Terra e água para produzir

Programa da ASA reúne 144 tecnologias sociais de captação e gestão hídrica para garantir a produção agrícola no Semi-Árido Por Glauco Faria   A história de José...

263 0

Programa da ASA reúne 144 tecnologias sociais de captação e gestão hídrica para garantir a produção agrícola no Semi-Árido

Por Glauco Faria

 

A história de José da Antônia, natural de Tuparetama, cidade a 385 quilômetros de Recife, capital de Pernambuco, é similar à de muitas pessoas que vivem no Semi-Árido nordestino. As duras condições da região são um fator histórico de expulsão da população, que tenta sorte melhor nos grandes centros urbanos. No entanto, o pernambucano, depois de morar em Brasília e São Paulo, voltou à sua cidade, em 1998. E para ficar. “Não troco o sertão pelo sul. Aqui trabalho do jeito que eu quero, acordo a hora que eu determino. Por que voltar pro sul? Lá eu era escravo”, desabafa.
José contou sua experiência no lançamento do programa Uma Terra, Duas Águas (P1+2), no dia 17 de abril, na comunidade Lajedo de Timbaúba, em Soledade, município a 165 quilômetros da capital da Paraíba. A iniciativa, que visa promover a segurança alimentar e a geração de renda, é desenvolvida pela Articulação no Semi-Árido Brasileiro (ASA) e conta com o apoio da Fundação Banco do Brasil e da Petrobras. A primeira etapa, denominada projeto demonstrativo, alcançará 818 famílias dos nove estados do Nordeste mais Minas Gerais, atingindo 60 municípios do Semi-Árido.
O princípio seguido pelo programa é o mesmo utilizado em diversas ações realizadas no Semi-Árido, como a que proporcionou a volta de José de Antônia à terra natal, privilegiando a troca de experiências e a valorização do saber local. No caso dele, foi a partir de reu¬niões com agricultores da região, apoiados pe¬la Diaconia, uma das entidades que fazem parte da ASA, que passou a utilizar tecnologias sociais e princípios do cooperativismo. Hoje, José da Antônia consegue, em média, dois salários mínimos por mês, junto com outros 21 cooperados. “Não utilizamos nem adubo químico, nem veneno, nem queimada, nada que destrói a natureza”, orgulha-se.
O P1+2 aproveitará boa parte das experiências desenvolvidas em outro programa, o Um Milhão de Cisternas (P1MC). De acordo com o presidente da Fundação Banco do Brasil, Jacques Pena, essa complementaridade pode facilitar bastante o desenvolvimento do novo programa. “A base social, um dos fatores mais importantes, é a mesma. Ou seja, essa fase nós já pulamos”, aponta. Para ele, existe espaço para que o programa possa ganhar escala. “Antes de receber apoio, o P1MC era de um tamanho; em quatro anos conseguiu ultrapassar [o número de] duzentas mil cisternas implantadas”, recorda.
Para Lenart Nascimento, coordenador de Tecnologias Sociais da Petrobras, o Uma Água, Duas Terras é um avanço, já que considera não apenas a questão do fornecimento de água potável, mas também o processo produtivo e a posse da terra. Assim como Pena, ele acredita que há perspectivas de crescimento, já que o programa pode envolver outros setores do governo e agregar outros parceiros na iniciativa privada. “O Ministério do Desenvolvimento Social já sinaliza que pode apoiar e a Febraban [Federação Brasileira dos Bancos], parceira do Um Milhão de Cisternas, eventualmente, também pode aderir.”
O P 1+ 2 quer promover e difundir o acesso e o manejo sustentável da terra e da água para garantir a autonomia dos agricultores do Semi-Árido na produção de alimentos. Na fase de implementação, serão reaplicadas 144 tecnologias sociais para captação de água como barragens subterrâneas, tanques de pedra, barreiro trincheira e cisternas (tanto individuais como coletivas).
Para José Aldo dos Santos, coordenador-executivo da ASA-Brasil, essa também é uma oportunidade de aumentar ainda mais a mobilização social em torno dos problemas da região, que sofre com a seca e onde vive boa parte da população nordestina. “Precisamos enxergar o Semi-Árido sob uma outra perspectiva”, defende Santos. “Quando se fala em construir um milhão de cisternas, não significa somente implementar um milhão de reservatórios de água, mas sim mobilizar a sociedade para constituir outra dimensão para a região”, completa.

Alternativas Durante o lançamento do programa, ocorreu também a Feira de Saberes e Sabores, em que agricultores puderam trocar experiências entre si, além de comercializar produtos.
Uma delas, divulgada no evento, foi o Banco de Sementes, iniciativa que começou a ser difundida nos anos 1970 no Semi-Árido e, hoje, apresenta resultados positivos na região.
O banco permite que os agricultores armazenem sementes para as próximas safras, contribuindo para sua autonomia. “Antes, tínhamos que correr atrás da prefeitura pra pedir semente e plantar, ou então buscávamos em outros municípios”, lembra Luis Irineu de Arruda, um dos agricultores de Soledade que utiliza o banco. “Agora guardamos em garrafas pet. Temos reservas para plantar o ano todo.” Ele ressalta a utilização de sementes orgânicas na produção: “A gente prefere produzir menos, mas um alimento mais saudável”.
No Semi-Árido paraibano, outras tecnologias sociais já dão resultado e conseguem garantir a sobrevivência de boa parte das famílias de agricultores da região. Manoel Severino dos Santos, da cidade de Picuí (PB), a 175 quilômetros de João Pessoa, tomou conhecimento da eficiência da barragem subterrânea e construiu uma em seu sítio, em 2003. “Hoje, tenho lá plantio de palma, capim para animais, pinha, acerola, macaxeira, graviola, manga, laranjeira”, conta, animado. Estar em contato permanente com os outros trabalhadores locais é crucial. “A gente sozinho não vai a lugar nenhum. Passei quinze anos trabalhando de táxi na praça, agora estou bem mais feliz”, sustenta.
Alternativas como o P 1 + 2 podem ser facilmente reaplicadas em diversos pontos do Semi-Árido, lugar ocupado por uma população pulverizada. Muitos entendem que isso pode ser um contraponto a obras grandiosas como a transposição do rio São Francisco, outros acreditam ser, na verdade, um complemento que pode ampliar o alcance das políticas públicas para o Semi-Árido. “Grandes projetos de irrigação e de transferência de águas dos rios têm o seu mérito, o problema é que são concentrados em um determinado território, mas no Semi-Árido a população é extremamente difusa. Projetos como o P 1 + 2 podem ser mais amplos”, sugere Lenart Nascimento. “Essas tecnologias sociais são obras pontuais e podem complementar grandes obras hídricas que não alcançam as famílias que estão mais distantes”, concorda Jacques Pena. F

“O pai endoidou”
Quando Antônio Borges voltou de uma reunião do Programa de Aplicação de Tecnologias Apropriadas às Comunidades (Patac), no ano 2000, contou para os seus oito filhos o que tinha visto e ouvido. De imediato, um deles, após escutar as idéias que ele trazia, não titubeou: “Xi, acho que o pai endoidou”.
Ali havia sido despertado o interesse de Borges pelas tecnologias sociais. Mesmo desacreditado, ele bancou a construção de uma barragem subterrânea, o que resultou em melhora da produção no curto prazo. “Aí, meus filhos viram que eu não estava louco”, diverte-se.
Mas a implantação de tecnologias sociais no sítio de Antônio Borges não parou por aí. Ele iniciou a construção de uma mandala, que já conta até com peixes como a tilápia, o que assegura a variedade do cardápio do dia-a-dia. Abriu também um poço artesiano para reduzir a dependência da água da chuva, problema mais grave a cada início de ano.
Com isso, ele mantém a produção de milho e feijão, tem batata-doce, macaxeira, jerimum, além de hortaliças que são distribuídas e trocadas com agricultores da região e também comercializadas em feiras. Outra saída criativa de Borges é a confecção de doces a partir do xique-xique, um cactáceo comum no Semi-Árido. A produção faz parte da merenda escolar de escolas de Soledade (PB).
O sítio também conta com um biodigestor, usado basicamente para fornecer gás de cozinha para a numerosa família, o que gera uma economia de um botijão e meio de gás por mês. O biodigestor ainda evita o desmatamento para se obter lenha.
Além do clima, outra dificuldade enfrentada por Antônio é a qualidade do solo. Por conta de um programa governamental que incentivou o desmatamento para o plantio de algaroba, no fim dos anos 1970, seu pai acabou apostando na planta como forma de subsistência econômica, já que ela fornece madeira para estacas, carvão e vagens para uso de forragem. Assim, vendeu dois tratores e desmatou 75% do território. O resultado foi o empobrecimento do solo, que só agora começa a ser lentamente recuperado. “Com a algaroba, às vezes não se tem um feixe de estacas nem depois de trinta anos. No lugar em que houve desmatamento, a água corre sem umedecer o solo e, ainda por cima, causa erosão”, ensina Borges.
Hoje, as alternativas implementadas fazem com que o sítio receba aproximadamente mil visitantes por ano. “É difícil sobreviver, mas, se tiver uma família organizada que trabalha em casa, funciona”, explica. Em média, toda a produção assegura 400 reais por mês para a família de Antônio.



No artigo

x