Participação da população mestiça é pequena nos movimentos

Fórum – O Dia da Consciência Negra veio como um reconhecimento da população negra de sua raça. O mulato/mestiço tem consciência negra? Deve ter? Almeida – Eu, Eneida, tenho uma consciência negra, mas...

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Fórum – O Dia da Consciência Negra veio como um reconhecimento da população negra de sua raça. O mulato/mestiço tem consciência negra? Deve ter?
Almeida – Eu, Eneida, tenho uma consciência negra, mas não posso obrigar ninguém a ter uma consciência que eu gostaria que tivesse. O mestiço é mestiço por si só. Ele pode se sentir mais branco, como no meu trabalho a Maria (entrevistada de seu mestrado) dizia: eu sei que eu tenho meu lado negro e não posso varrer as coisas para debaixo do tapete, mas muitas vezes eu preciso ser branca. Eu não tenho que cobrar dela como fica sua consciência, é particular dela. A minha particularmente tende pro lado negro. Até porque a parte da minha família negra é muito mais forte.

Fórum – O que é para você ter consciência negra?
Almeida – Ora existe isso, ora não existe. Eu tenho um trabalho que usei como experiência própria. É uma ambiguidade enorme, porque ora eu sou tratada como qualquer uma, ora sou tratada como branca. É logico que quando perguntam pra mim “cadê a patroa?”, não estão me vendo como patroa, mas sim como alguém que não pode ser patroa. Para o mestiço é mais tranquilo, porque muitos de nós não tem visibilidade de negro, mas tem a de branco.

Fórum – O que é o mestiço hoje? Sempre teve a mesma classificação?
Almeida – Eu não posso dizer que sempre teve. A curiosidade de fazer um trabalho sobre isso é a ausência de classificação. O mestiço não tem classificação. Aí veio a pergunta: qual é a minha? Onde eu estou? Porque eu olho e falo: não sou negra, mas também não sou branca. Por isso o título do meu trabalho é “negro não-negro e/ou branco não-branco”. Fica uma dificuldade enorme na classificação. Eu diria que a questão do mestiço é uma dificuldade de se auto-afirmar. É muito mais fácil ser negro. Hoje tem uma polêmica se mestiço pode ou não receber cotas.

Fórum – Quando você diz que é mais fácil ser negro, é na auto-afirmação, mas não na convivência, né?
Almeida – Exatamente. Na questão da convivência, tem uma discriminação que é clara, que todo mundo sabe, ninguém é hipócrita. Por não negar que existe, que eu prefiro batalhar para que não exista mais. Hoje tem um discurso que é o discurso do branco: “não quero me comprometer”. Isso não existe, isso está errado. De fato, isso tá errado, mas isso existe. Virar as costas para isso é grave.

Fórum – Qual é a participação do mestiço nos movimentos negros?
Almeida – Não tem muito, não. Tem pessoas conscientes, mas não o engajamento como existia antes. Eu, particularmente, não milito mais. Pelo fato de não ser militante, não acompanho, mas apoio. O que eu acompanho hoje é a luta por cotas, que eu sou a favor. Mas participação da população mestiça é muito pequena.

Fórum – O mestiço não acaba sendo também uma forma de classificação que acaba sendo menos pior para o negro se colocar na sociedade?
Almeida – Essa coisa de dizer que negro é preconceituoso eu diria que é um discurso branco. É uma forma de não se sentir responsável por uma questão hoje que é a discriminação. Dizer que o negro é racista, não concordo. Isso não acontece. Uma coisa é dizer o quanto eu tenho dificuldade de assumir isso, aí eu pegaria a fala da Maria, que entrevistei no meu mestrado, banca do prof Kabengele (Munanga). Maria dizia o seguinte: “eu não gosto de dizer que sou negra, não”. , ela n assumia sua negritude. E, por não assumir essa negritude, ela falou uma porção de coisas da vida dela, das dificuldades dela e da questão da discriminação. O quanto ser negro, as portas ficam fechadas. Ela tinha medo de olhar pro negro porque o negro era ruim. Que imaginário é esse? Era filha de negro, é esse que ela vai aprendendo. Quem é hoje que tem o poder pra dizer isso? Do mesmo jeito que temos uma ideologia dominante que nos ensina como temos que nos comportar, e que diz que uma coisa existe e outra não existe.

Fórum – É que o próprio professor Kabengele fala do quanto essa ideologia branca dominante é aceita pelo próprio negro, como uma forma pior de dominação. A falta de auto-estima não é um reflexo disso?
Almeida – É. O quanto o dominado diz pra nós que somos negros de alma branca, que podemos esconder o que somos de fato. O quanto é pecado dizer o que eu sou. Somos mestiços de uma forma generalizada e particular, porque eu quero saber a história da minha família, de onde eu vim, quero saber minha historia. Não posso negar que essa historia me é negada, porque diz pra mim que, se sou uma pessoa boa, é porque eu tenho uma alma branca. Isso ainda continua, porque quando pedem pra gente rejeitar o discurso de que existe ainda a discriminação, estão pedindo para eu dizer que se sou boa ou ruim em relação a minha cor, querem que eu negue de fato quem eu sou.

Fórum – Falta então o reconhecimento da população mestiça da sua própria identidade? Como vem essa consciência?
Almeida – Não sei se falta conscientização da população mestiça e temos que culpar a população mestiça por isso. O quanto temos uma ideologia e a forma como ela está sendo vendida. A classe dominante diz como devemos nos comportar, e a gente aceita isso sem perceber. “Olha, negue o que você é”. Na hora que a pessoa percebe que negar o que se é não está certo, aí vem a consciência. A gente aprende a não ter consciência. Somos vítima de uma geração calada, que vem do AI-5 e não pode reivindicar nada. Eu quero que o outro tenha consciência disso, mas não vou atacar porque a pessoa tem ou não consciência.



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