Rede de Cooperativas promove empoderamento e duplica renda de catadores no DF

Em uma sala no Setor de Diversões Sul, um dos mais populares conjuntos comerciais de Brasília, mulheres e homens estão decidindo os rumos dos empreendimentos solidários que lideram. O negócio em questão é o...

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Em uma sala no Setor de Diversões Sul, um dos mais populares conjuntos comerciais de Brasília, mulheres e homens estão decidindo os rumos dos empreendimentos solidários que lideram. O negócio em questão é o recolhimento, a triagem e a comercialização de mais de 1t de material reciclável, diariamente produzida pelos moradores da cidade. Os empreendedores sociais são catadores de lixo e, no pequeno escritório, funciona a Central de Cooperativas de Materiais Recicláveis do Distrito Federal (Centcoop).

O espaço físico ocupado pela Centcoop não serve de referência para os números que a entidade representa. A central congrega 18 cooperativas e associações que, juntas, reúnem 3,5 mil catadores de materiais recicláveis. Considerando um núcleo familiar de quatro pessoas, as decisões da Central atingem 15 mil pessoas no Distrito Federal e entorno que vivem diretamente da reciclagem de papéis, papelões, plásticos, alumínios, sucatas, placas de isopor, embalagens longa-vida, vidros e outros resíduos sólidos. A atividade profissional, desenvolvida há décadas em todo o país, foi reconhecida pelo Ministério do Trabalho apenas em 2002, sob o código 5192 da Classificação Brasileira de Ocupações (CBO).

Criada quatro anos depois, a Centcoop surgiu da necessidade dos catadores de organizarem a comercialização dos materiais em rede. A Fundação Banco do Brasil já investiu cerca de R$ 800 mil na central, por meio do projeto “Rede de Comercialização – Estruturas Organizacionais e Administrativas”. Os recursos foram utilizados na estruturação, na montagem da infra-estrutura dos cooperados, na aquisição de equipamentos, insumos, apoio administrativo e em ações de comercialização.

Seu Francisco O presidente da Centcoop, Francisco de Assis Almeida, conta que, antes da criação da central, as cooperativas não tinham fôlego para negociar com as indústrias. “Os empreendimentos não tinham nem infra-estrutura básica nem organização administrativa que permitisse a análise dos resultados de vendas ou o planejamento de ações”, esclarece.

Hoje, a maioria das cooperativas e associações integrantes da Centcoop já conquistou a infra-estrutura mínima necessária para a atividade, como prensas, balanças, computadores, bolsas, estruturas metálicas, galpões, caminhões e triciclos. “A luta agora é para criar estrutura para outras cooperativas que estão chegando, como compra de terreno ou aluguel de galpões, além da aquisição de equipamentos mínimos”, explica Francisco.

Além disso, todas as 18 cooperativas e associações integradas à Centcoop contribuem, com R$ 0,02 por quilo de material comercializado, para a constituição de um fundo social. O dinheiro, por enquanto, está sendo gasto com despesas de custeio, mas a idéia é utilizá-lo como capital de giro ou em futuros investimentos.

Preconceito e invisibilidade social – A central também atua como espaço de capacitação e qualificação profissional. Catadores recebem treinamentos, para promover uma melhor classificação e aprenderem a padronizar os materiais. Passam por oficinas ou, ainda, são estimulados a participar de encontros e eventos. No período de 17 a 20 de setembro, por exemplo, os catadores participam do badalado Capital Fashion WeeK, terceiro maior evento de moda do país, no qual ministram oficinas de reciclagem e realizam atividades de educação ambiental com os visitantes.

Para o presidente da Centcoop, o impacto das ações de capacitação é percebido, principalmente, na auto-estima dessas pessoas, que convivem diariamente com o preconceito e a invisibilidade social: “Com a criação das oficinas de artes e artesanato, notamos uma acentuada melhoria na auto-estima dos cooperados. Essas práticas propiciam outra visão, por meio da arte e da cultura, sobre a questão da cidadania”, analisa.

Monteiro Lobato

Um outro Francisco, de sobrenome imponente, acredita que a Centcoop trouxe benefícios além dos esperados. Francisco Monteiro Lobato, ou seu Cocó, como é mais conhecido, entende do riscado. Nascido em Fortaleza/CE, catador desde os oito anos de idade, há mais de 40 trabalha na base da cadeia da reciclagem de Brasília, cidade na qual preside duas associações: a dos Agentes Ecológicos da Vila Planalto (Ageplan) e a Luta Unida por Liberdade e Inclusão Social (Luplis). “Em termos individuais, o rendimento saltou de R$ 250 para até R$500”, conta.

Com cooperativas equipadas e catadores treinados, o valor do material comercializado pela central também aumentou. “O quilo do papel, por exemplo, pulou de R$ 0,21 para R$ 0,50. O plástico pet passou de R$ 0,17 para R$ 0,90 o quilo”, enumera. Para o presidente com nome de escritor, aprender os segredos da comercialização vale a pena: “A gente já vendia individualmente, mas não tínhamos prática na venda conjunta. O processo tem nos educado”.

Seu Cocó sabe o que diz. A construção diária da Centcoop é mesmo um processo educativo, onde a estratégia, baseada nos princípios de Paulo Freire, é municiar os conhecimentos dos catadores e promover a autogestão de seus empreendimentos sociais.

Empreendedores solidários
O assessor técnico da Centcoop, Odécio Rossafa Garcia, acredita que o modelo de gestão da central busca garantir o avanço dos processos organizacionais dos catadores. Um exemplo dessa abordagem é o conselho gestor, instância informal que, no dia-a-dia, constrói a Centcoop. Segundo Odécio, muito embora não figure no estatuto, o conselho tem feito a diferença no empoderamento e na tomada de decisões do grupo: “Todos os cooperados têm voz e direito a voto nas reuniões do conselho. De moradores de rua, eles se transformaram em empreendedores solidários, donos dos seus próprios destinos”, completa Odécio.



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