Os tucanos de bico vermelho

No começo de novembro, o senador Sérgio Guerra, presidente do PSDB, convidou o deputado federal Nelson Proença, do PPS gaúcho, para jantar em sua casa em Brasília. Antes que o prato principal fosse servido,...

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No começo de novembro, o senador Sérgio Guerra, presidente do PSDB, convidou o deputado federal Nelson Proença, do PPS gaúcho, para jantar em sua casa em Brasília. Antes que o prato principal fosse servido, a campainha tocou. Para surpresa de Proença, Guerra convidara para a ceia o governador de São Paulo, José Serra. Não por acaso, discutiu-se à mesa um tema de suma importância para o projeto político do governador paulista: a fusão entre o PPS e o PSDB. Ao elencar as afinidades eletivas entre as duas legendas, Serra fez uma observação. “Tem mais ex-comunista no PSDB que no PPS”. E logo foi puxando nomes pela memória: “Aloysio (Nunes Ferreira), (Alberto) Goldman, (Arnaldo) Madeira…”. Guerra lembrou que o próprio governador foi da esfera de influência do “Partidão”, nos tempos que militava na AP (Ação Popular) e era presidente da UNE. A noite terminou com o trio estabelecendo a meta de fundir as duas agremiações até o final do primeiro semestre de 2009, a tempo de mobilizar a base do PPS para a campanha presidencial.
“Fui o primeiro a falar em fusão. Estou convencido de que vai haver uma concentração partidária no Brasil, com três ou quatro legendas nacionais. O PPS conversa há muito tempo com o PSDB. Precisamos montar um agrupamento político forte para a era pós-Lula. Tenho simpatia pelo Serra e o nosso partido há muito tempo conversa com ele. Vamos acelerar esse processo e fazer fusão”, relata Proença à Fórum. Ele garante que esse movimento não é isolado e que praticamente todos os dirigentes da legenda o apóiam. “Fiz uma análise com o Roberto Freire na semana retrasada. Analisamos estado por estado. Não existirá dificuldade em nenhum deles, nem na bancada federal. Essa idéia circula com muita facilidade”, assegura. Freire e Proença esperam que o assunto tome corpo antes do Carnaval. E que o martelo seja batido na Convenção do PPS, no primeiro semestre de 2009.
Não é de hoje que o “S” do PPS não passa de um verniz. Por mais que o mundo dê voltas e se formulem teses sobre o fim da história, ainda pega bem para partidos políticos de todos os espectros levar um “Socialista” no sobrenome. Adepta do pragmatismo radical, a agremiação – oriunda de um racha do PCB em 1992 (ver quadro) – sempre levou a sério o imortal provérbio de Ortega y Gasset: “Um homem é um homem e suas circunstâncias”. Foi depois de se debruçar sobre os números da eleição que passou – o PPS elegeu 132 prefeitos – uma queda de 59% em relação às 320 prefeituras que conquistou em 2004 – e de calcular o devastador efeito da chamada janela da infidelidade, que permitirá o troca-troca partidário – que a cúpula “socialista” tomou uma decisão definitiva de se fundir ao PSDB. Na prática, não passa de mera formalidade. Desde a primeira eleição de Lula, os dois partidos mantêm uma relação para lá de carnal. Indignam-se juntos e assinam notas, manifestos e repúdios, em geral ao lado do DEM, sempre que surge um gancho contra o governo federal. E tem como diretriz o apoio eleitoral recíproco quando a realidade local permite. É como se o partido fosse a esquerda da direita.

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