Tempo de silêncio

Com essa história de considerarem a “dita” branda, lembrei-me de um personagem importante da minha infância, o Pedrinho Pedreiro, muito anterior à música Pedro Pedreiro, de Chico Buarque. Era tido como meio maluco...

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Com essa história de considerarem a “dita” branda, lembrei-me de um personagem importante da minha infância, o Pedrinho Pedreiro, muito anterior à música Pedro Pedreiro, de Chico Buarque.
Era tido como meio maluco e ao mesmo tempo inteligente e com uma certa cultura. Afinal, tinha feito até o segundo ano ginasial – equivalente à atual sexta série – numa época em que não existia ginásio em Nova Resende. Só filhos do gerente do banco, de alguns fazendeiros, de comerciantes e das poucas famílias “remediadas” iam além do curso primário. Estudar fora não era para pobre.
Só que, na época, saíamos do curso primário – tenho certeza – com mais conhecimentos do que quem termina o ensino médio hoje, depois do massacre sofrido pela educação básica nos anos de ditadura e nos sucessivos governos posteriores.
O Pedrinho Pedreiro tinha uma letra bonita e soltava sempre umas tiradas filosóficas. Fora isso, nas horas de folga saía com seu terno de linho branco e ia aos botecos tocar violão.
Bom, mas o que tem isso a ver com a “dita”, seja ela dura ou branda?
No final dos anos 1960, eu estava na universidade, e Nova Resende, com mais de três mil habitantes na área urbana, já tinha curso ginasial e até um razoável movimento estudantil. Muitos estudantes adolescentes vinham conversar comigo, querendo saber como era o movimento estudantil em São Paulo e pedir pra eu ajudar a fazer o jornalzinho do grêmio deles.
Já no início dos anos 70, a coisa tinha piorado bastante. Onze agentes do Dops enviados de Belo Horizonte vasculhavam a cidade, considerando o movimento estudantil dos adolescentes um perigo. Queriam prender os moleques e procuravam motivos. Uma prova da periculosidade deles era o jornalzinho com que eu colaborei. Mas os agentes – que sabiam de artigos “subversivos” publicados nele –, não conseguiam sequer um exemplar. Saíram de casa em casa perguntando e todo mundo desconversava, dizendo que tinha jogado fora todos os números, tinha queimado… Mesmo as pessoas tidas como mais direitistas protegiam a molecada conterrânea. Foi uma coisa muito digna. Não conseguiram o jornal. Assim mesmo cassaram uma professora primária de uma cidade vizinha (veja só: nossos moleques “exportavam” movimento estudantil) e ameaçaram prender uns meninos, menores de idade.
Mas um dos melhores professores, Tião Rezende, foi muito perseguido em Minas. Acabou fazendo concurso pra professor de uma universidade pública do Rio de Janeiro, foi para lá e voltou alguns meses depois, num caixão de defunto lacrado, que não permitiram que a família abrisse. Disseram que foi encontrado morto no apartamento, vítima de uma doença contagiosa. Mas ninguém acreditou. Matava-se na tortura. E Nova Resende continuava com fama de ter muitos subversivos, pois um de seus filhos, José Roberto Rezende, militante da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), tinha sido preso no Rio e passado por torturas horrorosas, durante um mês, e seria condenado depois a duas prisões perpétuas e mais 69 anos de cadeia.
Bom, de novo, o que tem o Pedrinho Pedreiro com tudo isso?
Pouco tempo depois que os agentes do Dops deixaram a cidade, fui passar uns dias lá. Tomava uma cerveja no Bar Esportiva Nova Resende e tinha lá um pessoal que ainda se aventurava a discutir política, ainda que em pequenos grupos, só com gente de confiança. Conversamos um pouco sobre o que acontecia na cidade e no Brasil. Aí apareceu o Pedrinho já velho, ainda de terno branco. Por brincadeira, naquele tempo em que expor em público qualquer opinião que não fosse de direita, perguntei a ele:
– Pedrinho, o que o senhor pensa sobre a ditadura?
Ele fez um gesto que entendi que devíamos ficar calados e respondeu:
– Na ditadura, a vida é íntima… F



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