Para ativista afegã, Nobel a Obama é um “insulto à paz”

Malalai Joya é das poucas vozes que o mundo conhece da intransigência da oposição aos talibãs e aos senhores da guerra e da droga que hoje ocupam os lugares de topo no poder político,...

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Malalai Joya é das poucas vozes que o mundo conhece da intransigência da oposição aos talibãs e aos senhores da guerra e da droga que hoje ocupam os lugares de topo no poder político, protegidos pelas tropas de ocupação. Eleita deputada no parlamento afegão, foi expulsa desse órgão por dizer que "isto não é um parlamento, é um jardim zoológico" e que "a bancada da maioria é composta por criminosos e corruptos".

"Confrontei-os com os seus crimes e por isso me expulsaram, fui insultada e ameaçada, inclusive de violação, e exigiram que pedisse desculpa para poder voltar", conta. "Não ia pedir desculpa por dizer a verdade", afirmou Malalai Joya às dezenas de pessoas que compareceram ao encontro com a ativista, em Lisboa, Portugal, na livraria Ler Devagar.

"Venho de uma terra de tragédia. Substituíram os talibãs por uma claque que chega ao poder com as mãos ensaguentadas e que fala de direitos humanos sem acreditar em nada disso", explica a ativista. "Por isso somos hoje o centro da produção de droga e um santuário para os terroristas", disse Malalai Joya.

"É muito difícil combater dois inimigos ao mesmo tempo. Por isso é tão importante a solidariedade internacional", mencionou várias vezes a afegã, identificando os talibãs, "com a sua mentalidade medieval" e as tropas estrangeiras, que "ao estilo do colonizador britânico usa a táctica de dividir para reinar", tendo criado a força dos talibãs contra os soviéticos e dos narco-senhores da guerra contra os talibãs.

Questionada sobre a entrega do Nobel da Paz a Obama, Malalai classificou-o como "um insulto à paz" e lançou a pergunta: "O que é que ele fez pela paz nestes nove meses? Está sendo o presidente da guerra. Olhem para o que se passa no Afeganistão, no Iraque, até no Paquistão onde os aviões não tripulados continuam os bombardeios".

"Obama devia pedir desculpa ao meu povo por esta ‘guerra ao terror‘ que não é mais que uma guerra aos inocentes", criticou a ativista que também lembrou o investimento norte-americano na prisão de Bagram – "a nova Guantanamo" – e que "a democracia nunca foi feita com a guerra". Malalai não poupou críticas aos media ocidentais: "Eles dizem que se os ocupantes saírem vem aí a guerra civil. Mas nós já temos uma guerra civil hoje".

Malalai acredita que o povo afegão "odeia os talibãs e os narcotraficantes". "Mas os ocupantes querem agora trazer de volta o Mullah Omar para o governo, dizendo que ele é um talibã moderado. Isto é só para enganar a opinião pública internacional", denunciou a ativista que o Bloco de Esquerda e o seu grupo parlamentar em Estrasburgo – o GUE/NGL – querem ver vencer o Prémio Sakharov, que distingue os lutadores pelos direitos humanos no mundo.

Quanto aos resultados das recentes presidenciais, contestados pelos observadores internacionais, Malalai Joya não tem dúvidas da falta de legitimidade dos resultados anunciados. "As urnas ficaram todas nas mãos da mafia e dizia-se que o importante não é quem vota, mas quem conta os votos. O fantoche sem vergonha que é Hamid Karzai foi o escolhido para ganhar e assim continuar no poder", acusou a ex-deputada, sem grande apreço pelo principal opositor, que "teve o apoio dos narcotraficantes e senhores da guerra".

A situação das mulheres no Afeganistão também foi destacada nas intervenções da ativista que por várias vezes referiu a misoginia da classe política. Malalai Joya recordou que o parlamento afegão tem 25% de mulheres, que na sua maioria estão alinhadas com o setor fundamentalista justamente contrário aos direitos das mulheres. E deu muitos exemplos de ataques que demonstram que estão se tornando mais comuns os crimes como violações ou a violência doméstica, bem como a discriminação nos tribunais e leis feitas à medida para impedir as mulheres de trabalhar ou sair à rua sem autorização do marido. "Leis que Karzai assinou para ter umas eleições tranquilas", disse Malalai, que no Afeganistão só sai à rua de burqa e com guarda-costas, "e nem assim estou segura. Assim, como é que podemos falar de democracia?", questionou.

Por Esquerda.net.



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2 comments

  1. André

    Exemplo de coragem!!

  2. André

    Exemplo de coragem!!

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