Qual a verdadeira cor do Partido Verde?

Era para a reunião ter começado às 18h, mas até as 19h do último dia 19 de janeiro apenas cinco dos 21 membros da coordenação de campanha de Marina Silva haviam chegado ao diretório...

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Era para a reunião ter começado às 18h, mas até as 19h do último dia 19 de janeiro apenas cinco dos 21 membros da coordenação de campanha de Marina Silva haviam chegado ao diretório estadual do partido. Na sala de espera do modesto sobrado todo pintado de verde na Vila Mariana, em São Paulo, este repórter foi confundido várias vezes com um dos “dirigentes”. Pudera. Estavam todos se conhecendo. “Prazer, Marcos Novaes”, disse o pesquisador, ex-vereador e ex-candidato a prefeito de Petrópolis pelo PHS (hoje no PV) a Mara Prado, secretária de Comunicação da legenda. Por último, chegaram os caciques: Alfredo Sirkis, José Luiz Penna, Eduardo Jorge, Marco Mróz… Só não apareceram por lá Zequinha Sarney, Fernando Gabeira e a própria Marina.

Formada em agosto no concorrido ato de filiação de Marina ao partido, essa coordenação foi uma das exigências para o embarque da ex-petista na disputa pelo Planalto. O grupo é sui generis: 10 pessoas indicadas por ela, 10 pela máquina do partido e, na ponta da mesa, o vereador paulistano José Luiz Penna. É ele quem resume o papel real que o grupo terá no andar da carruagem. “Não vai ter democratismo na campanha. O comando será enxuto, formado por técnicos e gente que conhece a realidade do PV”. É, pode ser. Mas não há como negar que as ausências são mais emblemáticas que as presenças.

O PV de hoje só faz lembrar o PT de ontem na modéstia de suas acomodações e na escassez de recursos. Seus principais quadros país afora não têm o menor entusiasmo em levantar a bandeira ou sair por aí colando panfletos em postes com cola feita à base de farinha. Muito pelo contrário. O partido que acolheu Marina Silva é uma confederação que mistura pequenos caciques, “igrejeiros” e celebridades locais que correm em raia própria, exiladas do espectro tradicional. Basta olhar para o mapa dos verdes Brasil afora. No eixo Rio – São Paulo os verdes não se movimentam sem antes consultar José Serra. Sem cerimônia, o governador usa a sigla como linha auxiliar de seu projeto de poder. Tanto que se apressou a entrar em cena pessoalmente quando a aliança em torno de Fernando Gabeira no Rio ameaçou naufragar. Em São Paulo, estão formalmente no governo. E um dos coordenadores da campanha de Marina, Eduardo Jorge, é secretário de Gilberto Kassab e homem de confiança do governador. O mesmo vale para Minas Gerais, onde Aécio Neves é quem define a agenda dos verdes. “Não temos esse cartesianismo de esquerda e direita. Trata-se de um cartesianismo equivocado. O que buscamos é o viés programático. Essa história de estarmos próximos dos tucanos é uma visão do eixo Rio-SP e não se reproduz no país todo. No Paraná estamos mais à esquerda que o PT, próximos ao Requião. O PV de lá tem outra origem, mais à esquerda”, pondera Marco Antônio Mróz, da executiva nacional do PV e secretário de Relações Internacionais.

O “incontrolável” Fernando Gabeira Bastam apenas três toques para que o sempre acessível Fernando Gabeira atenda a chamada. O repórter quer saber como andam as coisas no front, uma vez que o PV entrou definitivamente no mapa da cobertura eleitoral desde o lançamento de Marina Silva. A surpresa é grande quando o deputado, estrela maior da sigla, afirma que desistiu até mesmo de disputar o Senado para renovar o mandato na Câmara. A conversa foi reproduzida no dia seguinte no Estadão. “Com Marina, ficou bem claro que eu não poderia ter apoio de dois candidatos a presidente se concorresse ao governo. Todos em volta de mim apoiariam o Serra, e isso passaria um recado ambíguo ao eleitor”.

A declaração fez acender o sinal amarelo no Palácio dos Bandeirantes. Sem Gabeira, José Serra ficaria completamente sem palanque no Rio, um dos estados onde o tucanato mais sofre com a ausência de quadros. Até então, Serra acreditava que a fatura ali estava resolvida: o PSDB indicaria o vice, o DEM alguém ao Senado. A pretexto de lançar uma publicação da Unesp, o presidenciável foi a contragosto à capital fluminense (ele detesta ter de resolver esse tipo de problema). O primeiro passo foi fazer as pazes com o ex-desafeto César Maia. O segundo? Conversar com Gabeira no campo dele.

Da conversa teria saído uma promessa: em caso de derrota no Rio, ganharia uma embaixada em Paris. O acordo vazou e, claro, foi prontamente negado. Coincidência ou não, Gabeira surgiu no dia seguinte no noticiário dizendo que sim, topava disputar com Sérgio Cabral. Em off, um alto dirigente do PV fala sobre a relação de Gabeira com o partido. “Ele só pensa em três coisas: nele, nele e nele. Fez toda essa negociação e sequer ligou para a Marina…O cara é incontrolável. Não dá para engolir o César Maia no Rio.” Mais tarde, outro dirigente, Alfredo Sirkis, externou esse sentimento. E conseguiu pelo menos adiar o desfecho. A movimentação entre tucanos e verdes foi tão ostensiva que afugentou o PSOL, que negociava uma aliança e estudava indicar Heloisa Helena como companheira de Marina. Para Fórum, um verde de alta patente faz o resumo da ópera: “A única coisa certa é que Marina jamais subiria no palanque de Dilma. Não há nenhuma possibilidade de composição com ela no segundo turno. As mágoas são muitas ali, e recíprocas. Marina foi bombardeada quando ministra”. 

Ambientalistas, pero no mucho É difícil encontrar um ambientalista de verdade na bancada de 14 deputados do Partido Verde na Câmara. Por medo da cláusula de barreiras, o partido abriu a porteira em 2006, cedendo espaço a figuras sem nenhuma identificação com a causa. Entre eles está um certo doutor Talmir, que coordena a Frente Parlamentar contra a Legalização do Aborto (sendo a legalização do aborto uma bandeira histórica do partido), Antonio Roberto, que tem um consultório sentimental em Minas Gerais; Edgard Mão Branca, cantor de forró…

Há entre os verdes até quem defenda a construção de hidrelétricas na Amazônia. "Não existe uma relação orgânica do PV com o movimento ambientalista. O partido no Brasil passou por vários problemas e tornou-se uma legenda controversa, quase de aluguel", dispara Mario Mantovani, dirigente do S.O.S. Mata Atlântica. Militante histórico, ele ressalta, porém, que existe sim um movimento "marinista" forte, mas avisa. "Não existe uma relação histórica do movimento ambientalista brasileiro com o PSDB, mas com o PT, berço da própria Marina. Se o PV unir-se ao PSDB perderá o apoio que ganhou nesse meio. Será um desastre". 

Origem na Tasmânia O primeiro PV do mundo surgiu na Tasmânia, em 1972, mas foi na Suíça que os verdes conquistaram seu primeiro mandato, com Daniel Brelós, em 1979. Na década de 1990, a ideia ganhou a Europa definitivamente e os verdes passaram a ser determinantes em vários países. “Hoje existem 114 PVs, com diferentes níveis de organização, divididos em quatro blocos: Ásia/Oceania, Américas, África e Federação Europeia. No Tibet, por exemplo, existe o partido, mas não o país", explica Marco Mróz, secretário de Relações Internacionais da sigla.

No Brasil, o Partido Verde nasceu no Paraná em 1982, quando o candidato a deputado federal pelo PTB Hamilton Vilela de Magalhães utilizou em sua propaganda o nome do Partido Verde e uma baleia como símbolo. Mas foi em 1986, no Rio de Janeiro, que escritores, jornalistas, ecologistas, artistas e ex-exilados políticos inauguraram o partido de forma consistente. O grupo pioneiro foi formado por Alfredo Sirkis, Herbert Daniel, Guido Gelli, Lucélia Santos e Fernando Gabeira.

Entrevista: "Serra e Dilma são sociais democratas"
José Luiz Penna, vereador paulistano, é presidente nacional do PV. Conhece como poucos o mapa do partido e participa de todas as grandes decisões. Penna deu a seguinte entrevista à Fórum.

Fórum – Esse grupo com 21 pessoas vai ter agilidade para tomar as decisões na campanha da Marina?
José Luiz Penna –
Vai haver um grupo de comando de campanha. Não vamos fazer um democratismo nas decisões.

Fórum – O PV está mais próximo de quem: Serra ou Dilma?
Penna –
Não temos essa visão de que sejam forças tão distantes. Ambos são sociais democratas. Para nós, não existe tanta diferença entre eles.

Fórum – O PV é social-democrata?
Penna –
Não somos sociais-democratas, somos verdes. Somos uma corrente própria, com uma consciência planetária. Nossa natureza é outra.

Fórum – O Eduardo Jorge, secretário de Kassab, está na coordenação da campanha de Marina. Ele é muito ligado ao Serra…
Penna –
Isso é papo de inimigo…

Fórum – E o Juca Ferreira? Qual o papel dele hoje no PV?
Penna –
A gente tem tolerância com as diferenças de opinião, mas a figura política dele é isolada. Nós tocamos nosso barco.

Fórum – César Maia pode ser uma barreira à aliança no Rio?
Penna –
Acho que está resolvido. É tudo uma questão de adequar os espaços. No Rio, o vice do Gabeira será do PSDB, não do DEM. E lançaremos a vereadora Aspásia (Camargo) ao Senado. Maia e Alfredo (Sirkis) estiveram juntos em várias situações de governo. Houve um desgaste e o partido respeita isso. A situação do Rio é muito específica.

Essa matéria é parte integrante da edição impressa da Fórum 83. Nas bancas.



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1 comment

  1. dom quixote

    CARTA DE UM PROFESSOR QUIXOTESCO PARA A POPULAÇÃO Greve sempre foi o ultimo recurso do trabalhador – acarreta diversos problemas além do stress psicológico. Quando falamos de greve de professores a situação é ainda pior, pois prejudica diretamente numa grande parte da sociedade que são os alunos e por conseqüência toda sua família… Exatamente por isso escrevo esta carta, com a sensibilidade e a consciência de que é preciso informar corretamente o que esta levando os professores a tomar atitude tão radical. Ao mesmo tempo em que o governo diz que professor que falta menos ganha mais, ele proíbe muitos professores de trabalhar – alguns só poderão trabalhar ano sim, ano não- Se observarmos este ano, nossos alunos já começaram perdendo aulas por falta de professores – que fique claro; NÃO PORQUE O PROFESSOR NÃO QUER TRABALHAR, E SIM PORQUE ELE ESTÁ PROIBIDO DE TRABALHAR . Então, dizer que esta greve prejudica os alunos é tão certo quanto dizer que o governo também está prejudicando-os, com a diferença de que o professor volta da greve e repõe as aulas, já o governo ganha milhões economizando ao não pagar professores que são proibidos de trabalhar e cortando o ponto dos grevistas que já, ganhando muito pouco, também precisam sobreviver. Está claro que há uma economia enorme de dinheiro que, destinado a pagar os educadores são desviados para sei lá onde… pense um pouco… campanhas políticas? Meias e cuecas? Panetones? Agora pergunto a você que tem filho na escola : – Há dois professores nas salas de primeiras series? (Já sei a e resposta … ) E digo mais, logo não haverá nenhum… Muitos jovens não querem essa profissão e muitos que já se formaram estão em busca de outro ramo profissional – Infelizmente não vejo como retroceder esta situação visto que a carreira de professor é a mais marginalizada por toda a sociedade. Culpa de quem? De todos sim, inclusive da sociedade que sempre vê o professor como incapaz – é claro que esse quadro fica cada vez mais forte, quando o governo resolve pisar cada vez mais sobre a classe, tendo toda a mídia comprada ( Com nosso próprio dinheiro!) – Obs : DINHEIRO MEU E SEU! Ora, assim como há bons profissionais também há maus em todas as profissões – você se lembra de seus antigos professores? conhece os professores de seus filhos pessoalmente ou apenas sabe o que seus filhos falam sobre eles? – faça uma avaliação pessoal antes de jogá-los todos no mesmo saco! – O que destaco aqui é que você tenha uma consciência critica segundo suas próprias experiências – deixando as frases prontas para quem é ignorante no assunto. Eu por exemplo, sou ignorante quando se trata de política… repito as mesmas frases feitas : “políticos são todos corruptos”… “ se chegou lá é porque já roubou bastante”…etc… Ser ignorante significa ignorar… Eu como muitos ignoro a política, portanto sou ignorante no assunto- isso porque é um assunto que nos aborrece e hoje, com tantos aborrecimentos pessoais preferimos sair do assunto com as frases feitas…Mas lembre-se que não é com frases feitas que se modifica as coisas, pelo contrario, a ignorância em determinado assunto é que faz de nós marionetes principalmente quando se trata de política. Como professor sempre preferi construir consciência critica, em vez de apenas passar conteúdos escolares para meus alunos, visto que uma pessoa critica sabe exatamente onde quer chegar na vida. Exemplo disso é nosso presidente que, com pouco estudo e muitas manifestações publicas chegou onde chegou – isso porque ele desenvolveu sua capacidade critica junto com o conhecimento político necessário que precisava para tanto. Por isso todos devemos nos politizar, antes de colocarmos o voto na urna, se quisermos que realmente as coisas mudem. Podemos começar analisando a vida política dos candidatos de maneira mais profunda e não apenas lendo folhetos e assistindo propagandas políticas pois, sem duvida nenhuma, através dessas propagandas, todos os candidatos são perfeitos…” ninguém fala mal de si próprio “- veja a propaganda do nosso governador que aparece a cada cinco minutos em todos os canais das TVs…Como tudo é lindo! Não se esqueça que é paga por você e por mim ! Sobre isso o governador diz que não é propaganda política, diz que é uma prestação de contas… Acho que pensa que somos idiotas…Ai vem ele dizendo que a greve dos professores é política. Isso mostra a falta de argumentos para se defender e colocar mais uma vez o professorado como interesseiro e , é claro, desviar o olhar da população para o que realmente acontece e assim ter mais caixinha para sua campanha! Ai vem ele dizendo que professor que trabalha mais, ganha mais, nos oferecendo a oportunidade remota de fazermos uma avaliação para tentarmos conseguir aumento salarial – bem, o que ele não esclarece é que para o professor poder fazer a dita prova, ele tem que estar trabalhando a quatro anos ( no mínimo )numa mesma escola – ora, não é o professor que escolhe, ele só pode pegar aulas onde há aulas… se estou há três anos numa mesma escola e de repente fecha-se classes ou diminuí-se as aulas dessa mesma escola e eu tenho que pegar aulas em outra escola para não ficar desempregada…pronto…não posso fazer a prova que poderia aumentar o meus salário (que a cinco anos permanece o mesmo )( ISSO PORQUE SEGUNDO O GOVERNO “NÃO HÁ INFLAÇÃO”) – me responda você: não há inflação? Ou não é você que faz as compras em supermercados? Também estarei excluído da chance de fazer a prova se por infelicidade eu precisar tirar uma licença médica- por exemplo, se eu sofrer um acidente e precisar ficar internado também perco o direito de ter aumento salarial – e tem mais…se eu conseguir, após quatro anos numa mesma escola, sem ter faltas (ISSO INCLUI NÃO TER FICADO DOENTE) fazer a prova, ainda que eu consiga ir muito bem, apenas vinte por cento dos aprovados terão aumento . Você pode imaginar a pressão psicológica a que estamos expostos? Fora o dinheiro ( MEU E SEU ) que vai para a preparação dessas provas. Bem, é mais fácil desviar nosso dinheiro criando provinhas e cursos (OFERECIDOS EM HORÁRIOS SEMANAIS) –o que impossibilita a freqüência , pois nós professores ministramos aulas nos três períodos . Se cheguei ao ponto de escrever esta carta é porque, em25 anos de trabalho, nunca presenciei tamanha ditadura disfarçada de democracia – é preciso fazer algo e isto é o pouco que posso fazer- faça o seu pouco também… analise e procure saber realmente o que está acontecendo – se nós professores tivermos o apoio da população, essa situação acaba logo , lembre-se que os movimentos dos estudantes CRITICOS , DIRIGIDOS POR PROFESSORES também críticos ,derrubou a ditadura e tirou o Fernando Collor da presidência … mas ainda há muito por fazer –não adianta uma democracia mentirosa que permite tanta pouca vergonha quando s

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