Roberto Fisk: Gaza foi mais Stalingrado que Beirute

O jornalista inglês sustenta que, pelo grau de destruição, os ataques à Faixa de Gaza não podem ser comparados aos do Líbano, que terminaram por fortalecer o Hizbollah. Leia a análise publicada no The...

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O jornalista inglês sustenta que, pelo grau de destruição, os ataques à Faixa de Gaza não podem ser comparados aos do Líbano, que terminaram por fortalecer o Hizbollah. Leia a análise publicada no The Independent. Ele critica duramente o presidente Máhmude Abbas. Leia a íntegra:

Caretas e risadas. E as vítimas apodrecem.

Robert Fisk, 20/1/2009
The Independent, UK 

Reprodução Pressdisplay.comAl-Safir, clique para ampliarA primeira página do jornal As-Safir de Beirute dizia tudo, ontem. Na parte de cima, a foto terrível do cadáver inchado recém encontrado nas ruínas de uma casa em Gaza; ao lado, dois homens da mesma família choram e gemem de desespero. Abaixo, metade do tamanho, uma fotografia de políticos israelenses e ocidentais rindo com Ehud Olmert, primeiro-ministro de Israel. Olmert, às gargalhadas. Silvio Berlusconi, com as mãos nos ombros de Olmert, também ri, menos, mas ri –, e à direita de Olmert, Nicolas Sarkozy da França, usando o mais estúpido daqueles seus sorrisos. Só a Chanceler Merkel parecia ver o colapso moral. A Alemanha não ria.

A Europa ri, enquanto os palestinenses choram seus mortos. Não surpreende que em Beirute as lojas estejam vendendo milhares de xales e bandeiras palestinenses. Mesmo alguns dos mais sérios inimigos libaneses da Palestina usam o keffiyeh palestinense, em solidariedade ao povo de Gaza. E cada dia se vêem mais xales palestinenses pela rua.

Cada vez mais, também, a rede de televisão Al-Jazeera exibe legendas sob as imagens de palestinenses carregando os cadáveres em decomposição dos seus mortos: "Mais de 1.300 mortos em Gaza, 400 mulheres e crianças. Morreram 13 israelenses, três civis". Isso tambem diz tudo.

O dia inteiro, os árabes também têm de suportar ver seus próprios políticos fazendo pose e caretas frente às câmeras que cobrem o reunião no Kwait, onde reis e presidentes que pretendem que os governariam riem e apertam-se mãos e tentam fingir que estejam unidos em apoio ao povo da Palestina – povo que, esse, foi dolorosamente traído. Máhmude Abbas também lá estava, o sem-poder, o impotente líder da "Palestina" – e onde, precisamente, está a Palestina? –, tentando adquirir alguma importância, aspirada das caudas das vestes e casacas de seus superiores.

Escorregando e tropeçando nos cadáveres de Gaza, esse colegiado de seres supremos merece piedade, isso sim. O que mais poderiam fazer? O Rei Abdullah da Arábia Saudita anunciou que dará 750 mil libras; mas quantas vezes antes os árabes e europeus já jogaram dinheiro em Gaza, dinheiro que, imediatamente depois, viram carbonizar-se sob as bombas israelenses?

Deve-se dizer que os dois pistoleiros do Hamás, mascarados, que anunciaram que teriam obtido uma "vitória" nas ruínas de Gaza são só um milímetro menos hipócritas. Ainda não entenderam que eles não são o Hizbóllah do Líbano. Gaza já não foi Beirute. Dessa vez, parece, Gaza foi Stalingrado. Mas que uniformes o Hamás pensa que usou: alemães ou soviéticos?

"Israel tem de entender," disse o bom rei – como se os israelenses estivessem prestando atenção a ele! – "que nem sempre será possível escolher entre guerra e paz, e que a iniciativa árabe (o reconhecimento dos árabes, em troca de Israel recolher-se às fronteiras de 1967) que hoje está sobre a mesa nem sempre aí estará." Ele sabe que "olho por olho" não significa um olho israelense em troca de todos os olhos da população de uma cidade inteira. Mas quantas vezes – e quantos cadáveres terão ainda de ser arrancados de ruínas – antes de que os sauditas percebam que já não há tempo para mais nada?

Em 2002, os israelenses rapidamente descartaram trocar território por paz; mas ontem, de repente, a proposta voltou a interessar-lhes. "Continuamos desejosos de negociar com todos os nossos vizinhos a proposta daquela iniciativa", disse o porta-voz do governo de Israel –, como se a rejeição original jamais tivesse sido agredido os árabes.

O presidente Bashar al-Assad da Síria, é claro, descartou toda a iniciativa no Catar, semana passada; declarou-a morta; insistiu em que Israel seja declarado "entidade terrorista" [ing. "terrorist entity"]. E Máhmude Abbas afundou ainda mais fundo na humilhação, ontem, anunciando que "a única opção" para os árabes seria fazer a paz com Israel. As "condicionantes" [ing. "shortcomings"] árabes teriam determinado o fracasso da iniciativa árabe em 2002. Observem bem: não a rejeição por Israel, mas "as condicionantes" árabes. Não, não. A culpa foi toda dos árabes. E, isso, dito pelo líder da "Palestina".

Não surpreende que o homem dos EUA no Egito – um certo Hosni Mubarak – tenha repetido o velho slogan: "a paz no Oriente Médio é um imperativo que não pode ser postergado". E então o emir do Kuwait convidou Bashar e Hosni e o rei Abdullah da Jordânia e o outro rei Abdullah da Arábia Saudita para almoçarem juntos, para acabar com aquela briguinha. O cardápio não foi divulgado.

A Al-Jazeera mostra cadáveres cada dia mais inchados, sendo puxados de baixo de montes de ferros retorcidos e cacos de tijolos de concreto, enquanto aqueles potentados discutem suas questiúnculas. Nada a declarar, sobre esse golpe.



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