Quando o sonho não se torna pesadelo

Interior de Pernambuco, Itapetim, quatro da manhã de algum dia de novembro de 1975. Alexandrina levantou e viu a caçula despertar junto. Valdirene, a menina de três anos, estava acostumada a acompanhar a mãe...

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Interior de Pernambuco, Itapetim, quatro da manhã de algum dia de novembro de 1975. Alexandrina levantou e viu a caçula despertar junto. Valdirene, a menina de três anos, estava acostumada a acompanhar a mãe todas as manhãs até a sua cabra de estimação. Depois, com a mamadeira na boca, voltava à cama para um novo cochilo. Mas naquele dia não teve leite: Alexandrina abraçou Val, como a chamava, chorou discretamente e ninou a pequena que voltou para seu sono sem saber o pesadelo que seguiria. A mãe não deixou bilhete, talvez porque não soubesse escrever. Simplesmente entrou no ônibus com as lembranças de um marido alcoólatra e a esperança de uma vida melhor. “Eu sabia que o mundo não era só aquilo”, lembra hoje. Depois de três dias, Alexandrina pisava no Rio de Janeiro.
Mas esta história poderia começar assim: província de Azuay, Equador, 1990. Patrícia, com apenas quatro anos, já havia se esquecido do pai que partira três anos antes para os Estados Unidos quando a mãe disse que ia fazer compras. À noite chegou e as sacolas não vieram. Carmem sabia escrever mas, por azar, não sabia cantar o hino da Guatemala. Assim, depois de cruzar toda a América Central por terra, foi deportada no México. Tentou convencer a migra que era guatemalteca para voltar só um pouquinho no mapa mas, como não pôde cantar o hino de sua suposta nação, foi mandada de volta para o Equador. A pequena Patrícia – da mesma forma que Val negava os “cheiros” enviados por Alexandrina nas cartas que ela ditava para a prima escrever – não fez muito caso com o retorno de Carmem. Outros dois meses passariam até que a mãe de Patrícia, depois de desbravar novamente a América do meio, cruzasse o rio Bravo e chegasse ao EUA.
Patrícia e Valdirene, crianças das zonas pobres de seus países sul-americanos, nascidas em famílias rurais e com pouco estudo, sofreram igualmente os efeitos da desintegração familiar – talvez a mais brutal das conseqüências da emigração feminina. Mas, para além da dor da infância e da adolescência, as duas integrantes da chamada geração 1.5 – denominação utilizada para aqueles que não nasceram no local de destino da emigração mas se mudaram com menos de 13 anos – não tiveram que enfrentar o percurso difícil de suas mães, a chegada num mundo totalmente desconhecido e longas horas de trabalho qualquer para poder enviar dinheiro para seus filhos. Embora tenham amargado a saudade, Patrícia, hoje com 22 anos, e Val, com 36, aprenderam uma coisa: “filho, só depois que estiver bem profissionalmente”, me explica uma em espanhol e outra em português, as duas em Nova Iorque. Além do inglês fluente, as duas concretizaram um sonho bem distante do lugar onde nasceram: mais de 15 anos de sala de aula.
“Se observarmos as crianças imigrantes, elas são exitosas se comparadas aos seus pais ou aos conterrâneos que ficaram”, completa John Mollenkopf, professor da Universidade da Cidade de Nova Iorque. Os números realmente mostram isso. Nos Estados Unidos, da primeira geração de imigrantes asiáticos, 77% dos adolescentes entre 16 e 20 anos estão na escola. Entre os brancos (vindos do Canadá, Europa e Austrália), a proporção é de 72%; já entre os centro e sul-americanos a porcentagem cai para 61%, proporção que cai ainda mais considerando-se os jovens mexicanos: apenas 40%. Se observarmos os adolescentes da segunda geração, os filhos de migrantes, os números são melhores. Enquanto os brancos mantêm a mesma média, os asiáticos na sala de aula são 79% do total, os latinos chegam a 72% e os mexicanos, 64%. Na idade universitária, entre 21 e 25 anos, a diferença entre primeira e segunda geração de latinos na escola é ainda mais dramática: enquanto apenas 7,3% dos mexicanos da primeira geração e 22,4% dos demais latinos estudam, na segunda geração a porcentagem salta para 24,4% e 38,8% respectivamente.
No Brasil, Alexandrina nem teve que andar tanto para garantir mais ensino para a caçula dos sete filhos vivos. A migração do Nordeste brasileiro para o sul pode em boa medida ser comparada com a mexicana para o norte, com a nicaragüense para a Costa Rica ou a boliviana para a Argentina. A massa que parte é de cidadãos com baixa escolaridade e bem pouco dinheiro, que vão para os lugares mais próximos e com melhores recursos. Na Cidade Maravilhosa, a pernambucana que deixou a casa e os nove filhos para trás cuidou do apartamento e das crianças alheios. Quase três anos depois, sua caçula Val seguiria para o Rio ficar junto dela.
Chegando lá, a sertaneja de cinco anos foi morar num luxuoso conjunto residencial na Gávea, onde a mãe trabalhava. Nadava com as crianças ricas na piscina de segunda a sexta e jogava queimada no final de semana com a garotada da favela onde morava. “Era muito difícil entender quem eu era. Mas por outro lado tinha exemplos diferentes e via que as crianças da favela só conheciam aquela realidade. De alguma forma, pude optar e uma coisa sabia: não queria morar ali”, conta Val andando pelas ruas de Manhattan à noite, depois de lembrar de um Sete de Setembro em que, no caminho do ponto de ônibus no Rio de Janeiro, cruzou três corpos do tiroteio da noite anterior.

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