Projeto une arte e ecologia no sertão do Ceará

Cantor, compositor, poeta, ecologista. São muitos os papeis de Zé Vicente, um cearense de Orós que ganha o mundo através de sua arte. Atuante em movimentos sociais e em coletivos de artistas, ele coordena,...

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Cantor, compositor, poeta, ecologista. São muitos os papeis de Zé Vicente, um cearense de Orós que ganha o mundo através de sua arte. Atuante em movimentos sociais e em coletivos de artistas, ele coordena, desde 1997, o projeto Sertão Vivo, no sítio Aroeiras, que fica na sua cidade-natal. A ideia dele e dos demais colaboradores é articular atividades culturais com sustentabilidade ambiental.

Quando Zé Vicente iniciava sua carreira, no início da década de 1980, havia uma enorme mobilização dos movimentos sociais, principalmente devido à perspectiva de retorno à democracia institucional, após mais de vinte anos de Ditadura Militar.

No mesmo embalo, homens e mulheres adicionavam poesias em rimas, músicas em ritmos regionais e outros formatos, como cartazes, estandartes e painéis. Após um primeiro contato em 1986, durante o VI Encontro das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), os artistas voltariam a se reunir quatro anos depois, em João Pessoa (Paraíba). Nasci ali o Movimento de Artistas da Caminhada (MARCA), que se mantém, hoje, de forma "mais afetiva do que efetiva", como diz o polivalente Zé Vicente.

Ele foi um dos protagonistas desse processo, utilizando suas criações como expressão de identidade e afirmação cultural, ultrapassando fronteiras brasileiras. Em 2002, sua trajetória foi reconhecida pelo Prêmio Poesia e Liberdade, do Centro Alceu Amoroso Lima para a Liberdade e da Universidade Cândido Mendes, no Rio de Janeiro. Ele recebeu a homenagem juntamente com a poetisa mineira Adélia Prado.

O projeto Sertão Vivo foi um dos convidados para o Seminário Boas Ideias em Comunicação – Experiências e Sustentabilidade das Mídias Independentes, que aconteceu de 2 a 4 de abril em Fortaleza (CE). O encontro foi promovido pela ADITAL em parceria com o Banco do Nordeste do Brasil (BNB).

Adital – Que atividades têm sido promovidas historicamente pelos Artistas da Caminhada? Como está hoje o movimento?
Zé Vicente –
Os Encontros Gerais, com mostras de artes, aconchegos locais, presenças em eventos da Caminhada das Comunidades e de outros movimentos sociais. Hoje, o MARCA não tem se reunido como movimento. Garantimos uma certa comunicação entre artistas, e alguns grupos continuam se encontrando e atuam em nível local, numa sintonia com o espírito do MARCA. Somos mais afetivos do que efetivos.

Adital – Nesse processo, como se dá a fusão entre a criação artística e o compromisso com a transformação social? O que seria o conceito de Arte-vida?
Zé Vicente –
Somos todos artistas vindos e em ligação com nossas comunidades de origem, quase sempre no meio popular, seja rural, seja nas periferias das cidades. Isso já indica que nossas criações têm como fonte original os sonhos, as linguagens, os temas advindos de nossa base social e visa a transformação da mesma.

ARTE-Vida tem sido, em muitos momentos, o nosso lema preferido, sem o "e" no meio. Pra gente é importante tocar na superação da dicotomia "arte e vida", do mesmo jeito que "vida e fé" etc. A arte traz sim e sempre o que pode ser mais belo e encantador da vida e suas fontes sagradas. É festa e grito ao mesmo tempo. O Gonzaguinha expressou com genialidade e simplicidade essa nossa busca, na sua linda canção: "O que é, o que é! – é a vida…é bonita,é bonita e é bonita!".

Adital – Quando e em que contexto foi dado início ao projeto Sertão Vivo? Quais foram as primeiras atividades?
Zé Vicente –
O Projeto Sertão Vivo deu seus primeiros passos em 1996 com oficinas de desenhos e cartões ecológicos monitoradas pela artista plástica Elda Broilo; cuidados com a saúde através das plantas medicinais, cultivo de hortas e plantio de árvores nativas e frutíferas, na área em volta da casinha adquirida de uma tia, lá no meio da roça, no sítio Aroeiras, em Orós, centro-sul do Ceará.

Naquele contexto de desafios, na caatinga agredida, juntamente com alguns parentes e amigas (os) artistas, fomos nos encantando com a possibilidade de cuidarmos da vida em nós e no meio ambiente, com artes. Optamos por um caminho comunitário, informal, no qual o exercício da partilha, as ações voluntárias e o convívio entre o grupo de artistas e as pessoas que vivem ali sejam a base principal. Hoje realizamos atividades praticamente a cada mês, mantidas pela partilha e doações de pessoas que, como nós, estão sabendo que precisamos, com urgência, unir e trocar saberes, cultivar e cuidar da terra e de tudo o que é vivo.

Adital – De que forma é articulada sua produção pessoal, como músico e escritor, com as ações do projeto?
Zé Vicente –
Considero o Projeto Sertão Vivo a minha mais apaixonada composição, enquanto busco unir as notas da memória de meus ancestrais com os desafios gritantes que vêm do meio ambiente, com a capacidade e disposição solidária de artistas e pessoas próximas. Ali, em Aroeiras, buscamos sentir e celebrar com e como arte, toda a sinfonia do vento nas árvores, dos cantos de todos os passarinhos e seres do dia e da noite, dialogando com nossos poemas, toques com pinceis e instrumentos musicais, temperos nas panelas etc. Quem vive um momento por lá vai sentir com clareza o que tento dizer.

Adital – Por que foi pensada a Jornada de Arte na Roça? O que integra a programação? Onde ela acontece e quem a organiza? Zé Vicente – Durante o ano, temos três momentos de ações de arte-vida em destaque: a Jornada de Artes na Roça, acontecida sempre na última semana de março, coincidindo com o novenário a São José, tradição iniciada pelos meus pais, em 1952, sem falhar um ano. Temos realizado oficinas e vivências de canto, poesia, pinturas, documentação fotográfica, vídeo, dança, teatro, hortas etc.

Em junho, por ocasião dos Festejos Juninos,realizamos o Arraial de Artes na Roça, mais curto – uns três dias de atividades -; e, em dezembro, o Arraial do Menino Deus, com Oficina de Avaliação e Planejamento e celebração popular do natal.

Adital – Que instituições dão apoio?
Zé Vicente –
O convívio com as famílias e a troca de experiências e artes é sempre a nota principal. Um grupo que chamamos de Arte-Vida, com alguns de nós em Fortaleza e uma equipe local, assumiu a dinâmica da programação. Os apoios são informais, já que não somos ainda uma ONG, e vêm de algumas pessoas e entidades que nos oferecem ajuda em dinheiro, materiais didáticos, alimentos etc. Em algumas atividades, esses apoios representam até 70% dos investimentos. O restante é garantido pelos recursos próprios dos shows que faço.

Adital – Como o senhor vê o papel da comunicação, no sentido amplo, nas atividades promovidas pelo projeto Sertão Vivo?
Zé Vicente –
Em alguns momentos temos convidado e contado com a presença de Honório Barbosa, repórter do Jornal Diário do Nordeste, que faz uma boa reportagem, o que repercute bem. Algumas rádios da região, o jornal a Voz das Comunidades, de Recife, a ADITAL e algumas revistas, como Família Cristã e Mundo Jovem, têm nos oferecido algum espaço.

A Comunicação é imprescindível para ir espalhando elementos e testemunhos concretos para uma cultura de vida, de paz, de respeito e cuidado com a terra e com a Vida. O Sertão Vivo, como projeto tão pequeno, num lugar com menos de 20 famílias, chega a atingir, com nossas atividades, cerca de 400 pessoas naquela região. E é a Comunicação que pode realizar a tarefa de torná-lo mais visível e chegar a muitos olhos e corações.

Adital – Que outras iniciativas estão previstas para este ano?
Zé Vicente –
A Jornada de Artes na Roça [no final de março] com o lema "O meio ambiente é a casa da gente – vamos cuidar com Arte". De 17 a 19 de abril, teremos a terceira Oficina do nosso Programa Cuidando da Saúde,com massoterapia e fitoterapia, em parceria com o Centro Holístico Santa Tereza. Em junho, teremos o Arraial de Artes.

As entrevistas do projeto "Boas Ideias em Comunicação" são produzidas com o apoio do Banco do Nordeste do Brasil (BNB).

Com informações da Adital.



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