Sem liberdade não há socialismo

Prestes a completar 78 anos, o economista e titular da Secretaria Nacional de Economia Solidária, Paul Singer, afirma com orgulho que, dentro da sua vasta formação cultural, a característica da qual mais se orgulha...

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Prestes a completar 78 anos, o economista e titular da Secretaria Nacional de Economia Solidária, Paul Singer, afirma com orgulho que, dentro da sua vasta formação cultural, a característica da qual mais se orgulha é o fato de ser um convicto socialista. Mesmo assim, se engana quem acha que isso o obrigue a ser dogmático ou defender regimes de esquerda que, no seu entender, não refletem de fato os valores em que acredita. “Sem democracia, sem liberdade, não há socialismo. Portanto, o desafio que temos hoje, se queremos o socialismo – e eu quero – é redefini-lo”. Confira abaixo trechos de uma das suas participações durante o Fórum Social Mundial, em Canoas (RS).

O valor da democracia A democracia foi uma conquista gradativa de lutas de várias gerações, que começa ainda na Revolução Francesa em 1789 e vai até hoje. Pela primeira vez, acredito eu, na história da humanidade, a grande maioria dos países é razoavelmente democrática. O interessante é que essa conquista foi feita em nome do socialismo.

Pois bem, mas quando os socialistas finalmente conquistaram o poder político, na unha, na luta, jogaram a democracia fora, tratou-se como uma conquista provisória, o que é um absurdo. E isso foi feito na Rússia, em Cuba… Aliás, quero deixar claro aqui que tenho a maior admiração pela Revolução Cubana, fui um dos primeiros membros do comitê em defesa de Cuba e não temos que nos arrepender nem um pouco. Mas Cuba é uma contradição em marcha, agora, é uma ditadura, e os que discordam não têm o menor direito, são vistos como inimigos da sociedade, presos, e não podem sair já que a imigração é ilegal.

Uma vez tentei fazer uma reunião de economistas no país para descobrir como é que eles tomam as decisões econômicas. O presidente da federação dos economistas de Cuba não soube me dizer e eu fiquei insistindo, questionando em que instâncias alguém tem a possibilidade de dizer: “Não, eu vou fazer de outro jeito”. Ele simplesmente não sabia. Sinceramente, isso não é socialismo em lugar nenhum. Em Cuba, atingiu-se um grau de avanço educacional e de saúde admiráveis, mas ao mesmo tempo se convive com um grande atraso econômico. Os cubanos são muito pobres, o trabalhador ganha muito pouco, tem direito a uma cesta de alimentos e sempre isso é explicado pelo cerco capitalista, porque os norte-americanos não querem fazer comércio com Cuba. Isso é uma desculpa esfarrapada porque o mundo é muito maior que os Estados Unidos e todos os outros países podem conversar com Cuba.

O capitalismo e o socialismo real Cuba não conseguiu desenvolver uma economia nem parecida com a capitalista. Ela é injusta, concentradora, mas traz benefícios à humanidade, e isto é importantíssimo de lembrar. Ou o computador, por exemplo, não serve para nada, a internet não tem importância nenhuma? A internet foi criada pelos Estados Unidos e hoje é uma arma para nós, para lutarmos por mais democracia, por mais economia solidária, e por mais direitos.

Ontem, um companheiro que estava lá no Acampamento da Juventude, em Novo Hamburgo, falava em destruir o capitalismo. Eu falei, bom, destruir o capitalismo é ótimo desde que a gente consiga colocar em seu lugar, algo no mínimo tão bom ou melhor. Eu diria a vocês que o socialismo real foi um retrocesso e a prova histórica disso é que ele foi derrubado na Rússia, em vários países europeus e assim por diante, sem guerra nenhuma. Ou alguém acha que os Estados Unidos derrubaram o chamado socialismo real? Não foi assim. Este foi simplesmente deposto e em seu lugar veio um capitalismo horrível – pelo menos é o que dizem na Rússia –, surgiu uma burguesia ávida, egoísta e por isso os trabalhadores agora têm que se organizar e voltar a lutar, mas basicamente se criou um capitalismo democrático e há espaço para as lutas que já estão acontecendo.

O exemplo chinês Acredito que em nenhum desses países, nem na Rússia, nem na Polônia, entre esses outros, alguém imagine voltar à era do socialismo real. Hoje ninguém mais quer falar em socialismos porque o confundem com o regime cubano ou com o regime chinês. A China é diferente de Cuba, porque abriu a sua economia aos capitais estrangeiros. Atualmente os capitais privados chineses estão absolutamente permitidos e o Partido Comunista Chinês, que era um partido operário e tinha orgulho disso, já que só operários entravam no partido, abriu suas portas aos empresários porque eles ajudam a desenvolver o socialismo como eles o imaginam. Não estou achando isso nada de muito escandaloso, mas o fato é que, graças a essa, digamos assim, conciliação com o capitalismo, a China está crescendo muito rapidamente e a pobreza está sendo reduzida como em nenhum outro lugar.

Venho colocando isso sem pretender encerrar discussão, ao contrário, estou levantando essa discussão porque os países do chamado socialismo real, que se mantiveram “íntegros”, são paupérrimos, não conseguem incorporar nem os avanços tecnológicos que o próprio capitalismo produz. Aliás, essa foi a razão da queda do socialismo real na Europa, não conseguiram acompanhar o restante do continente.

Qual socialismo? Quero dizer que sem democracia, sem liberdade, não há socialismo. Portanto, o desafio que temos hoje, se queremos o socialismo – e eu quero – é redefini-lo. É o problema central, o que nós entendemos sobre a sociedade socialista? Entendo como uma sociedade em que o povo tem a liberdade de experimentar tipos diferentes de socialismo em cada estado, município, bairro ou comunidade, como nós estamos fazendo com a economia solidária.

A economia solidária é um ensaio para uma possível sociedade socialista. Esse ensaio está se revelando multiforme, estamos recenseando o máximo de empreendimentos da economia solidária e revisitando os que já cadastramos em 2007, e vamos poder descobrir os que desapareceram , os que se fundiram, os que dobraram de tamanho… Pra mim, traçar uma utopia agora é fácil demais, e o que insisto é que, ou o socialismo será construído por uma humanidade inteira, ou não será socialismo. O socialismo no Brasil vai ser construído por 200 milhões de brasileiros e brasileiras, com os quilombolas, os indígenas, os pescadores, os mais pobres e até os multi-milionários, se existirem. Interagindo politicamente, brigando politicamente, fazendo experiências…

Nós nunca conseguimos aprender através de teorias, o velho Marx dizia isso e eu não entendia nada, em boa parte da minha vida fiz teorias e achava ótimo, maravilhoso. Lênin tinha uma frase que hoje acredito ser totalmente falsa, mas na época repetia com enorme fervor: “Não há ação revolucionária sem teoria revolucionária”. Bom, acho que teoria é uma coisa passageira, geralmente ela é superada e não passa de uma generalização das práticas. Ninguém é capaz de prever o futuro, o que seria maravilhoso, teoria deveria servir para isso. 

As teorias e as práticas Todas as teorias que foram feitas serviram para alguma coisa inclusive a contribuição teórica de Marx, serviram para conquistar a democracia, para levantar o movimento operário, para fomentar hoje em dia a economia solidária. Mas não acredito que nós tenhamos capacidade teórica para prever o tipo de sociedade que nossos netos vão querer e a única coisa que eu quero é que eles democraticamente possam decidir que sociedade querem. O único jeito de se fazer isso não é por dedução, mas sim por indução, examinar – como nós estamos fazendo no mapeamento da Economia Solidária – o que realmente está acontecendo. Com muita modéstia, muita humildade, para aprender com a prática e, através deste aprendizado, melhorar a prática.

O capitalismo, estritamente o modo de produção capitalista, as empresas, os trabalhadores assalariados, têm uma capacidade tecnológica que nossos empreendimentos hoje não têm, genericamente falando. Na agricultura, em particular, provavelmente teremos igualdade e talvez até avanços sobre eles porque a agricultura ecológica é muito superior à agricultura industrial – que foi um vasto erro que nos custou pesadamente no mundo inteiro. E a agro-ecologia é hoje praticada por camponeses e muitos deles têm sua economia solidária.

Então é possível que neste campo da produção dos alimentos, na questão da segurança alimentar, da soberania alimentar, a Via Campesina particularmente nos mostre caminhos. Acredito nisso. Isso é um caminho para o socialismo? É. Resolver a questão alimentar, acabar com a fome no mundo, conseguir conviver de forma não destrutiva com a natureza é um enorme passo e é um desafio científico, tecnológico, e humano também. Então o que digo é que, se você quiser lutar pelo socialismo, vamos lutar na frente ambiental, vamos mostrar que nós somos melhores que os capitalistas no sentido de preservar o futuro dos nossos netos. Aí podemos competir.

Agora, podemos competir em informática? É interessante perguntar isso, hoje estamos dando para nossos jovens desempregados a oportunidade de trabalhar em informática. Está acontecendo no Brasil inteiro, em cooperativas, é uma das coisas que sinceramente me empolgam: ver os jovens pobres, com baixa escolaridade, indo para a fronteira, fazendo software. Embora neste momento meu julgamento seja de que nós estejamos muito atrasados em relação aos empreendimentos capitalistas no que se refere à corrida tecnológica, acho que há boas razões para sermos relativamente otimistas. É bem possível que criemos novos avanços tecnológicos que sirvam para a humanidade inteira, e se servirem para a humanidade inteira vão servir para os socialistas certamente.

A importância da educação popular Hoje nós, socialistas da Economia Solidária, estamos fazendo avanços extremamente importantes na área da educação popular. A educação que as nossas crianças recebem nas escolas públicas é extremamente alienante. Basicamente a criança entra para receber um conhecimento que a família nunca poderia dar, que para ela é totalmente estranho, ou seja, é uma violação. Que criança nossa das classes populares aos seis, sete anos, quer aprender a ler e escrever? Garanto que nenhuma. É uma “chatura”, uma violação. Acho que é, sem querer, uma tortura, e fico com dó dessas crianças. Os meus netos aprenderam a escrever, a ler, sozinhos, sem ninguém obrigar, usando o meu computador, antes de ir para a escola. Isso é maravilhoso.

Por que não transformar a educação escolar em alguma coisa autogestionável, em que as crianças tenham voz e voto? É para elas, não é para nós. Isso se chama educação democrática e isso existe, há escolas democráticas no mundo inteiro e no Brasil também. O meu neto mais velho foi educado em uma escola em que ele era parte de uma autogestão, de uma assembleia em que as crianças, todas juntas, participavam das decisões. Não tem classe por idade e os adultos não são professores, mas ajudantes das crianças para que elas possam aprender, elas mesmas decidem o seu programa de trabalho. E, por incrível que pareça, as crianças são terrivelmente curiosas, mas não porque nós decidimos o que elas têm que saber, a sua curiosidade parte do que eles aprenderam e nós aprendemos desde que nascemos, desde que saímos do ventre materno. Por isso não vamos deixar de aprender nunca.

A ideia de que você só aprende na escola é um erro, você aprende na vida. Quando a criança vai para a escola, já aprendeu muita coisa, a falar, a controlar suas necessidades, a correr, pular, se comunicar, viver em sociedade com outras crianças. Ela não é um quadro limpo em que você vai desenhar o que quiser. A educação democrática é irmã gêmea da economia solidária.

Essa matéria é parte integrante da edição impressa da Fórum 83. Nas bancas.



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1 comment

  1. Siqueira

    Paul Singer é um visionário, devemos refletir sobre suas experiencias e ensinamentos.Mas ao longo da história quantas experiencias socialistas pararam no meio do caminho sob o jugo polítco/economico/belicista americano? Quem sabe se não houvessem essas intervenções externas teríamos uns bons exemplos de solicialismo mais democráticos?

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