“Suspeito número um é sistema de produção industrial de porcos”, diz economista

A epidemia de gripe suína originada no México já atingiu 1124 pessoas em todo o mudno, segundo informou a OMS na manhã de hoje, 5. Já foram 26 vítimas fatais, sendo que 25 delas...

142 0

A epidemia de gripe suína originada no México já atingiu 1124 pessoas em todo o mudno, segundo informou a OMS na manhã de hoje, 5. Já foram 26 vítimas fatais, sendo que 25 delas eram de cidadãos mexicanos e uma de um norte-americano. Os pesquisadores e as autoridades ainda não conseguiram responder à principais perguntas em torno desta epidemia: não se sabe o que levou à mutação do vírus H1N1, causador da gripe nos porcos, se ela vai aumentar, nem como fazer para acabar com ela.

Segundo o economista mexicano Alejandro Nadal, este caso é uma evidência do descaso histórico das autoridades do país com saúde pública e pesquisa e da inversão de prioridades na questão de biossegurança. Nadal acredita que a questão da produção alimentícia dentro da lógica capitalista foi fundamental para fomentar a epidemia e explica a relação em entrevista concedida ao site Rebelión, reproduzida abaixo..

Rebelión – Do que estamos falando quando falamos sobre a gripe suína?
Nadal –
A chamada febre ou gripe suína é provocada pela variação de um vírus que é endêmico em porcos. A gripe suína é rara em humanos, mas o vírus pode sofrer mutações e infectá-los. Foi o que aconteceu neste caso.

Rebelión – Como foi possível que o vírus sofresse mutação tão rapidamente e afetasse a espécie humana?
Nadal –
O suspeito número um é o sistema de produção industrial de porcos, onde o confinamento permite o intercâmbio massivo do vírus, o que facilita que apareçam novas variantes, algumas das quais podem ter influência patológicos que pode afetar os humanos. Os criadouros de porcos são bem conhecidos por serem uma das melhores fontes de geração de variantes destes vírus.

Rebelión – Até agora, salvo o caso de um bebê que faleceu nos Estados Unidos no último 28 de abril, todos os mortos eram do México entre pessoas jovens. Por quê?
Nadal –
É uma pergunta aberta. A ciência não sabe ao certo. Uma hipótese é que o vírus, em suas primeiras etapas pode ser mais mortífero, e à medida que avança seu processo de transmissão, só diminui sua virulência maleficência. No entanto, no caso do vírus A(H1N1) que aparece no México, a virulência não diminuiu (o vírus não sofreu mutação para um nível menos maligno). Os médicos e laboratórios não tem uma resposta.

Rebelión – Qual é a situação do México neste momento?
Nadal –
Fala-se de mais de dois mil casos de infecção com um quadro clínico similar ao do vírus A(H1N1). Há uns 150 falecimentos, o que situa o nível de mortandade a níveis comparáveis a epidemias muito graves (ainda que a estes níveis estatísticos não seja prudente estabelecer uma comparação).
Neste momento, na Cidade do México, uma urbe de 20 milhões de habitantes, encontra-se paralisada. As escolas, desde primárias a colégios, até universidades, encontram-se fechadas desde 6 de maio. Os restaurantes também estão fechados desde então. Muitas empresas diminuíram seu ritmo de atividade. Em escala nacional, o sistema educacional também está paralisado desde 6 de maio. As autoridades se esforçam em conter o contágio e nos próximos dias saberemos se houve êxito nessas medidas. O certo é que no momento continuam as dúvidas sobre as ações governamentais.
O impacto econômico da epidemia é forte. A grande divisão de serviços é muito importante para o PIB. Sérvios de restauração e hotelaria são muito importantes e fortes geradores de emprego. O déficit crônico da balança vai recrudescer. Além do quê, é muito provável que a exportação de carne de porco e frango sofram com esta epidemia., ainda que não exista evidência de que a enfermidade se transmita diretamente pela ingestão da carne de porco. Por final, a arrecadação fiscal se verá diminuída de maneira significativa, sobre todo imposto agregado, que como sabemos é o imposto de consumo. Por fim, tudo isso vem a piorar uma situação já comprometida pela crise econômica que já se previa (antes da epidemia) que resultaria numa diminuição de 4,5% do PIB mexicano em 2009. Pessoalmente, dado o peso do setor de serviços, creio que pelo menos deve ser agregado mais um ponto percentual abaixo dessa estimativa (ou seja, que o PIB mexicano cairá por volta dos 5,5%). É uma estimativa grosseira pois falta ver se se prolonga a situação atual.

Rebelión – Significa que o que está ocorrendo é que o processo intensivo, industrializado, é um caldo de cultivo para agentes infecciosos? Não estamos tratando os seres vivos como se fossem inanimados, sem sofrimento?
Nadal –
A produção industrial em larga escala de gado bovino em condições estáveis, de porcos e aves em granjas gigantescas que são verdadeiras fábricas de carne é uma das aberrações da produção capitalista nestes últimos cinqüenta anos. Sim, efetivamente é um caldo de cultivo agentes patológicos. Facilita sua rápida evolução e promove a aparição de novas variantes de grande virulência. È algo conhecido pelos epidemologistas o fato de que os vírus que causam a morte do anfitrião mantem um equilíbrio entre virulência e velocidade de transmissão. No caso dos criadouros industriais de porcos e aves, a reposição cada vez mais rápida da população anfitriã gera pressões evolutivas que desemboca na aparição de variações mais danosas e de alta velocidade de transmissão. Mas as autoridades sanitárias a nível nacional e internacional sempre toleraram e solaparam estas condições de produção de carne.
Uma doutora e investigadora do Hospital de A Raza (México), que preferiu ocultar seu nome, apontou que os primeiros casos de pessoas infectadas foram detectadas no começo de março, mas não se lançou nenhum alerta nem se realizaram investigações. Houve vários mortos por neumonia, apontou a doutora, com os quais não se realizou um estudo forense a fundo, acrescentando: “Ao privilegiar a medicina privada, houve desatenção com a investigação, infra-estrutura e existência de medicamentos da medicina pública e o que estamos vivendo são as consequências disso. O México não tinha elementos para levar a cabo análises para detectar a enfermidade”.

Rebelión – É correta esta análise, em sua opinião?
Nadal –
É correta. Eu diria que … Nos últimos 20 anos, o gasto co educação permaneceu parado na medida em que os governos privilegiaram o pagamento de dívidas financeiras ao invés de investir nos setores primários do desenvolvimento (saúde, alimentação, moradia, educação, ciência e tecnologia). Um dos melhores exemplos disso é que há uns quatro anos, quando o governo de Fox queria desaparecer com o principal centro de investigações florestais, pecuários e agrícolas no México. O México conta com 11 km de litoral e o setor pesqueiro é muito importantes mas os centros de investigação sobre pescarias são muito poucos e não existe um sistema em escala nacional de monitoramento para o manejo racional de pescarias. Para voltar ao caso da gripe, é extraordinário que neste país o governo pretenda abrir já pronto e ilegalmente o campo aos transgênicos, mas não se conta nem sequer com laboratórios para determinar com certeza quando se trata do vírus A(H1N1).
Luis de Sebástian, um destacado economista barcelonês, observou em um artigo recente publicado no “Cinco Dias”: “Os mexicanos pobres sofrem uma epidemia gripal de novo junto a uma crise econômica e uma pobreza endêmica. O mundo não pode sobreviver a base de ilhotas de ricos em meio a um mar de pobres”.

Rebelión – Por que ele fala de mexicanos pobres? Não podem ser infetados também os mexicanos mais ou menos ricos?
Nadal –
Todos podem ser afetados.

Rebelión – Como devem atuar as autoridades sanitárias no país? O que deve fazer a população?
Nadal –
As autoridades sanitárias devem proporcionar uma informação fidedigna do que está acontecendo. Devem realizar as investigações que qualquer epidemiologista levaria a cabo e divulgaria. No momento não sabemos porém se as autoridades investigaram os pacientes infectados por este vírus para definir as formas de contágio, etc. As autoridades mexicanas sempre têm um comportamento defensivo: o responsável pelos direitos humanos nega casos de tortura, o do meio ambiente rechaça uma contaminação, o de saúde assinala que tudo está sob controle. É um quadro típico do “funcionariado” mexicano (desculpe o neologismo).

Rebelión- Que papel deve ter a OMS nesta situação?
Nadal –
A OMS deveria deixar de atender aos grandes interesses da indústria farmacêutica e da agroindústria alimentar. Há muito o que fazer para prevenir desastres futuros que farão arrefecer todas as epidemias e pandemias. Não podemos esquecer que o papel da OMS e da FAO é a manutenção da globalização neoliberal, um modelo econômico falido, cujas falhas em matérias de saúde pública e meio ambiente são notórias.

Rebelión – Podemos extrair alguma lição do que está ocorrendo?
Nadal –
Há das mais importantes. Primeiro, as fábricas de carne (os gigantescos “feedlots” de gado bovino nos Estados Unidos, as granjas de porcos e aves) são recintos em que a lógica da rentabilidade do capital se mescla com a dinâmica evolutiva da natureza. O resultado é uma mescla explosiva. A rentabilidade requer grandes escalas de produção, crescimento rápido dos animais (induzido artificialmente por meio de hormônios), e forte rotação de capital. A dinâmica evolutiva não perdoa e aproveita estas características dos processos produtivos da carne em escala industrial. Deste caldeirão vão sair sempre novos vírus patológicos. A OMS e os epidomiologistas do mundo todo sabem disso.
A segunda (lição) tem a ver com a biossegurança. Essa epidemia é uma mostra clara de que os sistemas de biossegurança no México (e muito provavelmente em muitos países) não estão preparados, nem de longe, para enfrentar contingências. Ainda assim, o governo mexicano insiste em seu afã de liberar cultivos transgênicos em escala comercial. Chama a atenção, em especial, o caso do milho. Esse cultivo tem seu centro de origem no México e uma lei federal (que vela pelos interesses das grandes corporações transnacionais) inclusive estabelece a obrigatoriedade de um regime de proteção especial para o milho. No entanto, violando esta lei e a opinião inclusive do Instituto Nacional de Ecologia, o governo mexicano concede a liberação comercial do milho no campo mexicano. Não há condições de biossegurança no México, e a lição mais clara é a epidemia atual.

Com informações do Rebelión.



No artigo

x