Qualidade de crescimento do Brasil é instável, segundo novo indicador do IPEA

O Instituto de Pesquisas Econômicas Avançadas (Ipea) lançou, no dia 26 de março, um novo indicador econômico: o índice de Qualidade do Desenvolvimento (IQD). Composto de outros três índices: o Índice de Qualidade do...

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O Instituto de Pesquisas Econômicas Avançadas (Ipea) lançou, no dia 26 de março, um novo indicador econômico: o índice de Qualidade do Desenvolvimento (IQD). Composto de outros três índices: o Índice de Qualidade do Crescimento, o Índice de Qualidade da Inserção Externa e o Índice de Qualidade do Bem-Estar.

 

O IQD divulgado em março registrou 225,4, um índice considerado instável com relação à qualidade do crescimento do país. O índice de qualidade do crescimento registrou 222,8, o de qualidade do bem-estar, 287,0, e o de inserção externa, 182,4.

Os três índices têm o mesmo peso na composição do IQD, que varia de 0 a 500. A escala estipulada indica que, se o IQD fica entre 400 e 500 pontos, o crescimento é significativo, há distribuição de renda e uma melhor inserção externa. Um IQD entre 300 e 400 é um nível bom, e indica um crescimento menor, com alguma distribuição de renda e pouca inserção externa na economia mundial. De 200 a 300,o IQD é considerado instável, indicando que o crescimento, a distribuição de renda e a inserção externa não evoluem na mesma direção. Entre 100 e 200, o índice é considerado ruim e aponta para um crescimento nulo ou insignificante, sem distribuição de renda e com piora na inserção externa. Abaixo disso, há retrocesso econômico e social e "declínio do desenvolvimento".

O índice foi criado para compreender como o Brasil se desenvolve e que elementos ele incorpora e ignora em seu desenvolvimento. “Queríamos saber que tipo de tipo de evolução econômica e social o Brasil está vivendo e se é sustentável a longo prazo, se significa melhoria de vida das pessoas e se significa perspectiva boa pro Brasil no cenário internacional”, afirma Ricardo Amorim, pesquisador do Ipea. Os três índices que contemplam essas preocupações têm o mesmo peso na composição do IQD. De acordo com Ricardo, a relação equitativa entre os índices é devido a uma adequação estatística, e diz que não houve nenhuma teoria econômica em sua formulação.

O Ipea realizou cálculos do IQD retroativos a 2004, e notou que o último índice registrado, correspondente ao mês de janeiro de 2009, registrou uma queda abrupta do desenvolvimento. Rogério sustenta que a queda traz resquícios das baixas taxas de desenvolvimento econômico registradas em dezembro de 2008, resultado da crise internacional deflagrada no ano passado. Até o fim de 2007, o IQD registrou altas consecutivas, até se estabilizar no fim do ano. No ano seguinte, o índice começou a registrar quedas.

“A qualidade de inserção externa vinha bem, devido ao aumento do preço das commodities e a uma recolocação das empresas brasileiras no exterior, depois do grave problema de câmbio nos anos 1990”, analisa Rogério. O aumento das commodities no início de 2008, porém, teve efeitos sobre a inflação, quando o Banco Central (BC) resolveu elevar os juros. Rogério acredita que a decisão se baseou numa interpretação equivocada de que o aumento da inflação era resultado da elevação da demanda interna. “Na verdade, houve um aumento de preços lá fora”, declara.

Devido à defasagem, que há entre a mudança dos juros e seus efeitos na economia, a queda no crescimento começou a ser mais sentida somente no fim do primeiro semestre, quando a curva de preço das commodities inverteu e passou a registrar baixas. Houve uma diminuição dos investimentos, agravada com a queda na exportação de manufaturados por conta da valorização cambial e na queda dos termos de troca.

Previsão
Para Rogério, os baixos índices registrados em janeiro não serão piores nos próximos meses. “Dezembro foi um mês muito ruim, mas ele não se repetiu e nem tende a se repetir”, calcula. Para os próximos índices, de fevereiros e março, a serem divulgados em abril e maio, espera-se ao menos uma estabilização do IQD. Em dezembro, segundo aponta Rogério, a piora foi causada principalmente por conta do alto desemprego registrado. “Espero que chegue a uma situação que não comprometa os ganhos adquiridos até agora na economia brasileira”, afirma.

Índices sociais
O que impediu, segundo o pesquisador, o índice de qualidade do desenvolvimento de registrar números menores foi o Índice de Qualidade do Bem-Estar, que leva em conta índices mensais de renda e trabalho, como o relativo à formalidade do trabalho, ao desemprego, à mobilidade das pessoas (se ganham ou perdem renda em termos reais), à taxa de pobreza e ao Gini, que mede a desigualdade. Dados relativos à educação e saúde, pro exemplo, não estão inclusos porque seus registros são feitos anualmente, o que impede a inserção do cálculo mensal do IQD.

Na análise de Rogério, a alta desse índice se deve a três fatores: crescimento econômico, programas sociais do governo, e aumento do salário mínimo. Para ele, os programas tiveram impacto fundamentalmente nas regiões mais afastadas do país, mas isso não é um mérito do governo: “isso nem é mérito do governo, é coisa prevista na Constituição. O mérito do governo está em fazer com que esses benefícios tenham um valor de compra bom”, pensa. A elevação do mínimo, em sua visão, representou um papel fundamental no aquecimento da demanda interna e conseqüentemente da produção.

Meio ambiente
Um componente inovador no cálculo desse índice é o fator ambiental. Embora o Ipea ainda encontre muitas dificuldades em transformar registros de danos ambientais em números para o cálculo do IQD, Rogério acredita que incorporar a questão ambiental ao se medir a qualidade do desenvolvimento foi um grande passo para se pensar o próprio desenvolvimento. “Não tem mais como falar em crescimento sem falar em destruição ambiental”, coloca.

A dificuldade, porém, é de conseguir os dados para o cálculo. “Os dados são mínimos, não conseguimos dados com qualidade e periodicidade ideal, nem temos fontes”, reclama Rogério. O Instituto de Pesquisas Tecnológicas (Inpe) fornece dados mensais de queimadas e, junto à Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental (CETESB) de São Paulo, fornece dados de emissão de carbono mensais em toneladas. Os dois fatores são os únicos que contam na questão ambiental, acrescentada no cálculo do Índice de Qualidade do Crescimento.



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