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Quais os reais efeitos de Hollywood sobre as culturas locais? Como enfrentar o monopólio, de produção, distribuição e exibição, praticado em escala global pelo EUA e sua poderosa indústria audiovisual? Afinal, a dominação é...

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Quais os reais efeitos de Hollywood sobre as culturas locais? Como enfrentar o monopólio, de produção, distribuição e exibição, praticado em escala global pelo EUA e sua poderosa indústria audiovisual? Afinal, a dominação é tamanha que países em que há menos de 80% da presença de filmes norte-americanos em cinemas são considerados como exceções, como é o caso da Índia, por exemplo. Para pensar e debater questões como essas, representantes de sete países ibero-americanos se reuniram em São Paulo, entre os dias 19 e 22 de maio, no Centro Cultural da Espanha.
O evento, promovido pelo Divercult, organização cultural internacional fundada no Brasil, hoje sediada na Espanha e financiada pela Agência de Cooperação Espanhola, marca também a primeira reunião da Raia (Rede Audiovisual Ibero-americana) que “pretende pesquisar e debater novas formas de pensar, fazer e divulgar conteúdos audiovisuais”, explica Roberta Milward, coordenadora do Divercult, na Espanha.

Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Espanha, Paraguai e Uruguai participam da rede, representados por sete articuladores ibero-americanos envolvidos em ações práticas no setor audiovisual, como produção, distribuição e políticas, e atuantes na questão da diversidade cultural. Além da rede, o Divercult está promovendo outra investida que busca desvendar os efeitos de Hollywood, o webdocumentário Te Están Grabando, dirigido por Leonardo Brant, que propõe traduzir para um público maior as discussões até então restritas ao setor.

A maneira diferenciada de fazer já é, segundo Brant, uma alternativa de desenvolvimento, produção, distribuição, e difusão. Por isso, aliás, é todo feito com uma câmera fotográfica digital Cannon G10 e será lançado e difundido pela web. “Atualmente é possível desenvolver produtos audiovisuais com toda a riqueza de um filme, com capacidade técnica avançada e baixo custo”, afirma Brant.

O filme também vai analisar a presença da indústria norte-americana em países ibero-americanos. Para citar um exemplo, todos os filmes brasileiros que atingiram um público com mais de três milhões de espectadores desde 2000 foram co-produções entre as majors e a Globo Filmes. “Isso significa um outro tipo de monopólio de mercado, que associa o antigo domínio da rede Globo ao monopólio internacional”. Na prática é mais um sistema de produção que interfere na linguagem, porém neste caso com mudanças expressivas no público e no funcionamento da indústria. “Há efeitos positivos e negativos”, avalia Brant. “Nossa idéia é explorar esses efeitos e pensar o que podemos propor em termos de ampliação do parque exibidor e da produção local”.

Para Brant, se o país tiver condição de desenvolver uma indústria audiovisual nacional, pode se apropriar dos meios de produção e aplicá-los dentro de uma nova lógica de valorização do material simbólico local, invertendo o processo. Entretanto, vale lembrar que o avanço de uma indústria cultural genuinamente brasileira depende de medidas que vão além do diálogo com a indústria norte-americana. São necessários outros mecanismos de apoio, proteção e promoção da diversidade cultural.
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Participaram do encontro, na capital paulista, Cesar Piva, do projeto brasileiro Fábrica do Futuro, voltada à inclusão social por meio da apropriação de novas tecnologias; Alina Frapiccini, diretora geral de projetos da ONG argentina Fundación Kine, de inclusão social, cultural e educacional de crianças e adolescentes; Dino Pancani, do projeto audiovisual chileno Tramas; Eva Piwowarski, da entidade uruguaia Recam, de produção audiovisual, Suzana Salerno da Paraguay Cultural, organização paraguaia de promoção da diversidade cultural; Humberto Mansillas do Centro de Gestión Cultural Pukañawi – Festival de Cine de Derechos Humanos, entidade boliviana que atua na defesa dos direitos humanos, e Eli Lloveras da produtora cultural espanhola Hamaca.

Em defesa da diversidade cultural
De todos os conteúdos audiovisuais produzidos mundialmente, 86% têm origem em apenas 13 países. É o que aponta levantamento do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud). “É pouca gente produzindo o que todo o mundo consome”, observa Brant. A atuação das majors, no entanto, vai para além da telinha, atingindo níveis políticos.
Aprovação de leis e aumento de subsídios públicos são alguns caminhos buscados para tornar a legislação favorável para uma atuação cada vez maior desse grupo. As ações ocorrem de modo mais expressivo no Brasil e nos países em desenvolvimento. Porém, os tentáculos de Hollywood, conta Brant, também estão presentes na Europa.
Mas na avaliação de Fernanda Martins, presidente do Divercult, na Espanha, a Europa sofre menos os impactos proporcionados pela indústria audiovisual norte-americana por possuir estruturas internas mais consolidadas no setor. Ela conta que nas principais capitais é possível encontrar um maior cardápio de produções. “Existem salas que exibem somente produção nacional, gratuitamente ou a preços baixos”. O resultado, claro, é a presença constante de público.
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Que cinema nacional?
Entenda como funciona a atuação das majors nas co-produções com o Brasil

No caso brasileiro, as majors utilizam um dispositivo da Lei do Audiovisual, que permite que eles utilizem parte dos impostos de remessa de lucros ao exterior em produções nacionais. Com este dinheiro em caixa, são escolhidos os filmes com maior capacidade de bilheteria, que reduzam a possibilidade de um retorno ruim. Há ainda uma conjugação desse investimento com outro fator: os interesses das organizações Globo, que entra com o maior canal de difusão do país.

Nos casos de co-produção com a Globo Filmes, há toda uma estrutura envolvida, do jornalismo a publicidade, garantindo uma grande divulgação, que permite, à Globo uma parceria de divisão de lucros, e as majors o retorno do dinheiro público investido.

Outro detalhe importante: o que chamamos de cinema nacional não o é de fato. A propriedade intelectual das co-produções é das majors. Enquanto isso, na outra ponta, o produtor, que de fato botou a mão na massa e assumiu os riscos do filme, fica com a menor fatia do bolo. A distribuidora investe com dinheiro público e o primeiro que entra vai para ela. Um cartel organizado que atua por meio de empresas locais da Motion Picture Association of América decidindo o que vai e o que não vai ser exibido em nossas telas.



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