, para uma máxima de um texto de Karl Marx, da sua obra "Crítica do programa de Gotha" (1875): "Cada um tem que poder fazer as suas necessidades religiosas e corporais, sem que a polícia aí meta o nariz."

"Em vez de condenar a recomendação, o presidente Nicolas Sarkozy parece determinado em ir mais longe. Já declarou que os véus que escondem todo o corpo ‘não são bem-vindos‘ em França. O presidente do grupo parlamentar do seu partido (Sr. Coppé) pretende fazer passar uma lei que interdita o uso da burqa e do niqab nas ruas. Os talibãs ficarão contentes. O resto do mundo deve rejeitar esta medida.

Infelizmente, os políticos franceses parecem deliberadamente cegos perante esta violação das liberdades individuais. Com as eleições regionais previstas para março, Sarkozy e os seus aliados procuram desesperadamente um meio para afastar a ira da opinião pública perante o elevado desemprego. É difícil criar empregos e muito mais fácil alimentar os preconceitos anti-muçulmanos.

A França tem mais de cinco milhões de habitantes muçulmanos, mais do que qualquer outro país da Europa Ocidental. Menos de 2.000 usam o véu integral, não representando uma ameaça evidente para a identidade ou segurança francesas. E porque são tão pouco numerosos, constituem um argumento eleitoral fácil.

Os ataques contra os muçulmanos (Muslim-bashing) forneceram uma poderosa reserva eleitoral para os políticos de extrema-direita, nomeadamente Jean-Marie Le Pen. Numa tentativa de conquistar alguns destes votos, o governo de centro-direita de Sarkozy passou meses na promoção de um debate sobre a identidade nacional, às vezes insensato, por vezes ameaçador. Nenhum ganho político pode justificar um incitamento ao ódio."

Tradução de Teresa Costa Alves para Esquerda.net.



No artigo

x