Sinais de golpismo na Turquia

A polícia turca prendeu cerca de 40 militares de elevadas patentes sob a acusação de prepararem um golpe de Estado. O episódio vem reativar o dilema em que permanece a sociedade da Turquia, balançando...

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A polícia turca prendeu cerca de 40 militares de elevadas patentes sob a acusação de prepararem um golpe de Estado. O episódio vem reativar o dilema em que permanece a sociedade da Turquia, balançando entre os militares e o poder judicial, que se comportam como guardiões do Estado secular nascido nos escombros do Império Otomano, e a classe política, onde prevalecem atualmente setores do islamismo político.

Entre os detidos esta segunda-feira figuram os ex-chefes dos três ramos das forças armadas e dez comandantes militares, fato que traduz a envergadura do alegado movimento militar para derrubar o governo de Ancara. As prisões dos ex-chefes da Força Aérea, da Marinha e do Exército, generais Ibrahim Firtina, Ozden Ornek e Ergin Saygun, estão relacionadas com a investigação de uma tentativa de golpe desenvolvida em 2003. O plano previa, alegadamente, atentados contra duas mesquitas em Istambul e uma operação contra um avião militar turco de modo a provocar um incidente com a Grécia. Estava prevista, além disso, a prisão de intelectuais que se declaram contra o poder militar. Mais de 400 pessoas foram acusadas de envolvimento neste alegado plano.

As forças armadas da Turquia, um dos pilares estratégicas da Otan, continuam a ter uma intervenção muito forte na vida turca assumindo uma tutela sobre a atividade política da qual numerosos setores poíticos e sociais pretendem libertar-se. A concretização deste objetivo, considerado fundamental para que a candidatura da Turquia à União Europeia possa ser encarada de forma mais efetiva do que tem acontecido até ao momento, adquiriu maior dinâmica com a chegada dos islamitas ao governo. O poder judicial, em aliança com os militares à luz da Constituição autoritária de 1980, tem tornado ilegais regularmente os partidos de índole religiosa, tal como os que defendem os direitos políticos, sociais e culturais da minoria curda, mas isso não evitou que os religiosos chegassem ao poder defendendo a subordinação do aparelho militar ao controle da política e das instituições eleitas.

As forças armadas derrubaram quatro governos na Turquia desde 1960; o país continua sujeito ao edifício institucional construído através da Constituição resultante do golpe militar de 1980. O atual governo, pretendendo desobstruir o caminho do país para a União Europeia, anunciou a intenção de reformar o sistema judicial e militar segundo princípios democráticos, fato que elevou o nível de contestação das forças armadas. A prisão em massa realizada segunda-feira é uma prova de fogo entre o poder político e a instituição militar.

Publicado por BE Internacional.



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