Quem virá depois de Bachelet?

Já faz tempo que a direita chilena não sabe o que é governar. O último conservador a ocupar o Palácio de La Moneda foi Augusto Pinochet, cuja ditadura, em menos de 20 anos, contabilizou...

145 0

Já faz tempo que a direita chilena não sabe o que é governar. O último conservador a ocupar o Palácio de La Moneda foi Augusto Pinochet, cuja ditadura, em menos de 20 anos, contabilizou pelo menos 2,2 mil mortos, 1,2 mil desaparecidos e uma longa lista de violações aos direitos humanos. Quando o pesadelo passou, em 1988, após um referendo em que os chilenos deveriam votar pelo fim ou pela continuidade do regime, os principais partidos de centro e de esquerda resolveram unir as forças para que semelhante tragédia jamais voltasse a acontecer.

A Concertación de Partidos por la Democracia nasceu, como o próprio nome diz, para garantir a democracia no Chile. E tem conseguido. Mais que isso, a coalizão venceu todas as eleições presidenciais realizadas no país desde 1990. Também é responsável pela construção de um invejável estado de bem-estar social. Nas últimas duas décadas, os chilenos tiveram um dos melhores desempenhos econômicos do mundo, colheram bons resultados – embora insuficientes – em distribuição de renda e reduziram a pobreza.

Michelle Bachelet é a quarta representante da Concertación a presidir o Chile. Além de ser a primeira mulher a ocupar o cargo, a presidente socialista também ostenta o maior nível de aprovação popular da história: 80% dos cidadãos apoiam seu governo. Apesar disso, terá de deixar o cargo em março de 2010, porque no Chile não se permite a reeleição imediata. E, sem um candidato forte para substituí-la, a Concertación corre sérios riscos de perder a hegemonia eleitoral.

O nome que tentará manter a invencibilidade da coalizão no Palácio de La Moneda já sentou na cadeira presidencial uma vez. Eduardo Frei, que governou entre 1994 e 2000, renasceu como opção, mas não como favorito. O Centro de Estudos Públicos (CEP), órgão que vem prevendo com razoável exatidão todos os resultados eleitorais do Chile desde a queda de Pinochet, aponta o ex-presidente como segundo colocado na corrida pelo poder. O pleito se realiza no próximo dia 13 de dezembro e Frei tem apenas 26% das intenções de voto.

“Frei até agora não conseguiu entusiasmar o eleitorado porque os partidos da Concertación também não conseguiram idealizar fórmulas novas para governar”, explica Loreto Correa, analista do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de Santiago. “A coalizão tampouco foi capaz de solucionar os três temas que mais mexem com a opinião pública chilena neste momento: a dívida com os professores da educação pública, os conflitos na área da saúde e a debilitação dos próprios partidos de centro-esquerda, devido à rivalidade interna de seus líderes.”

Para Loreto Correa, a Concertación “forçou a barra” ao escolher Eduardo Frei como candidato. De fato, essa foi a primeira vez desde a eleição de Ricardo Lagos que os caciques concertacionistas acharam por bem não realizar prévias. Essa concentração de poderes desgastou a aliança e acabou jogando contra a imagem de Frei que, de acordo com a analista, já não tem a liderança que tinha quando foi candidato pela primeira vez. “Até porque seu governo não é tão bem visto como as gestões de Ricardo Lagos ou de Bachelet. Frei ostenta a imagem de um presidente que foi bom, mas que poderia ter sido infinitamente melhor. Por outro lado, a opinião pública o considera uma figura política desgastada, sem propostas novas”, opina Correa. “Essa é a vantagem da direita, e também de Marco Enríquez-Ominami.”

Ar fresco
Marco Enríquez-Ominami é um candidato de 36 anos que viveu na França, estudou filosofia e tem se destacado no mundo das artes chilenas como diretor de cinema. É casado com uma famosa jornalista da tevê e recentemente se elegeu como deputado pela Concertación. Preferiu, no entanto, romper com o PS assim que a coalizão escolheu Frei – e não ele – para disputar a presidência.

Ominami, então, preferiu se lançar como candidato de si mesmo. Conseguiu as 36 mil assinaturas de que necessitava para oficializar sua postulação, caprichou no marketing e usou as novas tecnologias da internet – Twitter, YouTube e Facebook – para disseminar suas ideias. O resultado, que não deixa de ser surpreendente, é uma intenção de voto de 19%.

“A candidatura de Enríquez-Ominami critica o sistema partidário e a distribuição de poder dentro das elites e captura o desencanto da sociedade com os partidos políticos. Basta dizer que 4 milhões de chilenos em idade eleitoral, num universo de 11 milhões, não estão inscritos para estas eleições”, argumenta Guillermo Holzmann, cientista político da Universidade do Chile.

O próximo presidente, porém, segundo o levantamento do CEP, será Sebastián Piñera. O candidato da Renovação Nacional (RN) é dono da LAN Chile, maior companhia aérea do país. Possui, portanto, cofres cheios. Tem também uma posição política bem clara, que vem sendo demarcada desde as eleições passadas, em que foi derrotado pelo carisma de Michelle Bachelet.

“A principal proposta de Piñera é mudar o estilo de governo. Ele assina embaixo de quase tudo o que foi feito pela Concertación até agora, incluindo as políticas públicas orientadas a superar a pobreza, mas promete maior eficiência no manejo do Estado”, analisa Holzmann. “Piñera não defende as privatizações, mas prega que a iniciativa privada tenha um papel mais ativo na economia.” As pesquisas lhe dão 36% da preferência popular.

É consenso entre a opinião pública chilena, portanto, que haverá segundo turno. E, se os levantamentos estiverem corretos, o fator que decidirá o duelo eleitoral na segunda etapa pode ser a transferência de votos do comunista Jorge Arrate para o futuro adversário de Piñera. Quarto colocado nas pesquisas, Arrate conta com cerca de 5% do eleitorado. É ideologicamente improvável que o eleitor de Arrate escolha Piñera na hora da decisão. No entanto, há uma chance de que a opção comunista acabe beneficiando Eduardo Frei ou, mais provavelmente, Ominami.

O candidato independente tem a seu lado o ineditismo de sua figura política. É filho de Miguel Enríquez, líder do Movimento Esquerda Revolucionária (MIR) assassinado por agentes da polícia secreta pinochetista nos primeiros anos da ditadura. Carlos Ominami, seu pai adotivo, é um figurão do PS, ex-ministro da economia e senador. Sua mãe, Manuela Gumucio, é outro quadro político bastante conhecido no país.

Além da herança política, alguns pontos da agenda do candidato também agradam à esquerda. Ominami mostra-se favorável à união civil entre homossexuais, promete debater seriamente a legalização da maconha e não é contrário à descriminalização do aborto. Gera desconfiança, porém, quando defende a privatização de alguns setores do aparato estatal, como a Companhia do Cobre (Codelco). A mineradora faz do Chile o maior exportador mundial do minério, mas, segundo Ominami, se transformou numa espécie de “covil político” cujo aparelhamento tem feito com que perdesse ótimas oportunidades de incrementar sua competitividade.

Causa esquecida
Uma das questões mais candentes na política chilena, entretanto, é o conflito indígena no sul do país. Historicamente, os mapuches reivindicam um acesso mais amplo à terra que um dia foi deles. Aliás, mapuche, na língua falada pelos povos originários do Chile, significa “gente da terra”. Sem território, eles são impossibilitados de praticar seus costumes e deixam de ser o que são.

A presença populacional dos mapuches não é muito expressiva. Dos 15 milhões de chilenos, apenas 600 mil – ou 4% – são indígenas. Os mapuches, no entanto, estão concentrados sobretudo na Araucanía, uma das regiões mais ricas e, contudo, mais pobres do Chile: a província esbanja recursos minerais, florestais e hídricos, mas é carente em serviços sociais e desenvolvimento humano.

“Quando se formou o Estado chileno, em 1818, os mapuches foram excluídos do sistema republicano”, explica Loreto Correa, da Universidade de Santiago. “Paulatinamente, ao longo do século XIX, foram perdendo suas terras e sendo anulados como cultura. Tanto que, até muito pouco tempo atrás, o Chile não os reconhecia como povo.” Não por coincidência, é também na Araucanía que se observam os piores índices nacionais de alcoolismo, desemprego, analfabetismo e investimentos, sejam públicos ou privados.

Hoje, além das terras que lhes foram roubadas, os mapuches exigem autonomia política perante o Estado. E são intransigentes nestas demandas. As relações entre o governo e as comunidades mapuches nunca foram boas, mas a situação ficou ainda mais tensa após a morte de Jaime Facundo Mendoza, de 24 anos, baleado pela polícia durante uma manifestação. Foi a terceira morte de um mapuche desde 2002. Antes disso, em agosto, a presidente Michelle Bachelet já tinha dado sua contribuição para agravar o conflito quando se negou a receber uma delegação que marchara até Santiago para dialogar sobre o repasse de terras.

Recentemente, o governo chileno anunciou um plano de segurança no valor de US$ 3,5 milhões para combater os atentados indígenas. O programa prevê a instalação de câmeras de vigilância nas rodovias que mais registram ocorrências envolvendo militantes mapuches. Com o agravamento da crise, o governo também mobilizou mais policiais para as regiões em conflito e praticamente militarizou as zonas mais tensas.

Os indígenas chilenos se consideram alvo de uma campanha permanente de criminalização por parte dos órgãos estatais, que hoje, para eles, não é muito diferente dos anos de chumbo de Pinochet. É verdade que os mapuches costumam agir com certa dose de radicalidade e, além das ocupações de terra, chegam a empreender ações incendiárias. Em outubro, a Coordenadora Arauco-Malleco, braço mais extremista do movimento, renegou a cidadania chilena e declarou guerra ao Estado.

O governo, no entanto, responde com uma dureza que, para muitos, excede o razoável. Muitos cidadãos mapuches têm sido enquadrados numa Lei Antiterrorismo que data de 1984 e que, portanto, é um dos poucos artifícios legais da ditadura que ainda não foram banidos da sociedade chilena. A legislação reduz direitos civis, prevê penas mais duras e vem sendo aplicada contra o povo mapuche desde que foi criada.

“Essa é a grande dívida histórica do Chile, que nem a Concertación nem Bachelet foram capazes de resolver e que talvez o próximo governo, independentemente de quem vença as eleições, tampouco resolverá”, acredita Loreto Correa. Até porque, pontua Guillermo Holzmann, “os candidatos têm evitado se referir diretamente ao conflito mapuche, mostrando que esse será um tema inevitável para os próximos quatro anos.”

Essa matéria é parte integrante da edição impressa da Fórum 81. Nas bancas.



No artigo

x