Os tesouros de Sakhalin

Na Rússia oriental, mais perto de Tóquio que de Moscou, fica a ilha da Sakhalin. Ali, nos mares do pequeno pedaço de terra há séculos disputado entre russos e japoneses, todo ano, entre maio...

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Na Rússia oriental, mais perto de Tóquio que de Moscou, fica a ilha da Sakhalin. Ali, nos mares do pequeno pedaço de terra há séculos disputado entre russos e japoneses, todo ano, entre maio e outubro, quando as águas estão descongeladas, as baleias cinzentas do oeste do Pacífico vão atrás de alimento. Rico em peixes, esse pedaço de oceano esconde, também, jazidas de petróleo comparáveis às do Oriente Médio. Algo que, se não tão atraente às baleias cinzentas, é suficiente para despertar a cobiça de outros “predadores”, dos mais terríveis – como a Royal Dutch/Shell, por exemplo.
Polêmico projeto da Shell para a extração de gás e petróleo na costa de Sakhalin tem sido acusado, por ambientalistas, de pôr em risco de extinção as baleias cinzentas do Pacífico. Podendo pesar 40 toneladas e medir até 14 metros de comprimento, a espécie, também chamada “Ojotsk Coreana”’, é uma das maiores vítimas da cruel voracidade da indústria baleeira. Restam, hoje, cerca de apenas cem em todo o mundo.
Apontada por painéis de cientistas e organizações da sociedade civil como nociva ao equilíbrio ecológico, a iniciativa da Shell coloca também na mira dos ativistas o Credit Suisse First Boston, principal aliado financeiro da transnacional do petróleo para a empreitada. Os ambientalistas alegam que os estragos causados pela iniciativa batem de frente com os chamados Princípios do Equador, conjunto de normas ambientais adotado por dezenas bancos privados para o financiamento de projetos.

Sede de petróleo
Em 1994, associado às japonesas Mitsubishi e Mitsui, a Shell fundou a Sakhalin Energy Investment Company. Destinada à exploração de petróleo e gás no mar da ilha de Sakhalin, a companhia não demorou a assinar com Moscou acordo através do qual se comprometia a compartilhar com o governo russo parte dos ganhos conseguidos na empreitada.
Pelos nada modestos planos da transnacional, o projeto Sakhalin II, como passou a ser chamado, deve ser constituído de três plataformas marítimas de exploração de gás e petróleo, um óleoduto e um gasoduto gigantescos, e uma fábrica de liquefação de gás natural. Para se ter uma idéia, os custos da empreitada devem bater nos US$ 12 bilhões, suficiente para considerá-lo o mais caro projeto de exploração de gás e petróleo hoje em curso.
Desde 1999, a Sakhalin Energy vem explorando petróleo através da já construída plataforma de Molipak. Apesar da produção respeitável (cerca de 11,6 milhões de barris em 2004), exportada para países como Japão, Coréia, China e EUA, sua atividade fica restrita apenas aos períodos em que os oceanos estão descongelados, quando os navios petroleiros podem abastecer seus tanques diretamente na plataforma.

Desastre megalomaníaco
Para otimizar a produção, garantindo seu escoamento ao longo de todo o ano, a Shell planeja construir, próximo à ilha de Sakhalin, uma nova plataforma de exploração, e um oleoduto e um gasoduto de cerca de 800 km de comprimento cada. A idéia é que os dutos levem a produção da nova plataforma até uma refinaria de gás (também em construção) localizada ao norte da ilha. O plano prevê, ainda, a instalação de uma terceira plataforma de exploração próxima à Coréia.
Esta solução, ótima para a companhia, acabou chamando, no início de 2004, a atenção de ambientalistas. Isso porque, pelos planos da Shell, tanto a plataforma de Sakhalin como o oleoduto e o gasoduto seriam construídos em área ambientalmente bastante sensível, território de intensa atividade sísmica – o que, logicamente, aumenta os riscos de vazamentos de óleo. Como se isso fosse pouco, há ainda os estragos causados pelo alto ruído e pelo entulho comuns a obras do tipo, numa conjunção de fatores certamente fatal às baleias cinzentas que todo ano migram para a região.
Trazidos a público pelo semanário britânico The Observer em janeiro de 2004, os planos da Shell chamaram a atenção da sociedade civil. Acuada por ONGs e cientistas, a companhia, no que seria uma mostra de boa vontade, pediu à União Mundial para a Conservação da Natureza (IUCN, na sigla em inglês) estudo avaliando os possíveis impactos ambientais de seu projeto. O resultado foi arrasador: a IUCN não apenas sugeriu à Shell que o Sakhalin II fosse abortado como, também, acusou a companhia de ter negado aos cientistas o acesso a informações.
“O projeto Sakhalin II da Shell aumenta, por conta de seus impactos de construção e operação (como colisões entre embarcações, derramamentos de óleo, e ruídos), o risco de extinção das já criticamente ameaçadas baleias cinzentas”, disparou a IUCN em comunicado aberto à transnacional. Para se ter uma idéia do que isso representa, ambientalistas calculam que a morte de uma fêmea por ano seria o suficiente para condenar a espécie à extinção.

Ouvidos de mercador
Numa tentativa de mostrar-se sensibilizada pelo alerta da IUCN, a Shell comunicou, em 30 de março último, a intenção de modificar os traçados do oleoduto e do gasoduto, que, agora, passariam a quilômetros do habitat das baleias cinzentas. Para os ambientalistas, porém, a iniciativa da companhia é nada mais que uma cortina de fumaça. Em comunicado divulgado no mesmo dia, a ONG Amigos da Terra correu a afirmar que, apesar da mudança na rota dos dutos, “…há (ainda) significante risco para as baleias cinzentas caso não seja revista também a localização da plataforma”. Além disso, a entidade lembra que “o projeto tem sido criticado também pela falta de informação sobre sua segurança, com a Shell ainda não apresentando um plano de ação para possíveis derramamentos de óleo”.
Para complicar ainda mais a situação da Shell, o diário britânico The Guardian informou, em sua edição de 03 de abril último, que, logo após o anúncio da modificação no traçado dos dutos, nativos de Sakhalin encontraram enorme quantidade de entulho despejada por subcontratados da empresa em região crucial à indústria pesqueira da ilha. Com um dos piores índices de qualidade de vida da Rússia, Sakhalin tem na pesca uma de suas principais atividades econômicas.

Atrás do dinheiro
É compreensível que a Shell pareça reticente quanto à reformulação do Sakhalin II. Afinal, segundo o website do consórcio Sakhalin Energy, cerca de 50% do projeto estaria já construído, o que significa muito dinheiro já gasto. De finanças combalidas, a transnacional aposta seu futuro no sucesso da iniciativa – que, estima-se, deve remeter, quando completa, cerca de US$ 45 bi para os cofres da companhia.
Colabora para o desespero da Shell o fato de o estardalhaço em cima do Sakhalin II não facilitar seu financiamento. Apesar de contar com um parceiro privado do setor financeiro, o Credit Suisse First Boston (CSFB), boa parte dos organismos financeiros privados e multilaterais têm evitado associar seu nome à Sakhalin Energy. Mesmo o CSFB tem sido alvo de pressão constante ao redor do mundo por entidades como Greenpeace, Friends of The Earth, Banktrack, Rainforest Action Network e Pacific Environment.
Alheias a tudo isso, as baleias cinzentas do Pacífico, sobreviventes da fúria dos arpões, um dia acreditadas extintas, andam outra vez próximas de seu fim. Agora, por cruzar o caminho de outro predador, implacável, que tudo varre: a sede humana por petróleo.

Matéria publicada no site Planeta Porto Alegre (www.planetaportoalegre.net).



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