Petróleo: Produtores buscam saída para a crise

Paris, 06/04/2009 – Empresários e governos de países petroleiros se esforçam para proteger o setor diante da queda dos preços em mais de 50%, em relação ao ano passado, e a iniciativa do presidente...

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Paris, 06/04/2009 – Empresários e governos de países petroleiros se esforçam para proteger o setor diante da queda dos preços em mais de 50%, em relação ao ano passado, e a iniciativa do presidente norte-americano, Barack Obama, de incentivar fontes alternativas de energia. Reunidos no Fórum Internacional de Energia, em Paris, ministros, executivos do setor e representantes da Organização de Países Exportadores de Petróleo discutiram sobre como lidar com a atual crise econômica e outros desafios futuros. A Opep, com sede em Viena, é formada por Angola, Arábia Saudita, Argélia, Equador, Emirados Árabes Unidos, Líbia, Nigéria, Irã, Iraque, Kuwait, Qatar e Venezuela.

Ninguém parecia ter muita idéia de quais medidas são necessárias. Inclusive, muitos oradores nesse encontro da semana passada estiveram na defensiva e criticaram Obama por tentar reduzir a dependência dos Estados Unidos do petróleo. Também atribuíram a contaminação ambiental às práticas de consumo e alertaram que o atual preço do petróleo implica menos fundos para as energias alternativas. “Nem os mais inteligentes sabem o que poderá ocorrer nos próximos cinco anos, o que dificulta as previsões”, afirmou Nordine Ait-Laoussine, ex-ministro de Energia da Argélia e presidente do encontro.

“Está claro que a indústria petroleira enfrenta um dos piores momentos de sua história”, afirmou Ai-Laousinne, em referência ao preço do barril (de 150 litros) em torno dos US$ 50, muito abaixo dos US$ 116 de meados de abril de 2008, e mais ainda em relação aos US$ 147 de julho passado. Vários oradores insistiram que o atual preço pode prejudicar o desenvolvimento de fontes “limpas”. A “queda do preço do petróleo não favorece o investimento em fontes alternativas”, disse o ministro de Energia dos Emirados, Moahmmad bin Dhaen Al-Hamli.

No mesmo painel de discussão, o ministro de Energia do Qatar, Abdallah Al-Attiyah, mencionou uma conversa com um “alto funcionário europeu” que estava descontente com o preço do barril porque as empresas já não poderiam subvencionar os biocombustíveis. Os países produtores de petróleo “são culpados quando o preço está alto e quando está baixo. Estou confuso, o que querem que façamos?”, perguntou.

O diretor-geral da anglo-holandesa Shell, Jeroen van der Veer, disse que essa companhia está disposta a considerar fontes alternativas de energia, incluída a eólica. Mas, insistiu que o petróleo e o gás continuarão sendo usados por anos, apesar dos argumentos científicos de que os combustíveis fosseis contribuem para acelerar a mudança climática. “A mãe natureza o colocou ali e nós o retiramos”, afirmou. No mundo há lugar para diferentes tipos de energia.

É responsabilidade dos governos definir quais fontes de energia seus cidadãos usam, acrescentou Van der Veer. “Não são as companhias petroleiras que as determinam”. Os “governos podem gravar o petróleo para que as pessoas não o utilizem e construir usinas nucleares”, afirmou. “Melhores hábitos de condução” economizam combustível, ressaltou o diretor da Shell. Van der Veer recordou que quando jovem dirigia um Citroën 2CV (dois cavalos), de baixo consumo. Não é necessário “um Hummer para ser feliz”, acrescentou. O Hummer é um veiculo todo terreno fabricado pela General Motors com um desenho militar e grande consumo de combustível. A montadora norte-americana está prestes a declarar-se em bancarrota e pode deixar de fabricá-lo.

Por sua vez, o diretor-geral da francesa Total, Christophe de Margerie, se mostrou otimista sobre o aumento do preço no longo prazo, apesar da queda na demanda nos países-membros da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômicos (OCDE), que entre outro reúne os países industrializados. As principais prioridades da Total continuam sendo “segurança, ambiente e mudança climática. Temos de pensar em outras formas de energia e se são mais limpas do que a nossa”, acrescentou.

A companhia francesa foi acusada por organizações não-governamentais por suas operações em países responsáveis por violações dos direitos humanos, como Birmânia e Sudão. Consultado pela IPS sobre a participação da Total nessas nações, de Margerie respondeu: “Minha posição é de que estamos fazendo coisas boas para seus habitantes. Diante da insistência se a presença das petroleiras nesses países não é uma forma de apoio para governos repressores, respondeu: “Pergunte ao povo. Estou orgulhoso do que fazemos porque ajudamos a população”.

Christele Adedjoumon, que trabalha em uma organização que oferece energia renovável às aldeias africanas, discordou dessa afirmação. “Vou todos os anos à África e tudo continua igual. Ainda temos de convencer as grandes empresas petroleiras a destinarem a ínfima quantia de 1% de seus lucros a projetos de energia limpa nesse continente”, afirmou Adedjoumon. Sua organização tem um projeto em Benin para que os moradores de uma aldeia deixem de comprar querosene e destinem a mesma quantia de dinheiro à energia solar. Mas as companhias de petróleo não parecem interessadas em apoiar esse tipo de iniciativa.

O diretor-geral da Shell disse à IPS que sua companhia “pensa nos direitos humanos” quando decide onde investir. “É um assunto muito complicado. Deve-se velar pelos direitos humanos na própria companhia”, afirmou Van der Veer. Sobre Birmânia e Sudão disse: “Não me meto com eles”.

IPS/Envolverde



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