Outro mundo possível, dez anos depois

“A simples existência do Fórum Social Mundial retira toda a legitimidade de Davos, que parecerá daqui por diante – se continuar existindo – uma simples reunião de interesses corporativos. O que aconteceu na capital...

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“A simples existência do Fórum Social Mundial retira toda a legitimidade de Davos, que parecerá daqui por diante – se continuar existindo – uma simples reunião de interesses corporativos. O que aconteceu na capital gaúcha constitui uma verdadeira reviravoltadiversidade, os movimentos que se opõem à mundialização liberal – a saber, uma mundialização pelo e para o poder do dinheiro – vão agora não só continuar a marcação cerrada aos mandantes do mundo, mas também avançar nas propostas resultantes de consensos internacionais”.

Essa era a análise do então diretor de redação do Le Monde Diplomatique Bernard Cassen, um dos fundadores do Fórum Social Mundial, ao fim da primeira edição do FSM em Porto Alegre, no ano de 2001. Sua análise, com alguns contornos proféticos, mostrava não apenas aquilo que se tornaria o processo do Fórum, um espaço de encontro, diálogo e formação de redes articuladas em torno de diversos temas, mas também resumia o espírito que dominava o evento àquela altura. Em um mundo onde o neoliberalismo dominava e se chegava a pregar o “fim da História”, o mais importante era contestar o pensamento único e as políticas do Consenso de Washington, tal como fizeram dezenas de milhares de pessoas que participaram das manifestações em Seattle em novembro de 1999, durante reunião da Organização Mundial do Comércio (OMC). Naquele episódio ficou evidente que a insatisfação com a supremacia do capital era muito maior do que se imaginava e que o poder da mobilização social causava calafrios aos que se achavam “donos do mundo”.

Era preciso potencializar e canalizar aquele sentimento de contrariedade, o que não era fácil já que os movimentos sociais, entidades sindicais e a própria esquerda viviam um momento de baixa. Oded Grajew já havia tentado anteriormente falar os organizadores de Davos para introduzir as questões sociais, ambientais e de responsabilidade social no Fórum Econômico Mundial, porém, sem sucesso. Foi então que teve a ideia de articular evento que antagonizasse o encontro suíço. “Era fevereiro de 2000 e estava com a minha mulher em Paris quando vi uma notícia na televisão que falava maravilhas de Davos. Foi então que pensei: ‘Bom, vamos tentar criar um contraponto. Já que há o Fórum Econômico Mundial, podemos criar o Fórum Social Mundial com aqueles que acreditam que outro mundo é possível e que ainda há escolhas que podem ser feitas‘”, contou Grajew à Fórum, em entrevista realizada em 2005.
Porto Alegre foi a cidade escolhida para sediar o primeiro FSM justamente porque a administração municipal petista apresentava algumas alternativas interessantes como o orçamento participativo. “O Fórum abriu com uma entrevista coletiva. O Fernando Henrique [Cardoso, então presidente da República] tinha dado uma declaração falando que era um absurdo o governo gaúcho apoiar com dinheiro público gente que era ‘retrógrada‘ e que queria voltar no tempo, quebrar as máquinas”, relembrou Grajew. “Só para rebater do ponto de vista ideológico disse: ‘olha, eu, se fosse um empresário, podia achar que o governo fez um dos investimentos mais rentáveis que o mundo já viu, já que ia receber cinco vezes o que investiu só em impostos.”

Mas se a capital gaúcha simbolizava a existência de alternativas, o primeiro Fórum teve como principal ponto a contestação. Uma das estrelas foi o ativista francês José Bové, que havia ficado famoso por liderar uma invasão ao McDonald‘s de Millau, sul da França, para protestar contra a sobretaxa de produtos agrícolas franceses e europeus imposta pelos Estados Unidos, tornando-se um símbolo da luta contra a hegemonia estadunidense. No Brasil, participou da ocupação de uma fazenda da multinacional Monsanto, junto com o MST, arrancando do solo a soja transgênica ali plantada.
Outro ponto alto na ocasião foi o debate, realizado via satélite, entre Hebe de Bonafini, líder das Mães da Praça de Maio, e o mega-especulador (vulgo investidor) George Soros. "O senhor Soros é um hipócrita. Quantos crianças vocês matam por dia? O senhor não tem coragem de olhar nos meus olhos!", gritou a ativista argentina diante do atônito senhor. "Estou tentando ter um diálogo com você, mas parece que você não quer", respondeu o aturdido Soros.

Mas se a forte cena do debate entre Hebe de Bonafini e George Soros marcou a primeira edição, também ficou patente a necessidade de se avançar mais. Desde então, o Fórum vem se modificando, ainda que não tenha perdido seu sentido original, representado pelo que se convencionou chamar de “espírito de Porto Alegre”, presente na sua Carta de Princípios. Já a partir do segundo encontro, também em Porto Alegre, organizadores e participantes ressaltavam a necessidade do FSM ser mais propositivo, encarnando de fato o ideal de apresentar alternativas possíveis. O que o processo do Fórum poderia trazer de novo para a luta contra o império do mercado e a liberdade do lucro?

Na prática, foi nesse ambiente que se articularam movimentos importantes como os de software livre e de economia solidária. Também surgiram no Fórum grandes mobilizações como a de 15 de fevereiro de 2003, que levou às ruas de todo o mundo cerca de 30 milhões de pessoas, contra as ações militares dos EUA e aliados no Iraque. Uma ação impressionante que nasceu no Fórum Social Europeu de Florença e foi ratificada e na terceira edição realizada na capital gaúcha.

A formação de redes e a realização de fóruns temáticos também representaram um ganho de qualidade nos debates e nas ações articuladas a partir do FSM. Assim, entidades e organizações de um mesmo setor passaram a trocar e difundir experiências locais como também houve a possibilidade de estimular o debate transversal, com segmentos distintos encontrando pontos de contato entre si. Essa capacidade de criar pontos de conexão continua presente até hoje, um dos exemplos disso foi a formação, na última edição de Belém (PA), da Articulação Brasileira de Combate à Corrupção e à Impunidade (ABCCI) e a Rede Mundial de Combate à Corrupção.

Dez anos, e agora?

Hoje, dez anos depois, qual seria a missão do FSM e que tipo de contribuição ele poderia dar ao planeta? Entre os dias 24 e 29 de janeiro, em sua volta a Porto Alegre, o Fórum promoverá um seminário justamente para fazer essa discussão. O evento, promovido pelo Grupo de Reflexão e Apoio ao Processo FSM*, estará inserido no Fórum Social Dez Anos – Grande Porto Alegre, que acontecerá na capital gaúcha e também nas cidades do entorno.
Uma década depois de seu início, o mundo é bastante diferente daquele em que imperava o pensamento único e a contribuição do próprio Fórum para que isso acontecesse é inegável. Por ali passaram Evo Morales e Lula, por exemplo, antes de se tornarem chefes de estado de seus países, em uma época em que a América Latina era dominada por presidentes adeptos do neoliberalismo. Hoje, não apenas no continente a situação é de um equilíbrio maior entre as forças políticas, com tendências à esquerda em diferentes nuances, como no resto do planeta há um abalo nas convicções do liberalismo econômico. Durante essa década, não foi apenas a economia capitalista que entrou em crise, mas também o próprio modelo de desenvolvimento que resultou em um cenário sombrio em termos ambientais.

Para Christophe Aguiton, ativista da Associação pela Tributação das Transações Financeiras para ajuda aos Cidadãos (Association pour la Taxation des Transactions pour l‘Aide aux Citoyens – ATTAC), que se dedica hoje também à coligação Justiça Climática Já!, a questão ambiental passa a ser fundamental no processo do FSM. Em artigo, ele inclusive compara a Cúpula realizada em Copenhague com os movimentos de Seatlle em 1999. “Em ambos os casos, as ONGs foram as primeiras a se mobilizar sobre os temas em questão (…). E uma mobilização significativa da juventude marcou a emergência de novos movimentos.”

No entanto, as diferenças entre aquele momento histórico e hoje também se tornam evidentes. “Em Porto Alegre, o Fórum Social Mundial poderia simplesmente proclamar face a Davos e ao "consenso de Washington" que um ‘outro mundo é possível‘. Uma resposta que não é suficiente para atender à emergência do clima e os riscos de ‘outros mundos‘ que surgem e são a antítese dos valores e aspirações dos ativistas pela justiça climática. Para ele, será necessário enfrentar a herança doutrinária da esquerda e dos movimentos sociais formados durante o século passado, um legado bastante distante das preocupações atuais do movimento de justiça climática.

Outro ponto levantado por Aguiton é que, quando surge o FSM, a postura em relação a organismos multilaterais como a Organização Mundial de Comércio (OMC) e o Fundo Monetário Internacional (FMI) eram bastante claros. Mas, no que diz respeito à questão climática, como será a posição dos movimentos em relação à enfraquecida Organização das Nações Unidas (ONU), por exemplo? Uma questão que merece ainda mais destaque se for considerado o contexto atual em que as relações Norte-Sul estão bem menos desequilibradas do que em 2001, e a participação de países emergentes e da China se torna fundamental em qualquer ação no plano ambiental.

Essas e outras contradições deverão ser discutidas no FSM 2010 e os debates podem ser mais uma mostra da vitalidade do processo de reinvenção das esquerdas que sempre caracterizou o Fórum Social Mundial. Como disse o escritor Luiz Fernando Veríssimo em texto lido no encerramento da primeira edição, em 2001, é importante efetivar o resgate do “parâmetro humano”, uma luta iniciada naquele Fórum e que prossegue até hoje. E que, certamente, não vai acabar tão cedo.

FSM 2010
De 25 a 29 de janeiro, o "FSM 10 Anos: Grande Porto Alegre" terá mais de 500 atividades descentralizadas nas cidades de Porto Alegre, Gravataí, Canoas, São Leopoldo, Novo Hamburgo e Sapiranga. Até o fechamento desta edição estavam confirmadas algumas mesas e Seminário Internacional “10 Anos depois: desafios e propostas para um outro mundo possível”, que acontecerá dentro da programação. Entre os nomes já confirmados (as) estão Boaventura de Sousa Santos (Portugal), David Harvey (EUA), Francisco Whitaker (Brasil), João Pedro Stédile (Brasil), Diana Senghor (Senegal), Immanuel Wallerstein (EUA), Samir Amin (Egito), Christophe Aguitton (França) e Virgínia Vargas (Peru).

As atividades do seminário serão realizadas pela manhã, na Usina do Gasômetro, na capital gaúcha. Confira abaixo a programação das mesas de debate:

Dia 25/01, segunda-feira:
Fórum Social Mundial – Balanço de 10 anos

Dia 26/01, terça-feira:
Conjuntura mundial hoje

Mesa 1: Conjuntura Ambiental
Mesa 2: Conjuntura Econômica
Mesa 3: Conjuntura Política
Mesa 4: Conjuntura Social

Dia 27/01, quarta-feira:
Elementos de uma nova agenda I

Mesa 1: Bens-Comuns
Mesa 2: Sustentabilidade
Mesa 3: Economia e Gratuidade
Mesa 4: Bem-Viver

Dia 28/01, quinta-feira:
Elementos de uma nova agenda II

Mesa 1: Organização do Estado e do Poder Político
Mesa 2: Direitos e Responsabilidades Coletivas
Mesa 3: Novo Ordenamento Mundial
Mesa 4: Como construir hegemonia política

Dia 29/01, sexta-feira:
Sistematização das grandes questões e contribuição para o processo Fórum Social Mundial

Serviço:
Fórum Social 10 Anos Grande Porto Alegre
Quando: 25 a 29 de janeiro
Onde: Porto Alegre, Canoas, Sapucaia do Sul, São Leopoldo, Novo Hamburgo, Campo Bom e Sapiranga – RS – Brasil
Contato: fsm2010@yahoo.com.br

I Fórum Social e I Feira Mundial de Economia Solidária
Quando e onde: 22 a 24 de janeiro, em Santa Maria; e 25 a 29 de janeiro, em Canoas – RS – Brasil.
Site: http://www.fsmecosol.org.br
Contato: ecosol@fsmecosol.org.br

Fórum Mundial de Teologia e Libertação
Quando: 26 a 28 de janeiro
Onde: São Leopoldo – RS
Contato: permanentsecretariat@wftl.org

Essa matéria é parte integrante da edição impressa da Fórum 82. Nas bancas.



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