Para Paulo Freire nenhum botar defeito

As meninas da minha terra tinham duas grandes aspirações na vida: as mais voltadas para atividades intelectuais queriam ser normalistas, coisa difícil num lugar onde, só tinha o curso primário (e estudar fora era...

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As meninas da minha terra tinham duas grandes aspirações na vida: as mais voltadas para atividades intelectuais queriam ser normalistas, coisa difícil num lugar onde, só tinha o curso primário (e estudar fora era caro), e as mais assanhadas queriam ser artistas de circo, de preferência trapezistas, pois estas eram invariavelmente bonitas, vendiam fotografias em que posavam de maiô e deixavam legiões de apaixonados em cada cidade em que passavam.
Por isso, as duas principais brincadeiras de meninas – fora a tradicional “casinha” – eram cirquinhos e escolinhas.
Achavam ótimo reunir algumas crianças menores num cômodo qualquer, com uma tábua servindo de quadro-negro, e ficar lá na frente fazendo pose de professoras.
Dulce e Cleide, no quarto ano primário, resolveram abrir uma escolinha na casa da avó, dona Francisca, que morava só com uma empregada, tão velha quanto ela, numa casa de dezesseis cômodos, em que só cinco ou seis eram usados.
Mas elas queriam uma escolinha bem parecida com a escola de verdade, com alunos meninos e meninas. O mais difícil era isso. Se as meninas de cinco ou seis anos também gostavam de brincar de escolinha, os meninos dessa idade, já machistas, achavam que menino que topasse isso estava contaminado pela mais alta viadagem. Era proibido, no nosso código de ética, gostar de escola. Mesmo quando se atingia a idade de frequentar o grupo escolar, menino tinha que ser levado para lá na marra, só ir à aula por ser uma obrigação, por sinal das mais chatas, e não um gosto ou uma necessidade.
Dulce e Cleide limparam dois quartos contíguos, trouxeram cadeiras, arrumaram tábuas, roubaram giz da escola e estavam prontas, enfim, duas salas de aula. Partiram, então, à caça de alunos.
As vagas femininas foram preenchidas no primeiro dia. Porém, nenhum menino topou a brincadeira.
– Eu não, não sou viado!
– Escolinha? Vê lá se eu sou bobo!
– Nem no ano que vem, quando eu completar sete anos. Não vou a escola nenhuma de jeito nenhum!
– Isso é coisa de mulher!
As pretensas professoras não se conformaram. Pensaram, repensaram, discutiram uma forma de atrair os meninos e foram à luta de novo:
– A gente dá bala e doce de merenda.
Nenhum menino topou, ainda.
Radicalizaram. Partiram para a tentativa extrema, a última. Se não desse certo, desistiriam da brincadeira de escolinha e iam montar um cirquinho, onde os meninos até pagariam com palitos de fósforo para vê-las mostrando as pernas no trapézio. Procuraram novamente os meninos, um por um, dizendo coradas:
– Se você topar brincar na nossa escolinha, na hora do recreio a gente faz bobagem.
Todos toparam, com uma ressalva:
– Se não tiver bobagem na hora do recreio, desisto no primeiro dia.
Primeira aula. As classes cheias, as “professoras” entraram empinadas, fazendo caras orgulhosas e sérias, varinha na mão:
– Meninos!…
– Tá na hora do recreio – gritamos todos de uma vez.
– Não, não! O recreio é só depois que todo mundo aprender o a-e-i-o-u.
– Então ensina logo!
O aprendizado foi rápido. Em minutos, todo mundo sabia ler e escrever a e i o u até de trás pra frente. Então, o recreio. Todo mundo pelado, uma bacanal infantil.
As professoras eram as nossas preferidas, pois os pelos púbicos que começavam a nascer nelas – que eram mais velhas – nos davam mais curiosidade e excitação.
No segundo dia, mal as professorinhas entraram, nos ouriçamos:
– Hora do recreio!
– Isso mesmo, todo mundo já sabe o a-e-i-o-u.
Mas elas informaram:
– Nada disso! Hoje o recreio é depois que todo mundo aprender o ba-be-bi-bo-bu.
Minutos depois já sabíamos o ba-be-bi-bo-bu de cor e salteado. Ficamos sabendo também escrever “o boi baba” e outras coisas afins. No terceiro dia, aprendemos o va-ve-vi-vo-vu, “vovô viu a uva”, e assim por diante.
Em pouco mais de um mês estávamos todos alfabetizados.

(Publicado, com adaptações, nos livros Santa Rita Velha Safada, do autor, e Diálogos – volume 2 – de Paulo Freire e Sérgio Guimarães)



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