Piñera lança a segunda transição no Chile

O multimilionário Sebastián Piñera, presidente eleito do Chile, será, a partir de 11 de março, o líder de uma “segunda transição”, baseada em uma política de acordos que terá como meta fazer com que...

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O multimilionário Sebastián Piñera, presidente eleito do Chile, será, a partir de 11 de março, o líder de uma “segunda transição”, baseada em uma política de acordos que terá como meta fazer com que o país dê “o grande salto para o desenvolvimento”. Assim declarou na noite de domingo, diante de milhares de partidários que comemoraram sua sólida vitória no segundo turno da eleição presidencial, com 51,61% dos votos válidos, derrotando o candidato oficialista Eduardo Frei Ruiz-Tagle, que teve 48,38%.

A presidente Michelle Bachelet tomou café da manhã com Piñera, em um ritual que nesta oportunidade teve um caráter diferente, já que pela primeira vez ocorre a alternância política com a vitória do candidato opositor desde o restabelecimento da democracia, em março de 1990. A imprensa internacional destacou o outro marco histórico destas eleições: a direita, que co-governou sob a ditadura do general Augusto Pinochet, entre setembro de 1973 e março de 1990, retorna ao poder pelo voto popular, fato inédito desde a vitória de Jorge Alessandri, em 1958.

Diante de aproximadamente quatro mil partidários que celebraram a vitória no centro de Santiago, Piñera disse: “Nesta noite de alegria quero convocar a geração do bicentenário para o maior desafio (…) transformar o Chile no melhor país do mundo”, referindo-se aos 200 anos da proclamação da independência da Espanha, que serão comemorados no dia 18 de setembro. Também prometeu “uma segunda transição, uma nova, com oportunidades para todos, ser um país mais junto, ser um país mais fraterno e capaz de construir uma sociedade de oportunidades, segurança e valores para todos e cada um dos chilenos”.

O político direitista dessa forma marcou diferenças com a primeira transição que, durante 20 anos, dirigiu a centro-esquerda Concertação pela Democracia com os governos dos democrata-cristãos Patrico Aylwin (1990-1994) e Frei Ruiz-Tagle (1994-2000) e os socialistas Ricardo Lagos (2000-2006) e Bachellet (2006-2010). Uma hora antes de seu discurso, Piñeda disse a Bachelet que precisaria de seus conselhos para realizar um bom governo, quando a presidente lhe telefonou para cumprimentá-lo pela vitória nas urnas.

A presidente socialista conta com apoio à sua gestão de quase 80% da população, mas não conseguiu passar essa popularidade para Ruiz-Tagle, que teve um honroso desempenho como representante do bloco oficialista, ferido por uma profunda crise interna. O ex-presidente e filho do ex-mandatário Eduardo Frei Montalva passou para o segundo turno com apenas 29,6% dos votos entre quatro candidatos.

Seu principal oponente nessa ocasião, mais do que Piñera, foi Marcos Enríquez-Ominami, jovem deputado, filho biológico do líder histórico do Movimento de Esquerda Revolucionaria (Mir), Miguel Enríquez, assassinado em outubro de 1974 por agentes da repressão da ditadura de Pinochet. Enríquez-Ominami renunciou ao Partido Socialista (PS) para ser candidato independente. Os 20% de votos que teve no primeiro turno, em 13 de dezembro, contribuíram para a vantagem de Piñera, que assim ficou em uma posição confortável para vencer o segundo turno.

Quatro dias antes do segundo turno, Ominami anunciou um tímido apoio a Frei, e a seu projeto de criar uma nova “referência política” que a partir de agora tentará construir uma “maioria progressista” a partir da oposição a Piñera. Sergio Muñoz, colunista do jornal oficialista La Nación, escreveu ontem que MEO (Ominami), como a imprensa o batizou, teve um “papel tóxico” no primeiro turno e que ajudou na vitória da direita ao “atacar duramente” Frei.

Além dessas reconvenções, os analistas concordam que a Concertación pela Democracia, a coalizão de maior sucesso na história do Chile republicano, está em uma crise terminal, da qual só poderia emergir com profunda renovação de lideranças e estilos de fazer política. Este conglomerado que, com o apoio da esquerda marxista, derrotou Pinochet no plebiscito presidencial de outubro de 1988, tem como eixo a aliança do Partido Democrata Cristão (PDC), com correntes de esquerda moderada agrupadas no PS, Partido pela Democracia (PPD) e o Partido Radical Social-Democrata (PRSD).

Em um gesto destinado a conseguir apoio dos eleitores de MEO, após o primeiro turno renunciaram aos seus cargos os presidentes do PPD, Pepe Auth, e do PRSD, José Antonio Gómez, mas os líderes do PS, senador Camilo Escalona, e do PDC, deputado Juan Carlos Latorre, se negaram a fazer o mesmo. Na madrugada de ontem, cerca de 30 membros da juventude do PDC ocuparam a sede do partido exigindo a renúncia de Latorre, em uma primeira reação que faz prever efeitos em cadeia sobre todos os partidos da derrotada coalizão oficialista, e particularmente no PS.

A principal autocrítica do oficialismo é não ter assumido as mudanças destes 20 anos em uma progressiva perda da capacidade de atrair as novas gerações, em um desgaste que favoreceu Piñera, um político liberal que sempre marcou distância com a figura de Pinochet. De um total de quase 8,3 milhões de eleitores, 7,15 milhões votaram no segundo turno, contra 7,22 milhões que o fizeram no primeiro. Apesar deste relativo aumento da abstenção, diminuíram os votos brancos e nulos, de 3,8% em dezembro para 2,6% no segundo turno.

A vitória de Piñeda ficou mais nítida ao se desfazer a preocupação dos partidários de Frei de que uma alta porcentagem de nulos e brancos acabasse favorecendo o candidato oficialista. No Chile, segundo as leis eleitorais herdadas da ditadura, a inscrição eleitoral é voluntária e o voto obrigatório, o que faz com que mais de dois milhões de maiores de 18 anos não estejam entre os que podem votar. Está prestes a ser aprovada uma reforma para a inscrição automática de todos os maiores de 18 anos e o voto voluntário, o que poderia introduzir mudanças em um ou outro sentido da conduta eleitoral dos chilenos sob o futuro governo de Piñera.

O multimilionário que receberá a faixa presidencial no dia 11 de março não terá um cenário fácil, com um parlamento onde estão virtualmente empatadas as forças da Concertación pela Democracia e da Aliança pelo Chile, o conglomerado direitista que o levou ao triunfo. Assim, um pequeno número de parlamentares independentes nas duas casas do parlamento, aos quais devem ser somados três deputados do Partido Comunista, até agora excluído do Poder Legislativo, serão fundamentais para dar lugar às iniciativas que Piñera propuser.

Do mesmo modo, terá de enfrentar, no interior de sua coalizão, com a poderosa União Democrata Independente, o partido mais votado nas últimas eleições parlamentares, de perfil conservador e momentos fundamentalistas, identificado com a figura do ex-ditador Pinochet. Piñera, líder da Renovação Nacional, o outro partido da Aliança pelo Chile, de orientação liberal, tem em seu currículo uma conturbada história de confrontações com a UDI, que poderão ressurgir em seu governo e que o obrigarão a um complexo e permanente jogo de equilíbrio.

Por IPS/Envolverde 



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1 comment

  1. uriel villas boas

    A recente eleição no Chile mostra uma situação que é incompreensivel para um leigo. Como entender que uma Presidente com mais de 80% de aprovação popular não consiga levar o candidato que apoia a v encer as eleições? E se feita a cvomparação com o que passamos, o que vai ser inevitável, temos alguns pontos que precisam ser destacados. O primeiro deles, sem dúvida, tem a ver com o espaço ocupado pela chamada Concertacion, que ocupou o poder desde a derrubada de Pinochet, um ditador sanguinário. Mas o povo chileno gtem mais nivel de politização do que o brasileiro. E naquele pequeno país ainda tem muito pinochetista. Como ficou demonstrado nesse pleito. Há outra questão, ou seja, alguns segmentos de esquerda, como acontece muitas vezes, se coloca como se o momento fosse revolucionário e não institucional. No Chile lançou um candidato que teve atgé ujma votação razoável no primeiro turno. E na segunda votação não agiu com a mesma ênfase. Outra questão é que o candidato da Concertacion já foi Presidente chileno. Isto ajudou ou atrapalhou? E por fim, a diferença entre os dois candidatos foi muito pequena. Vamos ver como a oposição vai se comportar. Uma pena, mas se perdeu um aliado progressista.

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