Suicídios ou assassinatos?

Em apenas 18 meses, foram 40 tentativas de suicídio, 25 das quais consumadas, de funcionários da gigante de telecomunicações da França, a France Telecom. A onda de mortes derrubou em outubro de 2009 Louis-Pierre...

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Em apenas 18 meses, foram 40 tentativas de suicídio, 25 das quais consumadas, de funcionários da gigante de telecomunicações da França, a France Telecom. A onda de mortes derrubou em outubro de 2009 Louis-Pierre Wenes, o braço direito do presidente da empresa, Didier Lombard, que por pouco também não foi demitido pela diretoria. Os sindicatos dos empregados da empresa acusam o plano de reestruturação corporativa como responsável pela situação, já que obrigava os trabalhadores a mudarem suas funções e, em alguns casos, até mesmo mudarem de cidade. “Submissão ou demissão” era a regra para os cerca de 187 mil funcionários da corporação que teria sido dita a um sindicalista pelo próprio Wenes. O caso escandalizou a sociedade francesa, que organizou protestos e fez com que o governo fixasse um prazo para que as grandes empresas do país adotassem medidas contra o estresse no trabalho.

A France Telecom hoje é a terceira maior operadora móvel da Europa e a maior provedora de internet do país. Apesar das tentativas de abafar o caso, a crise da companhia foi inevitavelmente exposta na imprensa internacional. Mas aqui no Brasil mudanças corporativas já desencadearam fenômeno semelhante. Em 1995, quando o governo FHC decidiu começar um planejamento semelhante no Banco do Brasil, o que incluía um Programa de Demissão Voluntária (PDV), os sindicatos calculam que 28 bancários tiraram a própria vida naquele ano por conta da pressão e da cobrança de dívidas por parte do banco. Mas a reestruturação do setor bancário brasileiro promovida desde então, com demissões e aumento de pressão sobre os funcionários Entre 1996 e 2005, 181 bancários cometeram suicídio, uma média de um a cada 20 dias, segundo informações reunidas pelo Ministério da Saúde, divulgadas na pesquisa de Marcelo Finazzi Patologia da Solidão: o suicídio de bancários no contexto da nova organização do trabalho.

Tanto no caso da empresa francesa como no correspondente brasileiro, essas mortes se deram em um contexto de reorganização do mundo do trabalho, de privatização e de terceirização dos serviços públicos. Desde 2004, quando o grupo francês de telecomunicações foi entregue às mãos do capital privado, seus funcionários passaram a sofrer cada vez mais cobranças para alavancar as vendas e competir com outras empresas do ramo. Com as metas de vendas que passaram a ser impostas aos empregados e o aumento da pressão, criou-se um mal-estar e um ar de competitividade individual que não havia antes entre os companheiros de trabalho. As cartas deixadas pelos suicidas são explícitas em alguns casos: “Não aceito
a nova reorganização do serviço.

Vou mudar de chefe e, para passar por aquilo que eu vou passar, prefiro morrer”, disse em email a 23ª suicida minutos antes de se jogar pela janela do escritório. Além de mudarem a relação entre os trabalhadores da empresa, a privatização da empresa e os avanços tecnológicos tornaram muitas funções desnecessárias. Uma delas era a de instalação e manutenção de linhas telefônicas, que se tornou inútil quando se atingiu a cobertura total do território francês. Trocaram-se algumas peças, descartaram-se outras. Apesar disso, a France Telecom lucrou, em 2008, ano em que começaram os suicídios, 4 milhões de euros. Nada mal se o resultado humano não tivesse sido tão negativo.

“Muitos suicídios são assassinatos”
Se as agruras e incertezas provocadas pela reestruturação do mundo do trabalho são fatores que podem provocar ondas de suicídios, durante as crises o quadro piora e também atinge o andar de cima. Durante e após períodos de turbulência econômica de grande porte, como a de 1929 e a mais recente motivada pela bolha imobiliária estadunidense, são registradas elevações significativas de suicídios nos países mais afetados. A própria Organização Mundial de Saúde alertou para o problema e os efeitos da crise foram evidentes. Em outubro de 2008, logo após a falência do banco estadunidense Lehman Brothers, o número de ligações para centros de proteção à vida dos EUA apresentou um aumento de 132% em relação ao mesmo mês do ano anterior. Apenas em Los Angeles, um dos estados norte-americanos mais afetados pela crise, registrou-se um aumento de 80% entre dezembro de 2007 e dezembro de 2008 no número de ligações recebidas nos centros de prevenção ao suicídio.

Para o psiquiatra Marcos Augusto Brasil, ex-presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), as classes sociais mais afetadas são “as mais sujeitas a ações decorrentes da crise”, como desempregados ou pessoas com poucas reservas financeiras e que estão pagando aluguel ou empréstimos. O psiquiatra afirma que a dificuldade financeira costuma ser um “fator desencadeante” para pessoas que já têm alguma predisposição para a depressão.

“Eu tenderia a dizer que muitos suicídios são, na verdade, assassinatos”, analisa Nilson Netto, doutorando em Psicologia Social da PUC/SP. “É como se tivessem dado as condições necessárias para que o sujeito tirasse a própria vida”, explica. Na verdade, a ideia de que o suicídio é um fenômeno produzido pelo meio social vem de longa data, desde Émile Durkheim, que investigou as causas sociais e individuais que levam o sujeito a por fim a sua vida. No livro Sobre o suicídio, de Karl Marx, alguns casos são descritos e levantam questões que motivariam o ato como a opressão contra a mulher e a inviabilidade financeira.

Assim, no mundo de hoje, há vários fatores dentro da organização social que poderiam motivar atos extremos. Netto, por exemplo, compara a atual organização do mundo do trabalho com a escravidão. “(Na escravidão), quando o senhor perdia um escravo, perdia um bem material. Na sociedade atual, o que se compra não é mais a pessoa, mas a força de trabalho. Se eu perco uma pessoa, posso contratar outra força de trabalho enquanto um exército de reserva enorme existir”, avalia. “É um tipo de organização do trabalho que não vê mais o sujeito como algo importante.”

E é nesse mercado opressivo que milhões de jovens têm entrado a cada ano. “O sujeito que está na escola começa a aprender a trabalhar ali mesmo”, diz, lembrando que muitas vezes as escolas repetem essa lógica perversa em seus métodos de ensino. Hoje o suicídio já está entre as três principais causas de morte para jovens entre 15 e 35 anos no Brasil. E o número de pessoas nesta faixa etária que tentam ou conseguem dar cabo à sua vida é o que mais cresce no mundo todo. Relacionar a inserção do jovem no
mundo do trabalho diretamente com o crescimento dos suicídios pode ser perigoso, alerta Netto, já que o suicídio é um fenômeno complexo, mas “algo tem acontecido nessa organização da sociedade para ocasionar isso”, adverte.

Os jovens como vítimas A Organização Mundial de Saúde (OMS) distribuiu em 2000 uma série de manuais para a prevenção do suicídio, adotando uma postura inédita de entender o problema como uma questão de saúde pública. Isso aconteceu graças à constatação de que, nos últimos 45 anos, houve um aumento de 60% no número de suicídios e, até 2020, estima-se que a elevação chegue a 74%. No manual para profissionais de escolas, a organização afirma que “ter pensamentos suicidas (na adolescência) uma vez ou outra não é anormal” e que faz parte do processo de mudanças dos adolescentes. Para Netto, essa posição da OMS não é correta. “Pensar em suicídio uma vez ou outra não é uma questão de normalidade. Quando eu naturalizo isso, perco algum aspecto de vida da pessoa que pode não estar dando certo.”

A OMS lista uma série de traços de personalidade de adolescentes que podem indicar tendências suicidas como humor instável, comportamento antissocial, dificuldade de aceitar a realidade e incertezas em relação à orientação sexual. O manual ainda cita uma série de transtornos, possíveis históricos de vida que podem influenciar na decisão, e lista uma outra série de características do jovem enquanto estudante que podem indicar estágios de depressão com tendências suicidas. Algumas dessas manifestações depressivas fazem parte, segundo a organização, do “processo normal de desenvolvimento” do adolescente. A organização, porém, não explica o porquê do aumento vertiginoso de suicídios entre jovens nos últimos 20 anos.

A naturalização das questões dos jovens acaba responsabilizando apenas a pessoa pelo ato. “Esquecem que a adolescência é uma construção social, típica de uma determinada sociedade e que traz conceitos dela. A morte intencional desses adolescentes é vista como algo normal, como algo com o qual o sujeito não soube lidar, e responsabiliza-se o sujeito”, critica Netto. Ainda que o suicídio seja influenciado por algum transtorno mental, ele defende que é preciso entender as causas sociais que levaram a pessoa a desenvolver tal transtorno. De uma forma ou de outra, a culpabilização apenas do suicida pelo ato ainda prevalece dentro da área médica.

A jovem Gisele (nome fictício), 17 anos, sentiu isso na pele quando foi ao Conselho Tutelar após uma tentativa frustrada de suicídio. “(O atendimento) foi péssimo, me intimidaram ao invés de ajudar. Olharam para a minha cara e falaram ‘você tem que se tratar’, sem querer entender”, reclama. Gisele já vinha pensando durante um bom tempo sobre a possibilidade de acabar com sua vida. Os familiares não a hostilizaram, mas também não conversaram muito sobre o assunto. “Eles não entenderam nada, ficaram com medo. A única pergunta que faziam era ‘por que você fez isso?’”. O apoio veio menos da família do que dos amigos. “Eles perguntaram, tentaram entender e me ajudaram com o tempo.” Hoje ela mesma dá suporte para amigos que estão passando por fases conturbadas. “Não fujo mais dos sofrimentos, penso mais nas soluções”, assegura.

Para Carlos Felipe Almeida, coordenador da Estratégia Nacional de Prevenção ao Suicídio do Ministério da Saúde, a interação com outros jovens pode ser muito importante para aquele que não está se sentindo bem. “É fundamental conversar com outro jovem ou com um adulto que saiba lidar com ele de forma que ele entenda. Não adianta fazer discurso.” O ministério chegou a criar uma rede de atendimentos no Rio Grande do Sul, estado com um dos maiores índices de suicídios entre jovens no país, atrás somente de Roraima, Amapá e Mato Grosso do Sul. Nesta rede, foram contratados jovens maiores de 18 anos para atender pessoas da mesma idade ou mais novos.

Políticas preventivas
No Japão, um dos primeiros colocados no ranking de suicídios no mundo desenvolvido, uma das prioridades de governo é a redução da taxa dessas mortes – a meta divulgada é diminuir em 20% esse número até 2016. Em janeiro deste ano, em pleno auge da crise econômica, o índice de suicídios superou em 15% o registrado no mesmo mês do ano passado. Janeiro foi o mês em que boa parte dos trabalhadores que foi despedida nos últimos meses do ano anterior recebia o último seguro-desemprego. A prática do suicídio no Japão, porém, é histórica. Lá o governo inclusive já está preparado para o “problema de março”, mês em que há o pico de ocorrências, época também de exames de vestibulares e período de contratações nas empresas. Entre as medidas adotadas pelo governo estão a preparação de pessoas para atender potenciais suicidas, o apoio a organizações sem fins lucrativos que dão apoio psicológico e a distribuição de materiais informativos sobre onde procurar ajuda em caso de transtornos psicológicos.

Essa é a mesma linha de política adotada pelo Ministério da Saúde aqui no Brasil e recomendada pela OMS, apesar de a taxa média ser bem menor do que a japonesa: quatro em 100 mil por ano aqui contra 25,3 em 100 mil por ano lá. “Pessoas com doenças como depressão e alcoolismo têm mais chances de desenvolver o comportamento (suicida). É preciso reconhecer os casos de risco e intervir de forma adequada, para evitar consequências mais graves”, explica João Alberto Carvalho, presidente da ABP. Estudos do Ministério da Saúde reconhecem que pacientes com transtornos mentais têm mais possibilidades de tentarem se matar, mas também analisa que essas características têm sido cada vez menos frequentes entre os suicídios.

Para Netto, apenas o apoio psicológico não dá conta de reduzir a quantidade de suicídios substancialmente. “Você fornece os elementos para que o sujeito fique vivo, mas não dá o necessário para fazer com que ele perceba o que está fazendo e possa mudar essa situação.” Para ele, é complicado trabalhar com apenas um ou alguns perfis de pessoas que potencialmente têm mais chances de tentar o suicídio, uma vez que todos estão sujeitos às mesmas condições de trabalho. Nas estatísticas gerais, as vítimas mais frequentes são homens, com taxas três vezes maior do que a das mulheres. Por outro lado, são elas que tentam mais vezes terminar com suas vidas pelas próprias mãos. Para Almeida, essa diferença é uma questão clara de gênero. “Mulheres tentam mais como pedido de ajuda. Homens já são mais fechados, recorrem menos ao serviço de saúde. Ele usa o suicídio como forma de acabar de vez com o sofrimento, e com métodos mais agressivos.” Idosos com mais de 75 anos, desempregados, solteiros ou separados, residentes em áreas urbanas e migrantes também estão entre os principais afetados.

Fora o perfil masculino, todos têm como denominador comum a questão do isolamento social. Ter uma família ou uma rede social fazem a diferença quando o sujeito não está satisfeito com sua própria vida a fim de pensar em desistir dela, como diz Almeida. Netto lembra ainda outros grupos sociais pouco comentados e que podem transformar a vida da pessoa de forma efetiva, como associações de bairro, sindicatos, partidos políticos, movimentos sociais. “São outras formas de organização que fazem com que os sujeitos possam se agregar e transformar a realidade deles”.

A única questão filosófica
Apenas o ser humano é capaz de acabar com a própria vida com consciência do ato, de forma planejada e determinada. Para Albert Camus, por exemplo, essa era a única questão filosófica sobre a qual valia a pena se debruçar. As visões históricas sobre o ato são inúmeras. Desde Aristóteles, que entendia o suicídio como uma injustiça contra a sociedade, passando pelos estoicos, que aceitavam o ato, já que valorizavam a vida pós-morte, até Dostoiévski, que atribui aos suicidas a pretensão de ser Deus (ou de tentarem se colocar em seu lugar).

O Suicídio, de Émile Durkeim, é um clássico sobre o tema. O autor busca entender não somente as causas do suicídio como as características sociais que o cercam e como elas são individualizadas. Para além da discussão das motivações de um ato extremado, uma dúvida sempre fica: seria o ato um direito do indivíduo?

“Independentemente disso incomodar a gente ou não, existem pessoas que estão dispostas a se matar”, lembra Nilson Netto, citando a justificativa dada pela dupla francesa Claude Guillon e Yves le Bonniec, que escreveu na década de 1980 Suicídio: manual de uso. A obra dava dicas de métodos suicidas menos dolorosos e que não causavam danos em caso de sobrevivência.

Essa matéria é parte integrante da edição impressa da Fórum 83. Nas bancas.



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