Os voos mais altos de Netinho

O professor não ligou imediatamente o nome à pessoa quando leu “José de Paula Neto” na lista de chamada. Eram meados de agosto último quando tardiamente a turma do primeiro ano do curso de...

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O professor não ligou imediatamente o nome à pessoa quando leu “José de Paula Neto” na lista de chamada. Eram meados de agosto último quando tardiamente a turma do primeiro ano do curso de Sociologia da Escola de Sociologia e Política de São Paulo entrou na sala de aula. A moçada de cabeça raspada ainda se conhecia e escolhia carteiras diante do quadro negro quando o aluno ilustre entrou de terno, com um livro de Maquiavel embaixo do braço.

Houve quem duvidasse, mas sim, era ele mesmo: Netinho de Paula. Com 38 anos de idade e uma barriga proeminente que denuncia o exercício da política, o aspirante a sociólogo tem assistido desde então cinco longas aulas inteiras de segunda à sexta. Duas vezes por semana, ainda pratica inglês durante uma hora com uma professora particular em seu gabinete antes de ir para a ESP.

Todo esse esforço faz parte de um meticuloso projeto de poder. Netinho de Paula quer ser senador da República e, por que não? – presidente. Antes mesmo de ser eleito um dos vereadores mais votados de São Paulo em 2008 – recebeu 84.406 e teve o melhor desempenho da coligação PT-PC do B – Netinho já tinha traçado voos mais altos. O pagodeiro do SBT falou em entrevistas que seu objetivo era chegar ao Senado. Na ocasião poucos o levaram a sério. Mesmo dentro de seu partido, o PC do B, aquilo parecia um devaneio. Prevalecia o temor de que ele, artista que é, agiria como o ex-boleiro Ademir da Guia que, logo depois de eleito vereador em 2006, abandonou os comunistas e passou para a base tucana. Depois, caiu no ostracismo político.

Mas Netinho surpreendeu. Não só foi aceito no impenetrável Comitê Central do partido, onde é membro da executiva do diretório estadual, como viu seu nome ser colocado no tabuleiro de 2010. Netinho e a presidente regional da sigla, Nádia Campeão, estão articulando intensamente. Por mais que os cenários mudem constantemente, petistas têm levado a sério a ideia de colocar Aloizio Mercadante ao lado do pagodeiro na guerra pelas duas vagas paulistas ao senado ano que vem. “Netinho nos surpreendeu. Ele está aprendendo com muita rapidez, crescendo dentro da atividade política. E está ajudando o PC do B a construir o projeto de 2010. É um articulador habilidoso”, vibra Nádia Campeão.

Com Dilma na periferia

O desempenho de Netinho chamou atenção de Dilma Rousseff. Em celebração pelos 28 anos do SBT, em agosto, no Guarujá, a ministra chamou o pagodeiro para uma conversa reservada. Elogiou seu desempenho na Câmara, sua votação expressiva (“a maior da coligação”) e, finalmente, pediu: “Vamos juntos percorrer a periferia?” Silvio Santos estava por perto, mas preferiu não se intrometer. O chefe sabe, porém, que se o projeto vingar perderá seu apresentador das tardes de sábado.

“Deixo de ganhar dinheiro com a política. Antes (de ser vereador) fazia entre 12 e 15 shows por mês. Hoje faço no máximo seis ou sete. Passo três dias por semana dentro da Câmara – terça, quarta e quinta. Na segunda, gravo o programa no SBT. Às sextas venho de dia e à tarde volto a gravar. Só depois é que viajo para os shows, nos fins de semana”, conta. Para dar conta dessa rotina, Netinho tem um estafe de fazer inveja a qualquer político. Dispõe de duas estruturas separadas de assessoria, uma política e outra artística. Tão separadas que, às vezes, as duas batem cabeça. Foi o que ocorreu no caso da suposta conversa entre o músico e traficantes de Heliópolis, divulgada com alarde pela imprensa. Antes que sua limusine branca entrasse no lugar para buscar uma “princesa” para seu programa, um assessor entrou na favela para preparar o terreno. Foi prontamente surpreendido por um homem armado, provavelmente um traficante.

Rendido, explicou que era produtor do SBT, de Netinho, e que estava lá para uma gravação. Ao voltar, comentou o assunto com colegas. A história vazou e logo virou uma novela, devidamente confirmada pela assessoria . “Vi depois pela TV uma notícia do tipo: ‘Netinho rendido com arma na cabeça’. Não foi nada disso. Fui lá buscar uma princesa. Peguei a menina e saí. Foi uma pessoa da produção que entrou sem pedir licença e tomou um enquadro”, explica o pagodeiro comunista.

Empatia com Orlando Silva

Como todo político, Netinho titubeia em admitir sua ambição presidencial. Mas reconhece que muitos amigos o chamam assim, de presidente. E ele adora. “Fiquei feliz ao ver a posse do Obama. Foi a segunda vez que tive vontade de chorar vendo um presidente. A primeira foi com Lula, meu irmão do gueto”, diz.

Ele chegou a confidenciar esse sonho certa vez para Fernando Henrique Cardoso, no Palácio do Planalto. “Ele me disse: ‘Netinho, para ser presidente não basta só querer. É preciso ter o dom de fazer com que queiram”. 

Tempos depois, quando estava na Record, foi convencido a filiar-se ao PR, partido que opera em nome da Igreja Universal. “A emissora tinha planos políticos e incentivava alguns apresentadores a serem candidatos. Tinha uma pessoa que circulava nos bastidores da área artística procurando gente, como eu e o Wagner Montes. Fiz minha filiação, mas isso não avançou”. Foi em um almoço com Orlando Silva, ministro dos Esportes, negro, jovem e com um passado similar ao de Netinho, que ele se encantou com o PC do B. A empatia entre os dois foi imediata.

“O Orlando me falou sobre a experiência dele como líder estudantil e como ministro, mas sempre me reverenciando. Ele sabia toda minha história e a do Negritude… Falou sobre o papel do samba e do rap nos movimentos sociais e me comparou ao Mano Brown. Mas disse que o rap ficou muito no discurso, e a prática quem fez foi o samba. Duas semanas depois fui encontrar com o Aldo Rebelo, isso tudo em 2006. O Aldo foi pragmático: ‘Pela sua atuação, você é um cara do Bloco de Esquerda. Poderia, portanto, estar no PT ou no PC do B. No PT, que chance você teria de crescer? Que garantia você teria de ter uma legenda? A gente precisa de você.’”, relembra. “Impus ao Aldo algumas condições. Disse que não queria ser mais um no partido. Falei que queria ir para o Senado em 2010. Ele falou: ‘Você tem popularidade para isso, mas um cargo majoritário requer outras coisas além. Não tenho como garantir, mas você tem condição de ter essa vaga.’ Foi boa essa sinceridade”.

Se de fato for candidato ao Senado, Netinho sabe que seus adversários terão munição para atacá-lo frontalmente. Como reagir em um debate ao vivo se o episódio em que agrediu a própria esposa, Sandra Mendes, em 2005, vier à tona? “É simples. Nunca me propus a ser perfeito. Tenho defeitos. Se isso fosse me prejudicar, tinha prejudicado na campanha para vereador. Tive que me redimir para as pessoas. Fui publicamente na TV e admiti que errei. Pedi desculpas e paguei pelo que fiz um preço altíssimo. Fiquei três anos sem apresentar programa. Fiquei mal… Na estreia do meu programa, esse foi o assunto. Chamei a Maria da Penha e falei do que fiz. Não fugi. Se isso surgir na campanha, vai soar como apelação”. Outro episódio delicado foi o soco proferido no humorista Rodrigo Scarpa, o Repórter Vesgo da RedeTV. O caso repercutiu nacionalmente e passou a imagem de uma estrela desequilibrada e violenta. “No caso do Vesgo, o meu impulso foi o mesmo de várias pessoas. Aconteceu e… tipo ‘desculpa aí mano’. Mas esse caso é totalmente diferente”.

O pensamento político de Netinho de Paula

Caso Sarney – “Eu apoiaria uma investigação no Conselho de Ética. E acho que ele devia deixar o Senado. Quando os vícios da política vêm à tona, os caras ficam perdidos, um cagoetando o outro. Isso agride a sociedade. A imprensa fez o papel dela e levantou poeira”
Lula e Collor no mesmo palanque – “Trata-se de um amadurecimento dos dois. Política é isso. Não é vergonha nenhuma concordar com um ex-inimigo. Vi como um ato de grandeza do Lula e do Collor. Política é isso; uma transição de pensamento”.

Mídia – “A mídia trata a periferia de forma estereotipada porque vende jornal. A periferia é glamourosa. O movimento do pagode e do rap teve uma aproximação boa nos anos 80 e 90 com os jornalistas. Mas a galera de hoje (nos jornais) só quer vender jornal. A mídia não tem mais papel social. Para eles, periferia é crime e pronto.

Rede Globo – Nunca achei que a Globo fosse isenta. A questão das cotas é um exemplo. O Ali Kamel (diretor da Globo) é totalmente contra as cotas. Então, quando falam em cotas na TV Globo é sempre ironizando. E sempre sob o parecer dele (Kamel). Nenhum jornalismo é isento.

Teoria – “No último curso do partido discutiram um pensamento de Weber sobre o que é riqueza. Eu disse: “Para mim é o PIB do país. É o que se produz e o que distribui. Li também Maquiavel, “O Príncipe”. O maquiavelismo é a cartilha da política. Mas o poder pelo poder não cabe mais hoje em dia. Se não houver a divisão, o capital não gira. Estudei também a estrutura do socialismo antes de Lenin. E li Marx para aprender a visão societária. Nos cursos do PC do B nos dão apostilas. Fico pensando em traduzir isso no gueto depois. Foi a falsa distribuição que trouxe a bolha aos EUA. Discuti isso com o mano Brown uma vez. Falei: “O Maquiavel chegava, pegava um para cristo e matava para mostrar pros caras que é sério”. O Brown fez outra análise: “Era o medo que fazia ele agir daquela forma. Os caras não estão assaltando porque são ‘do mal’, mas porque tem medo de passar fome”.

Política – “Quando cheguei, não tinha intenção de me aproveitar do partido e sair. Então passei a liderança para o Jamil (Murad), que é um grande conselheiro e me encurta os caminhos de como tratar as negociações. Não represento grupos. Sou da Comissão de Educação e da CPI da Pedofilia”.

“A gente criou um gabinete itinerante. Já que vou gravar num bairro, vai a equipe toda. As lideranças vêm conversar, trazemos os problemas para o gabinete”.

Senado – “Meu papel é sondar, ver as possibilidades. A vontade do PC do B é ficar com a segunda vaga do senado. Tenho conversado com o PT, com o Paulinho (da Força, do PDT) e com o PSB. Já estive com Berzoini, Rui Falcão, Edinho Silva… O Berzoini disse que estaria na coordenação da Dilma em São Paulo. E que meu nome é forte para o senado”. 

Biografia José de Paula Neto nasceu no dia 11 de julho de 1970, no bairro de Santo Amaro, na zona sul da cidade de São Paulo. Na infância vendeu doces na estação de trem de Carapicuíba. Em 1986 juntou-se ao Negritude Júnior, grupo que nasceu na COHAB de Carapicuíba. A banda tornou-se um dos grandes fenômenos do pagode no Brasil na década de 90. Em 2001 Netinho lançou-se em carreira solo. Já lançou cinco álbuns e um DVD. “Juntos e Misturados”, o último álbum, foi lançado no final de 2008. Entre 2001 e 2006, o artista apresentou o programa Domingo da Gente. A atração tinha como principal destaque o famoso quadro “Um Dia de Princesa”. O cantor também participou do seriado Turma do Gueto, idealizado por ele com o objetivo de mostrar a realidade da vida levada pela população nas periferias.

Projetos de Lei
– Inclusão da disciplina “História Geral da África e do Negro no Brasil” nas grades curriculares da rede pública de ensino no município de São Paulo.
– Inclusão do Dia do Combate à Intolerância Religiosa, a ser realizado anualmente no dia 21 de janeiro.
– Voto de júbilo e congratulações à posse do Excelentíssimo Presidente dos Estados Unidos, Barack Hussein Obama, aprovado pela Câmara Municipal e enviado por meio do embaixador americano no Brasil, Clifford Sobel.

Essa matéria é parte integrante da edição impressa da Fórum de setembro. Nas bancas.



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2 comments

  1. Joãozinho

    Pra cima deles, se na meca do capitalismp um negro chega ao cargo máximo, e por aqui um operário tbem comsegue. Cabe a nós negros e negras não dar moleza. Vamos pra vcima deles, tudo junto e misturado. “ Sim, nós tbem podemos e vevemos agir “

  2. Joãozinho

    Pra cima deles, se na meca do capitalismp um negro chega ao cargo máximo, e por aqui um operário tbem comsegue. Cabe a nós negros e negras não dar moleza. Vamos pra vcima deles, tudo junto e misturado. “ Sim, nós tbem podemos e vevemos agir “

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